AVISO

By admin On novembro 2nd, 2009 in Sem categoria /

Pessoal, devido a produção do projeto “COLUNAS DIÁRIAS: Websérie” novas colunas serão postadas apenas em Dezembro deste ano.

Esse mês de recesso servirá para que a temporada desta série seja completada e em breve disponibilizada em vídeo aqui para vocês.

Muitas novidades estão previstas!! Continuem acessando twitter.com/colunasdiarias para mais informações.

Até breve!

Marcela B. D´Angelo.

Ed. 27 - Todo o tempo (por Alicia)

By admin On outubro 18th, 2009 in Alicia, Poema /

Quanto tempo é muito tempo?

Eu me pergunto.

Presumo que tanto faz.

.

Afinal, quem escolhe o tempo, escolhe sua prioridade.

A maneira que impetuosamente escolheu viver e aplicar tal bem.

.

Mas, ele corre, ele domina, ele é implacável.

.

Eu faço parte dele, pois ele não existe sem mim.

Meu tempo acaba quando eu acabo.

.

É injusto não conseguir acompanhá-lo

Meu relógio é traiçoeiro

Seus ponteiros trabalham para me provocar.

.

Tanto deve ser feito ou dito.

Não sou somente eu que falo

Por via de regra, sabemos que nos concerne viver apenas.

.

Ele nos une ou nos separa. Ele determina quando

Está, esteve ou estará

Aqui, neste exato lugar.

.

Se o tempo não se importa com minha vontade, como serei sua amiga?

Não deveria declarar-me livre? Criar minha própria contagem?

E trocar segundos por sorrisos, minutos por abraços e horas por historias?

Reflito sobre o tempo, pois ele me lembra do que não posso controlar.

.

Não tenho tanta idade.

Porém, já estou atrasada em demasia para alguns sonhos.

Não posso mais ser tantas coisas

Muitas não são mais opções.

.

Os 17 são os novos 25

Os 25 são os novos 32

Por que querem obrigar-me a ser mais rápida do que minha própria natureza?

.

Veloz, acelerado

Não sei se houve tempo de ser, neste “meio tempo”.

Estou perdida, fora de ritmo.

Para que lado corro?

Já foi dada a largada e não hei de aprender galopes agora.

.

Precisar de tempo para entender o tempo

É, de fato, irônico.

Ed. 27 - Revolução Masculina (por …….. Victor)

By admin On outubro 17th, 2009 in Crônica, Victor /

Todos já ouvimos muito falar sobre a incrível Revolução Feminina.

E, em todas suas bravas conquistas que vemos desabrochar, até hoje, fica clara também toda a sua força.

Durante o processo, mudanças de comportamento variaram. Vivemos a fase da fêmea alfa e passamos a mulheres multifuncionais. A buscar o equilíbrio entre seus desejos, seus sentimentos e suas ambições.

Mas, isso já foi tantas vezes discutido. E constantemente retorna como um assunto extenso e complexo descrever nossas inebriantes mulheres.

.

O que gostaria de falar agora é algo que pouco nos perguntamos durante este tempo: E o homem?

Enquanto as mulheres finalmente começam a livrar-se do conservadorismo e machismo, descobriam-se e revelavam-se a toda gente, o homem simplesmente não entendia nada.

Vejam bem, não estou a cá para defender machistas. E nem poderia já que nunca fui um.

Não estou a falar que não seja verdade que, em outras épocas, o costume fazia com que o homem regozija-se no prazer da submissão feminina. E nem cegar-me-ei para esta postura, que ainda hoje revela-se, de atitudes cruelmente repressoras em relação às mulheres.

Disse e repito: A garra desta revolução trouxe merecidos reconhecimentos às mulheres.

O que quero dizer é que, ao mesmo tempo, entendo que desaprendemos como agir.

E que os homens estão mais perdidos do que nunca em relação às damas.

Elas querem cavalheiros ou isso seria considerado machismo?

Querem que eu seja romântico ou estou a ser pegajoso?

Preciso “pegar” esta menina, senão não serei homem?

.

Até então, os papéis a serem representados eram muito claros. Hoje, as pessoas têm que decidir por conta própria o que querem e isso leva tempo a ser descoberto.

Por essas, é primeiro necessário que tu saibas quem tu es e não como deverias ser.

O homem costuma saber muito bem o que ele precisa ser para ser visto como homem. Um macho. Mas são por vezes ideias bastante antiquadas, rígidas, que não correspondem com as ideias gerais encontradas na nossa sociedade hoje. As mulheres sabiamente evoluiriam sua percepção em relação ao seu tempo, os homens vivem uma cultura que está atrasada.

.

Antes conseguíamos nos provar através de autoridades: éramos detentores da posição social, hoje não somos mais. Éramos os independentes trabalhadores, e agora esta função não é apenas nossa. Éramos os chefes da família, hoje a família é uma democracia e com dois presidentes. E todas as funções exercidas pelas mulheres continuam a ser delas. Então, o que somos hoje?

.

A função do homem está a ser bastante contestada.

E pasmem, a culpa disso é nossa. Os maiores preconceitos que os homens sofrem vem da nossa tentativa de provar algo. Vou explicar:

Alguns conseguem ser mais prestativos e participativos, a criar não só um laço com sua família, mas um equilíbrio em tarefas e rotinas. Quando a igualdade é pronunciada em casa, esta ideia de funcionalidade deixa de ser contestada.

Mas sempre há homens com conceitos pré-feministas que se recusam a ajudar, tentando recobrar certa autoridade. Porém, também não vamos achar que o exagero de delicadezas irá funcionar.

.

Já ouvi muitos homens a falar algo do gênero: “Os homens são as mulheres de hoje”. É um conceito interessante, mas acho que o que gostariam de dizer é que, os homens mudaram de posição quando as mulheres começaram a assumir o controlo.

Talvez muitas mulheres, é claro, tenham começado a assumir uma postura que antes denunciava os tais machões.

Necessito dizer que, uma postura indelicada e desrespeitosa, independe vindo de um homem ou de uma mulher, é canalhice igual. E nada justifica tendo a ciência de que tu es sempre responsável pelos teus actos, e por nada mais.

Nessa mudança de postura, muitas coisas ficaram mal entendidas.

Claro, quando as mulheres falam que querem homens sensíveis, tu deves dar ênfase tanto a palavra “sensível” QUANTO à palavra “homem”.

Quer dizer: Dê valor a ela (a sua essência e a suas curvas), lembre do aniversário, a apóie quando ela chorar e não faça coisas como diminuir ou desrespeitar a sensibilidade dela.

Mas, isso não quer dizer: Aja como uma mulher. Em momento nenhum foi pedido que perdesses a identidade ou o pulso de homem. Equilíbrio é fundamental.

.

É relativamente fácil entender isso, mas porque debochamos dos sentimentos? E temos dificuldade em lidar com eles? Os próprios homens são os maiores repressores dos homens. Isso é visto, pois, a todo o momento, nossa masculinidade é contestada.

Por exemplo, falar algo delicado, fazer as unhas, falar que outro homem é bonito e, até mesmo, usar a cor de rosa, serve como deboche e contestação de virilidade. Que sentido isto faz? Nenhum! Obviamente, não comprova nada. Mas estes conceitos vêm de culturas de base familiar, passadas aos filhos homens, que crescem reprimidos.

Ou isso não é repressão? E sim, é injusto!

Veja bem, assim como as mulheres que tiveram, e ainda tem, suas atitudes julgadas por morais impostas, os homens também vivem este dilema. Apenas os ignoram, já que não é de nosso costume aprofundar sobre sentimentos. Quando tu es persuadido a acreditar em limitações, tu te tornas incapaz. Deve libertar-te de ti. A pressão social sofrida por adolescentes nas escolas é muito cruel. Os meninos são testados física e psicologicamente. E por toda a vida são instigados a provar a masculinidade.

.

Concluindo, está claro que, apesar de se recusarem a acreditar em toda sua pose de donos da situação, os homens precisam passar por sua própria revolução.

Vou definir a ideia: Onde estes elementos preconceituosos não sejam mais impregnados em nossas vivencias desde a infância. Onde não precisem a todo o momento reafirmar sua virilidade. Onde aceitem compartilhar ao invés de dominar, já que isso não funciona mais! Sem a pretensão de ser dono ou vítima. Sequer pensar sobre isso, sem achar que é frescura!

Mas, na nossa cultura essa história de abrir o coração ainda é coisa de mulher, não é? O que nos foi dito é que o homem deve ser prático, forte e objectivo.

Por essas, estamos presos e somos nossos próprios reféns. Temos muito que crescer.

Ed. 26 - Harmonia (por Alicia)

By admin On outubro 11th, 2009 in Alicia, Poema /

Há harmonia em coisas que nunca vi.

Há sons nas ruas que nunca ouvi.

.

Disseram que há flores

Colorindo jardins

E amores que não precisam mais de mim.

Melhor assim.

.

Desconheço também algumas culturas

Alguns mundos e relações.

Não sei, em abundância, palavras e ações.

.

O que reconheço é demasiado interno

Ainda que profundo, é cheio de luz

Energia

E vida.

.

Por muitas vezes, mais laborioso de ser visto

Mais doloroso de ser descoberto

Não há como te ausentares de algo que vive em ti.

.

Esta é a resposta às culturas e outros universos.

Antes de impulsionar ao entendimento do todo

Decerto deveríamos começar pelo básico.

.

Se nem mesmo desvendamos nossos mistérios mais particulares

Navegar em águas distantes não poderia ser brando.

.

Contudo, algumas descobertas podem apresentar uma nova vida

Em uma forma que não conhecíamos.

Aprender lições fora de nós

Inadvertidamente, pode ser nossa salvação.

.

Como explicar o motivo pelo qual as coisas acontecem, desta maneira, neste tempo?

E nosso medo diante do inesperado?

Como julgar egoísta a bravura de buscares tua própria felicidade?

Às vezes, é salvando um, que tu salvas todos.

.

Desbravar, porém, não é tão trivial

Desbravar-te, então, exige um outro grau de determinação e coragem

Em um universo sem coordenadas, uma batalha.

.

Sabemos que deveríamos ser sinceros e abertos

Mas, ignoramos informações

Que são tão sigilosas até para nós mesmos

E ninguém precisa saber.

De fato, quem suporta tal sinceridade?

.

É simples assim perder-te dentro de ti

E, por isto, este deve ser o primeiro passo:

Conhecer a mim para conhecer minha fé.

E, então, a busca da harmonia entre o que eu creio e o que o mundo espera.

Ed. 26 - Pessoas diferentes (por Noel)

By admin On outubro 9th, 2009 in Conto, Noel /

Eu estava proseando com o meu amigo Wagner noutro dia exatamente sobre esse tema que perguntaram hoje, diversidade, que parece ser algo um tanto mais simples do que realmente é, eu garanto pra você. Pois, pelo meu ponto de vista, nada causa maior contrariedade do que a diversidade de opiniões. Acredito que a confusão se apresente porque diversidade indica as diferentes pessoas, mas não fala neca sobre as pessoas diferentes. Existem várias maneiras de se dizer o mesmo trem e várias maneiras de reagir a algo, porque não existe a melhor maneira… Vai do gosto do individuo.

Ta certo, to sendo vago, então, vou dar dois exemplos, duas faces da mesma moeda, que, por um descuido do destino, se encontraram em um mesmo tempo e espaço habitável, um tanto de “universo paralelo”, e demoraram um tempo para perceber que eram tão iguais em suas diferenças.

Eduardo cresceu a exatamente 10 km de distância de Janis e, óbvio, se encontraram em muitas circunstâncias onde nenhum deles deu comporta a tal presença. Pura questão de ignorância. Se ambos soubessem que anos mais tarde seriam inimigos e por isso tomariam tamanha importância na vida do outro, talvez as coisas fossem diferentes. Mas, não importa o que seriam e sim, o que foram.

Assim, no verão de 1987, Janis espia pela primeira vez Eduardo e enxerga ele.

Eduardo era mais velho, porem Janis era mais alta e como eram opostos em praticamente tudo o que se poderia descrever fisicamente vou parar as descrições por aqui. Bem, contudo Janis não era apenas maior que Eduardo, ela era mais alta do que todos os garotos e por isso, havia adotado uma postura diferenciada, e se não fosse por várias vezes revelada sua timidez, era facilmente confundida com arrogância. Janis gostava de pensar que era o poder que todos viam e enchia de uma marra dificilmente vista em garotinhas de 9 anos. Como diria sabiamente o meu avô: “O mais alto do lugar sempre está fadado a comandar algo, pois não passa desapercebido”. Porém, Edu que era mais velho e, portanto, mais sábio, era aquele que não se deixava intimidar, e Janis pôde ver, de uma vista privilegiada, que ele seria uma pedra em seu sapato.

Ela gosta de amarelo, vôlei, competições e rock. Ele gosta de azul, basquete, amigos e folk.

Em todas as brincadeiras faziam grupos rivais, logo era um tanto comum, em brincadeiras como queimada, restarem apenas os dois no final, em uma batalha incessante. Ganhar era importante por demais, para ela reduzia as inseguranças e para ele era certeza de ser ouvido. Quando os pais se separaram, ela virou rebelde e ele, depressivo. Todavia, os dois clamavam por atenção, cada qual a sua maneira.

Então, por todas essas diferenças, depois de um tempo, eles afastaram. Com a idade essas picuinhas eram reservadas apenas a pessoas importantes. Eles não eram mais obrigados a brincar juntos ou a fazer par em festa junina, nem ao menos freqüentar as mesmas festinhas de aniversário, pois cada um tinha encontrado seu lugar em grupos de amigos diferentes e esse espaço foi respeitado não havendo mais atritos. Parecia que finalmente os dois entendiam o conceito de “respeitar as diferenças”, o que revelaria uma grande mentira nos próximos anos. Afinal, eram tanto as diferenças quanto as similaridades que os levariam a compartilhar a mesma história novamente.

Foi quando eu os conheci e tornei amigo dos dois, separadamente. Não sabendo que já se conheciam, quando meu amigo Eduardo disse que havia terminado um namoro de 5 anos e sentia só, e minha amiga Janis reclamou que estava cansada de relacionamentos vazios e pronta para um negocio mais sério, achei que os dois haviam de se arranjar. Nenhum dos deles, porém, pareceu afim de um encontro às escuras. Em primeiro momento, recusaram. Depois de alguns dias, e algumas crises de solidão, os dois voltaram a me procurar com umas ladainhas que, obviamente, pretendiam desembocar em minha antiga proposta indecente. Sem querer ser causador de constrangimento, logo voltei ao assunto, e daí marquei o encontro.

À medida que o tempo passava, a curiosidade que tomava conta dos dois adotava tons de ansiedade, entretanto mantinha a sobriedade de dois espíritos velados em grande desconfiança e tanto um quanto outro decidiram esperar para ver. Às exatas 20:30, no restaurante marcado, Janis espreitava a mesa meticulosamente reservada para o encontro por trás de algumas folhagens que enfeitavam a entrada. A alguns metros dali, Eduardo fazia a mesmíssima coisa, pelo mesmo motivo, mas pela perspectiva da lateral do restaurante, revestida por uma vidraça. Os dois esperavam pela aparição do parceiro, que nunca apareceu. Em um determinado momento, Janis que tinha escolhido uma posição mais próxima, porém desconfortável por demais, começou a se incomodar com o salto alto e com os mosquitos que vinham das folhagens e Eduardo, que escolheu uma situação mais agradável, porém com um ângulo de visão inferior, ficou rapidamente impaciente e entediado com a monotonia. Chegaram à conclusão de que levaram um “bolo” e foram para casa caído das nuvens.

No outro dia, me ligaram e eu demorei um tanto de tempo para entender o bololo. Eu estava enganado porque talvez essa não fosse a maneira ideal de se conhecerem. Então, no dia do meu aniversário, que era próximo, convidei os dois. Eduardo chegou primeiro. Em seguida, assim que Janis apareceu levei até ele. Quando deu conta de ver o rosto dele, ela empacou, logo olhei para ela surpreso e ela disse que o conhecia. Perguntei se ela tinha certeza e ela disse que o conhecia por foto. Janis é terapeuta e há pouco tempo sua amiga e paciente terminou um relacionamento de 5 anos com um Eduardo, e cê não mede o tanto que ele parecia com o Eduardo que avistava agora. Nesse momento, o próprio Edu nos viu no meio da pista e foi na nossa direção. Eu não sabia o que fazer, Edu vinha decidido conhecer ela e Janis estava mais arredia do que interessada.

Contudo resolvi apresentar, na esperança de que Edu não fosse quem Janis achava, porem, percebi que quanto mais ele chegava mais força a expressão dela ganhava. Edu puxou conversa sobre a festa e as pessoas, sem resposta. As primeiras palavras que Janis ofereceu a Edu foram: “Olha só, Eduardo, qual é o nome da sua ex-namorada, mesmo?”. Momento de tensão. Ele ficou desconcertado, e sem graça disse: “Renata. Por que?”. Janis deu uma esbravejada, virou as costas e arredou. Edu, perplexo com a atitude, foi atrás dela para saber o que significava aquele tanto. Janis foi enfática: “Eu já conheço você. Mais que bem! Eu sei o quanto você pode ser nocivo e egoísta, mas você não esperou nem um mês pra procurar outra…”. Eduardo, surpreso, não conseguiu alem do que gaguejar “Mas, de onde…” e ela, continuou subindo nas tamancas “Poxa, a menina ainda está na terapia e você na vadiagem de novo!”. Aí, ele exclamou: “Peraí, você é aquela terapeuta maluca!? Eu sabia que isso não havia de vir dela, ela nem sabe o que significa nocivo!” e a briga começou com a réplica de Janis: “Você pode tentar diminuir o quanto quiser, mas quer saber? Ainda bem que ela realmente me ouviu dessa vez”. Eles começaram a alterar a voz no meio da festa. Edu gritava: “Você acabou com meu relacionamento de cinco anos, sua doida!” enquanto ela: “Eu nem poderia estar falando disso com você, mas o senhor merece ouvir umas…”. Eles perdiam a tramontana e a imagem que vinha, inconscientemente, na cabeça dos dois era um jogo, incessante, de queimada. Até, um amigo mais preocupado aproximar dos dois e perguntar “Janis,ce tá boa?”. Estava tudo bom, pois estavam bem familiarizados com a situação e houve uma sensação estranha de deja vu.

Todavia, Eduardo, que na primeira vez que falei o nome “Janis” já ficara intrigado, só percebeu ali que aquele nome diferente não era de coincidência e quando ele falou alarmado “Janis?? Do Colégio Bragança?”, ela automaticamente associou a expressão do rosto de Edu à daquele garotinho metido a sabe tudo que importunava ela. Daí, foi um passo… para o abismo. O problema era que a única coisa que eles sabiam que tinham em comum, além de mim, era uma tremenda antipatia. Juntamente com a revelação, várias lembranças voltaram pra eles. Eles eram diferentes, defendiam lados opostos em todas as batalhas e, portanto, eram inimigos naturais. Eduardo, que havia tornado um grande advogado, saiu da festa prometendo processar Janis tanto por abrir o sigilo médico/ paciente, quanto por prejudicar seu relacionamento. Ela ameaçou alegar insanidade e pedir uma ordem de restrição a que ele riu, pois aparentemente, não existe ordem de restrição no Brasil e ela esta vendo filmes demais. Com tal índole, apenas poderiam ter se tornado justiceiros ou bandidos e foi exatamente o que aconteceu. Sendo que, quem era o bandido e quem era o justiceiro dessa história dependia de por qual ponto de vista você escolhesse olhar.

Que nem bons competidores, tinham curiosidade de saber quem é o adversário. O que ele tem? Que armas usa? Sendo eu o elo de ligação, começaram a competir pela minha atenção e informações. Foi quando, em fogo cruzado, me decretei Suíça e simplesmente respondia aquilo que era questionado. A munição que juntaram um sobre o outro era tanta que podia vencer algumas guerras. Aos poucos, essas implicâncias foram tomando conotações inflamatórias, assim que percebiam algo totalmente repulsivo sobre o inimigo. No dia que Eduardo, um conservador, descobriu que Janis era de esquerda, ele comentou com sarcasmo “Isso explica tudo!” e quando Janis soube que Eduardo mexia com uma das corporações que defende “grandes poluidores” que nem ela os chama, falou furiosa: “Isso não é apenas sobre nós! Ele é pior do que eu pensava”.

Agora suas picuinhas iam além de uma implicância pessoal. Depois de tanta procura, finalmente conseguiram desculpas legais e embasadas para atazanar com a vida do outro. Justificativas para estarem em lados opostos no pátio do colégio.

Conforme, chegou o dia do julgamento. Ah, sim! Eles acabaram indo a julgamento, porque incrivelmente não era figura de expressão quando falavam em processos por causa que Eduardo nunca brincava com o jurídico e Janis nunca deixava de cumprir uma ameaça. No tribunal, foram apresentadas evidências que colocavam carreiras em risco e morais à prova. Entretanto o juiz, levemente entediado, pelejava entrar em um acordo, enquanto refletia sobre como é que dois jovens bem arranjados não tinham mais o que fazer e que, no seu tempo, as coisas eram diferentes. Foi quando Janis, exigindo atenção do juiz, começou a se exaltar, resultando em um bate-boca com Eduardo, que logicamente não parava de caçar confusão. Com a grande desordem instaurada no tribunal, o juiz percebeu duas coisas: a primeira que há anos não presidia um caso de divórcio, o que o levou a segunda percepção; nenhum dos dois queria um acordo, estavam ali, portanto, com o único propósito de perder seu tempo. Avisou duas vezes para acalmarem, mas na terceira vez ele ficou nervoso com aquele rabo de foguete e mandou prender eles temporariamente por desordem e desacato.

Não poderia de haver situação pior para ambos. Dividir o mesmo cubículo com aquele que mais odeia é no mínimo desagradável. Lembraram, porém que nunca passaram mais de 5 minutos respirando o mesmo ar e que então, eram estranhos. O conhecimento que obtiveram sobre o outro, na realidade, era apenas o conhecimento prévio da interpretação de uma terceira pessoa e pensaram que, se eu não o/a conheço, ele/ela também não conhece a mim. Será que é por isso que me odeia? De repente todas as teorias e estratagemas foram pelo ralo. Que graça tem odiar uma pessoa que, na verdade, não me odeia?

Portanto, com medo do fim dessa relação duradoura, ambos forçaram uma conversa que resultaria em maior conhecimento sobre a mente do outro, na certeza de que, no final, dariam conta de encontrar aquela sensação de desdém que primeiro impulsionou eles. Não deu muito certo. Identificavam as opiniões opostas, entretanto havia uma essência verdadeiramente parecida. Não podiam negar, ou julgar, sua teimosia em comum, tanto quanto a desconfiança, competitividade, curiosidade e insegurança. Quando foram liberados possuíam uma impressão completamente diferente sobre o outro. Havia um tanto mais de respeito, compreensão. Não existia só uma verdade e por causa disso, não havia motivo de inimizades, nem tudo necessitava ser preto ou branco. Diferente era levemente melhor do que indiferente. Como vêem, essa não é uma história de amor. É principalmente uma história de ódio que culminou em aceitação.

Embora, estaria mentindo se dissesse que idéias conceitualmente românticas não passariam em suas cabeças. Se fosse dada a dica de como fugir da tal prisão através de sentimentos mais nobres, Edu em sua gana por vitória teria a idéia brilhante: “Vou casar com ela, só para fazer ela infeliz” e ela casaria com ele, pois quereria vingança. Concluo isso porque, no amor e no ódio, só muda a intenção, pois a obsessão é a mesma. Mas, nesse caso, eles não tiveram tanta sorte não. Não importa o que eles pensariam, e sim o que aconteceu.

Eles entraram em um acordo, e apesar de não tornarem melhores amigos, Edu sempre liga para Janis quando carece de argumentos em seu trabalho, e Janis liga para Edu quando sente insegura sobre qualquer questão, juntando o melhor dos dois mundos e aceitando as diferenças.

Então, apesar daquele ditado, “os opostos se atraem”, essa história mostra que talvez o ditado devesse de ser “os opostos se colidem e eventualmente estagnam”.

Como duas faces de uma mesma moeda, eles nunca haviam de se ver totalmente. Qualquer entendimento maior do que aquele estava fadado ao fracasso. Para eles, entender isso foi entender tudo. Que nem eu disse: Duas coisas iguais que são diferentes. Igual, na verdade, tudo na vida. Não é mesmo?

Ed. 25 - Roda (por Alicia)

By admin On outubro 6th, 2009 in Alicia, Poema /

No Patheon

Ou no meu campo

Entre monumentos ou estradas

Jardins ou montanhas

Preciso guardar um dia para ver a Terra girar.

.

O tempo passar enquanto eu fico

Fitar o céu, acompanhá-lo em sua rotação

Que se completa independente de mim

Do meu olhar

Da minha vontade.

.

À medida que visualizo cada momento

Me sinto em contato com o mundo

Um pequeno fragmento.

.

Ao mesmo tempo, você é o centro

O eixo, parado, imóvel

Enquanto tudo em volta

Vai surgindo e se perdendo

Apenas de passagem.

.

A ilusão de um controle

Que nunca nos pertenceu

De um movimento o qual também fazemos parte.

.

O que não muda em um segundo?

E como resistir a algo que desequilibra nossa percepção?

Mas, se, de fato, me fosse dada a incumbência

Não pararia o tempo

Ou seu soberbo espetáculo disposto

Que celebra seu fim e seu renascimento.

.

Ele me desperta

Mas, também tem o poder de congelar minhas ações.

.

Muitas vezes é a paisagem que nos corteja

E toda sua graduação de cores

Que atiçam os sentidos.

.

E que, com o devido cuidado

Também mostra aos mais atentos

A natural beleza preservada

Em nossas rotinas.

.

É uma contemplação de todas as noites,

Poucos se preocupam em assisti-la agora.

.

O mundo é tão extraordinário

E nós quase o perdemos todos os dias.

.

Espero que o tempo nos ensine

Antes que nada mais reste

Antes que entremos em curta temporada

A admirar sua graça

A lhe dar o exemplar valor.

.

Apesar de não haver ingressos para tais apresentações.

Por sorte, estão sempre a disposição dos mais interessados.

.

Não há assentos marcados

E qualquer vista é privilegiada.

Aviso !

By admin On outubro 6th, 2009 in Kaká, Manô, Victor /

Peço desculpas aos leitores pela demora na publicação Ed. 25, com o novo poema de Alicia.

Essa semana, mais duas colunas, da Ed. 26, serão publicadas normalmente!

É promessa! Fiquem de olho :)

.

Marcela B. D´Angelo - Admin. Colunas Diárias

Ed. 25 - Campeão mundial de Peteca …….. (por Noel)

By admin On outubro 2nd, 2009 in Conto, Noel /

Eu gosto por demais de viajar, é mesmo. Mas, eu sou daqueles que gosta de viajar sem rumo definido. Não há melhor maneira de conhecer um lugar do que desvendar, sem uma pesquisa prévia que inclui sempre a percepção de outras pessoas sobre o que é importante ser visto e admirado. Isso, logicamente, exige que você seja mais flexível sobre o que pode achar no caminho, talvez neca de colchões confortáveis, ou uma cama, ou nem um teto sequer. Todavia, como sou um colecionador de histórias e nunca tive o hábito de dormir tanto, não importo não. Nada me preocupa quando estou na estrada.

Foi nessa energia que, mais uma vez, pegava o ônibus de Jequitinhonha até BH para ver uns conhecidos, e quando o ônibus quebrou no meio da estrada nos deixando na boca de uma cidade chamada Canto dos Amaral, todos seguiram e eu lá fiquei. Queria saber qual era a butica. Sinceramente não sei do que tanto as pessoas reclamam. Estava ali uma oportunidade de conhecer algo que, se não fosse o ônibus quebrado (e massacrado por aquela população) provavelmente nem saberíamos da existência e, ao invés de olhar os belos jardins que comportavam a singela placa de “Boas vindas”, todos olhavam com desdém a carcaça traiçoeira do automotor.

Como diria (ou cantarolaria) sabiamente meu amigo Wagner: “Sorria, sorria, e se o céu não estiver azul, olhe para o chão. Lá a grama está sempre verde. Sorria novamente”.

Eu não necessariamente sorri, mas senti uma leve empolgação no momento que adentrei a cidade esperando conhecer ela e esperando que ela não importasse em me conhecer. BH poderia aguardar. Ela aguardaria de qualquer jeito, pois naquela altura, quando o motorista perguntou: “Você não vem?”, minha curiosidade e espírito de aventura responderam “Eu já cheguei”, e o próximo ônibus passaria só dali a três dias.

Pois andei até o centro da pracinha, onde havia um coreto, para ter uma visão maior da cidade. A visão foi panorâmica. Pois a cidade era de fácil visualização, descomplicada, calma e…vazia. Onde quer que eu olhasse espiava casas simpáticas e, apesar de simples, aparentemente harmoniosas que pareciam feitas de renda que nem uma casinha de boneca.

“Será que alguém mora ali?”, matutei. Não era possível alguém viver ali, era um lugar para ser admirado, sô.

Enquanto refletia sobre isso, vi uma criança passando com uma pipa vermelha que brilhava no céu, e como o menino corria para pegar o impulso, e corria muito mais rápido que eu a uma distância maior, fui seguindo o rastro da pipa vermelha ofuscante.

Até que a pipa ficou presa a uns galhos de árvores, e tive a oportunidade de perguntar ao garotinho triste na calçada onde estavam todos. Ele apontou para uma casa rosa e grande no final da rua, já que não podia falar com estranhos. Descobri isso, porque ele contou.

Fui até a casa e, para a minha surpresa, toda a cidade estava lá. A fachada da casa era bonita e pomposa, porém mal comportava os tiquim de habitantes da cidade que espremiam no salão em um calor descomunal.

Neste momento, estava acontecendo uma reunião da cidade e, em pé em uma cadeira, o prefeito discursava sobre a importância dos próximos dias, que no decorrer do discurso descobri ser referente a um evento mundialmente conhecido: o Campeonato Mundial de Peteca. Naquele ano, o Brasil havia ganhado o privilégio de sediar tal campeonato, originalmente no Rio, todavia por questões de força maior, foram passadas as honras para Belo Horizonte e há algumas semanas a capital decidiu não arcar com esse evento tão importante, oferecendo a oportunidade à cidade que provasse de mais competência para fazer a recepção. Sabendo disso, e sendo grande conhecedor da arte da peteca, o prefeito rapidamente colocou o nome da cidade na lista e, incrivelmente, foi escolhida. Agora, organizavam para a recepção e se existia algo que os canto-amarences sabiam fazer, era receber. Todos, mesmo naquele calor e confusão, pelejavam idéias empolgantes sobre o que podia fazer para deixar os visitantes mais confortáveis: abrir espaços nas ruas para carros passarem, colocar uns breguetes enfeitados e talvez placas nos locais.

Eu observava tudo da porta do salão, e conforme a reunião foi encerrada e eles viraram para ir embora, todos pararam, ficando estáticos ao me ver ali. De repente, eu tinha uma cidade encarando. Eu não sabia o que fazer, e eles também não, já que planejavam uma recepção e eu peguei eles em flagrante. Sentiram que suas “máscaras” de perfeitos anfitriões desmantelaram com minha invasão. Como, naquela altura, eu não poderia mais fazer o papel de convidado maravilhado, minha única saída foi juntar a eles. Logo falei, “Nossa, quanta idéia boa demais! É disso que a cidade necessita, desse incentivo, dessa disposição! Ótima essa das placas…”. Então, eles sorriram e foi assim que me tornei um deles. Um cúmplice. Breve já estava ajudando a pintar as tais placas e definir pontos estratégicos, chamando todos por apelidos e hospedado na casa do Seu Euclides, cuja esposa era uma dona doceira da cidade.

Ah! Fiquei impressionado com a empolgação de todos. Não tratava apenas de trazer recursos à cidade, ou de colocar eles no mapa não. Eles acreditavam que estavam apoiando algo importante. Não importava a peteca não ser um esporte famoso e o evento ter pulado de mão em mão que nem uma peteca, ou melhor, batata quente, pois estariam ali reunidas pessoas que acreditavam em algo, que dedicaram suas vidas a isso e que, igual eles, possuíam a paixão por algo que não era reconhecido, que não tinha espaço ou chance. Os cidadãos estavam fazendo a justiça e a festa que eles nunca tiveram. A homenagem a todos eles, daquele povo bom de serviço que num parava por nada!

Logo pude perceber que as pessoas daquele lugar eram diferentes, pessoas que insistem em ver mágica no mundo. Nada é simples ou ordinário em suas vidas que um tanto de gente consideraria bem simples e bem ordinárias.

Entretanto, no outro dia, quando acordei, tinha ninguém de novo. Eu sou do campo, e acordo cedo, mas, eles davam conta de me superar. Não havia ninguém na casa, porém na praça havia uma comoção. O prefeito estava transtornado, caído das nuvens e sentado em seu banquinho, enquanto filho dele tomou as rédeas da conversa, tentando acalmar a todos. O que aconteceu foi que o representante brasileiro do campeonato, naquela manhã, estava pronto para pegar o ônibus para Canto dos Amaral quando um grave acidente aconteceu bem em sua frente. Um jipe e um ônibus chocaram violentamente, e o campeão nacional de peteca pensou “Ainda bem que não estou neste ônibus”, segundos antes de ser atingido pela roda do ônibus em alta velocidade e morrer na hora. Sendo assim, ele estava impossibilitado de comparecer, pois não perderia seu funeral por nadinha. O prefeito estava triste com a morte, contudo estava desesperado pois, pelo regulamento, só é permitido sediar um campeonato mundial o país que possuir um representante residente e naturalizado para o esporte. Ou seja, o Brasil estava fora.

Comovido com aquela imagem, onde uma população inteira sucumbia à perda e ao tédio, e suas lágrimas cobriam o que antes era o semblante da esperança de um povo adormecido, resolvi fazer o único trem que estava ao meu alcance de fazer. Trazer de volta a merecida chance pela qual todos batalharam e fazer acreditarem novamente. Passei por todos eles na praça, e chegando até o coreto, anunciei para a multidão triste e silenciosa: “Preocupa, não! Eu posso representar o Brasil”. Todos pararam para ouvir minha explicação, e ela era demais de simples. Não era exatamente com petecas que eu mexia, mas fui campeão estadual, e depois brasileiro, de ping-pong, que, por sorte, compartilha da mesma técnica angular e artes habilitarias da peteca. Considerado por muitos um esporte mais complexo, principalmente pelos chineses, este título nacional me alavancava, e apenas a mim, como possível e honrosa opção de substituição ao cargo. Mede o tanto de bom que foi? A cidade aplaudiu, o prefeito parou de chorar, só que ainda não estávamos salvos. O comitê do campeonato deveria aprovar minha entrada e este comitê, em especial, era conhecido como “meticuloso” e “sistemático”, o que lhe valia mais crédito e respeito do que o jogo em si. Após o anúncio da substituição, as pessoas começaram a chegar na cidade para a alegria geral. Nos reunimos em uma salinha: eu, o comitê e o prefeito. Passei mel na boca e lá foram apresentados todos os motivos pelos quais eu deveria ser aceitou, provas incontestáveis sobre minhas capacidades e minha posição sobre o movimento que insiste em tornar a peteca um esporte olímpico.

Quando finalmente convenceram da minha admiração e respeito, fizeram a seguinte solicitação: Todos ali tiveram de participar de 15 eliminatórias e eu deveria, portanto, jogar ainda aquela tarde com todos os 15 competidores de várias nacionalidades para que meu título valesse. Rabo de foguete! Aceitei, pois não sentia obrigação em ganhar nenhum jogo, sabendo que o grande propósito, o de tornar Canto dos Amaral sede do Campeonato, estava concluído. Porém, durante os jogos, uma pressão começou a aparecer. Não bastava ter conquistado a sede, todos queriam que eu ganhasse, todos gritavam o meu nome, e eu me sentia realmente encurralado. Fiquei envergonhado porque, até então, todos estavam sendo tratados com a maior das cordialidades. E agora esse bololo!

Apesar de exausto, insisti em todas as partidas, em resposta aquele povo que me recebeu, torcia por mim e do qual eu fazia parte. Decidi ser meu dever dar pra eles uma vitória. Dei conta de fechar o set, apertado, com o alemão Mikael Churraks, e confesso que balancei no 8º. e 11º. adversário. Vencer foi um momento de glória, e passamos o dia comemorando com todos e ensinando eles a sambar. Eu apenas observei, já que tinha encarado 15 partidas. Entretanto, foi apenas durante esse tempo de observação que pude perceber algo que antes minha falta de perspectiva e meus sentimentos por aquela gente não deixavam. Aquilo tudo era um grande teatro. Não existia nenhuma pessoa naquela cidade que se comportava que nem ela mesma, todas eram iguais e todas estavam desconfortáveis com as visitas. A recepção, a música, o samba não eram para mostrar quem são, era uma rede de segurança, um esteriótipo milimetricamente trabalhado para atender a todos sem se expor. No dia-a-dia, eles não seriam assim. Ninguém havia de ser, uai! Quem eram essas pessoas? Eu estava ali há dois dias, e não podia identificar nenhum individualmente, mesmo porque nunca estavam sozinhos. Eu era o herói da cidade, todavia o que eu defendi e que bandeira levantei? Logo eu, o campeão mundial de peteca!

No outro dia, pela manhã, a cidade já estava vazia novamente e eu que já estava acostumado com o horário da cidade, acordei mais cedo que o normal. Tive a oportunidade de ver algo estranho por demais. Seu Euclides e o resto da família arredaram do porão e o esconderam minuciosamente com um tapete felpudo. Descobri que a minha primeira impressão estava certa! Ninguém morava naquelas casas perfeitas e impecáveis, já que todos moravam em seus porões, onde podiam esconder suas imperfeições e humanidades do resto do mundo. Os porões eram sem noção, equipados e tinham mais cara de casa do que o “stand” montado para visitantes. Quando fui à rua, ainda abismado com o que presenciei, vi que, na realidade, aquele era o padrão da cidade. Estava tudo limpo e organizado, não parecia que havia passado aquele tanto de pessoas ou que ali houve uma história. Eles não tinham nada porque nada conservavam e eram esquecidos porque faziam questão de esquecer, apagando qualquer rastro do que eles são.

À medida que fui espiando algumas placas que ainda estavam suspensas harmonicamente, parecendo despropositais, mas não sendo, eu e eles pudemos ver a grande tentativa em ser aceito, em mudar tudo o que aquela cidade era e adequar a quem conhecesse ela, mesmo que fosse de passagem. As fachadas eram apenas fachadas, por assim dizer, e foi isso que fizemos todos aqueles dias. Que contradição! Se o ponto disso tudo era a simplicidade, o orgulho do que nós somos! Nada é ordinário, tudo tem sua importância! Como um povo que vê a importância e o prazer nas coisas simples poderia ter tanta preocupação com a imagem? A única justificativa que pude pensar no momento foi o medo que tinham em ser julgados, sendo tão difícil ser notado, pela aparência. As pessoas realmente têm a tendência a focar nas coisas ruins primeiro, sem perceber as boas, sem perceber todo o potencial e o que eles haviam de oferecer.

Infelizmente, eu não fiquei para descobrir se essa era a resposta. O ônibus estava chegando e apesar de ter um enorme carinho por aquelas pessoas fui embora triste, não por saudade, sim por pena. Só fiquei ali três dias, contudo já senti que vivi de lorota, um conto. Se eu fosse um visitante havia de ter adorado o faz-de-conta, mas, para mim, eu era um deles e eles tinham me deixado entrar. Estava enganado. Acho que não foi nada pessoal, apenas um instinto de defesa. Uma pena porque eu sou uma pessoa um tanto pessoal.

De qualquer forma, é um lindo lugar. Desde então esta cidade é parada obrigatória, pelo menos sempre que meu ônibus quebra.

Ed. 24 - Inspiração (por Alicia)

By admin On setembro 27th, 2009 in Alicia, Poema /

Inspirar.

Expirar.

Inspirar.

Repetir.

Observar.

Aprender.

Demonstrar.

.

Não basta checar uma lista de “a fazeres”

Quero entender, quero tocar.

.

Como suprir tantas ações que meu impulso provoca?

Como irei, de fato, saborear a todas de forma exemplar?

Inspirar. Para todos, porém para poucos.

.

Presumo, em estudo anterior, ser o instinto o guia fiel

Preciso sentir. Fluir.

Mas devo conciliar.

.

Equilibrar é o maior desafio de todos.

Sem dominar este não conseguimos dar um passo à frente.

.

Então, pondero

Na tentativa de explicar:

.

Existe o que eu tenho, existe o que eu sou.

Existe também o que pensam que tenho

E o que deduzem que eu sou.

.

O começo e, então, algo mais.

Depois o fim.

.

Nada acaba antes de fazer sentido.

O sentido são poucos que entendem.

.

Nenhum homem morre em vão

Muito menos nasce sem propósito.

.

Há sempre algo diferente.

Há sempre algo esperando para acontecer.

Há sempre algo que vale a pena.

.

Talvez, estas fossem descrições suficientes

Porém, nunca serão.

.

As pessoas têm tal tendência:

Na tentativa de explicar, elas simplificam.

.

Preciso, então, voltar a aprender

A complexidade constante

E esplendorosa

Sem a audácia de explicá-la novamente.

Ed. 24 - Lugar Incomum (por Kaká)

By admin On setembro 24th, 2009 in Crônica, Kaká /

Fui num evento massa essa semana. O evento era bom, mas eu não conhecia ninguém. Mas, desconfio que ninguém fazia questão de me conhecer, sabe? Seilavive, né?! KKkkk!

.

Eu sou muito brincalhona, mas aquela era uma exposição de quadros beneficente. Danou-se! Eu não poderia estar mais fora do meu habitat!

Circulei, circulei… até ficar tonta. Não achei nem a pessoa que me convidou. Na verdade, não tinha tanta intimidade com essa também. É que eu tô tentando dar um upgrade nas minhas relações, mas acho que dei um passo maior que a perna, cai de bunda pra cima e agora esse povo chique e beneficente tá se rindo nas minhas costas. hihihi

Mas, tudo bem, porque eu também estava me divertindo com a cara deles. Seguem as seguintes considerações:

Eu acho que o rico vê a estética de uma outra forma. São exagerados em tudo. A mulher não tem boca, tem bico de tanto botox. Não tem seio, tem teta de tanto silicone. Quanto mais deformado, melhor. A tirintintoza pode ser boa ali, mas lá na nossa neibohood, causaria estranhamento, visse.

Imagino as civilizações futuras analisando nossos corpos descavados…

- Essa daqui, com essa bolsa de plástico era uma das boas! O tamanho da bolsa media o poder.

Sabrina Bong-Bong será considerada figura ilustre. Finalmente! Kkk!

As roupas, avalie só, são muito amostradas. Olhe que eu tô acostumada com cores fortes e balangandãs. Mas nem minha tia Onofrea bate aquela peruada.

Os negocios que divertem o rico também são diferentes dos nossos. Primeiro, porque eles se abrem pra qualquer coisa. Ta certo! Porque não ririam, não é verdade?! Também queria ter a leveza de espírito de ter 30 milhões na minha conta corrente. hehe

.

Segundo, as piadas são sempre antigas e de mau gosto. Acho que demora um tempo até chegar a eles, já que quem faz piada é povão. Ricos não dominam a arte, por isso quando escolhe as piadas que vai contar são sempre as mais cabeludas. É de rápido impacto. O único rico engraçado no mundo é o Silvio Santos. Mas, ele era pobre. hihi

As ações solidárias também são muito diferentes. A gente faz mutirão. Lá uma senhora bicuda comprou um quadro de um macaco. O macaco conseguia ser mais feio do que ela. Daí ela vai sentir que já fez sua parte. Tudo bem, porque o macaco era muito feio mesmo. Ta certo!

Essa mania de rico, de resolver tudo com dinheiro! Que negocio ridículo! Só resolve 98% dos problemas, sabe?

Rico conversa diferente. Eles são contidos. Suas risadas são contidas, seus gestos marcados. Os assuntos são sempre tãaoooo desinteressantes. Ou é trabalho, ou a condição dos povos afegãos, ou é a nova coleção da Daslu… vai nesse nível. Ninguém conhece sucessos que nem “Me da o meu chip, Pedro”. Pude conferir isso depois de piadas mal sucedidas. Como eles podem ser tão desatualizados?!? Genteee, updatee!!

.

Mas, o rico só fica falador quando já tá manguaçado. Aliás, bêbado é uma merda. Mas, bêbado rico é muuita merda! Porque, o que é que acontece quando alguém bebe?! Se acha o maioral. Ou seja, um rico bêbado sempre será o máximo oposto da humildade. hahah

A comida de rico é uma merda! È pouca, e a pouca que tem é nojenta! Verdadeiro teste de resistência. Isso é porque rico é tão prático que só pede comida que não precisa (e não deve, eca!) ser mastigada. Seriam campeões de No Limite, se permitisse levar pelo menos um mordomo… of course!!

Rico nunca carece de SE apresentar. Ele já é conhecido, porque é um mundo pequeno, e quando vem de outro país, aí o abestalhado é apresentado. Com nome, sobrenome e brasão.

Então foi nessa, mais que em todas as demais, que eu fiquei fora do clubinho! Êeee…

.

Agora, o fato é que nos não somos tão diferentes assim. O problema não é ser pobre, e sim agir como pobre. De que adianta usar Versace se quando o garçom avisa do coquetel de camarão aquele bando de pobre enrustido se engruvinha numa fila tipo INSS?! Aff…

Rapaz, as horas ali não passavam! Como eu posso explicar… Tu já sentiu a sensação de estar em uma sala onde não tinha espaço pra ti?

Não, não era uma sala com todas as cadeiras ocupadas. Nem tinha cadeiras, porque era um espaço comunitário, e a última coisa que eu me sentia era comum, né?

“Isso é ótimo! Ninguém quer se sentir ordinário!”, eu falava pra mim mesma, seguindo o passo 327 que a “life coach” ditou. Tentando me animar, sabe?!

Minha life coach não é uma profissional. Apenas uma amiga fina que gosta de dar conselhos. Que pra mim é a mesma bosta! hehheh

Mas, tudo bem. Porque esses momentos me fazem pensar… “Realmente, tu tem coragem, garota! Quantas pessoas arranjam desculpas pra não enfrentar o que está enfrentando agora…” Muitas, eu calculo. Daí depois de calcular, decidi que são incalculáveis. Essas desculpas variam das mais amadoras do tipo, “Ah, não. HOJE eu queria ficar em casa.”, até a previamente elaborada e arriscada “Meu namorado não quis ir”. Acredita?

OK, naquela festa, a minha própria “life coach” me deu um bolo. Disse que houve um imprevisto inadiável, mas mesmo assim deveria seguir os passos delas. Eu até seguiria, no atual desespero, mas não sei onde aquela vaca se meteu. Kkkk

Chegou uma hora que não tinha mais graça. Tipo, comecei o chororo: “Eu queria ir embora, mas não queria ir. De jeito maneira posso mostrar que não me sinto confortável, mas isso vai acabar acontecendo se insistir em ficar”.

Porque, afinal, tudo é timing. Precisava sentir a hora de abandonar o recinto, com luxo, graça e leveza. Com sorte, as coisas continuariam do jeito que estavam e ninguém iria reparar que eu estive ali. hehehe

Então como nada mudava, já que estava mesmo diante de um bando de siliconada, resolvi dar uma de despeitada que eu realmente era: “Não conheço ninguém aqui e não queria mesmo que ninguém viesse falar comigo, me alugasse sobre assuntos que não sei e me fizesse sentir idiota”. Mas, mesmo assim, achei falta de educação ninguém até aquela hora ter indo se apresentar. Humf…

.

Se houvessem cadeiras… e Senhor, porque não havia cadeiras?! O salto tava me matando!… eu seria a coitada da cadeira do castigo, no cantinho da sala, com chapéu idiota na cabeça. O sina… hahah

Ciente das leseiras que estava pensando, resolvi uma hora lá tomar uma atitude.

“Sou uma adulta, pelo amor… Vou lá agora e falar o que eu penso. Opa! Lá não, eles estão falando sobre política. E agora?! Alguém pode falar de algo que eu entenda?! Fica mal puxar papo com o garçom?!”. Daí como não fui bem sucedida, joguei um foda-se no ar, arranquei a sandália e fui embora. Êita!

No meio do caminho lembrei que era sábado, então o churrasco ainda tava rolando lá em casa. Que felicidade, visse!!

Não adianta! Que nem diria a minha avó: “O pobre sai da favela, mas a favela não sai do pobre”.

Nem ligo de estar lisa. Quando o churrascão começou, dancei na laje até cair. Kkkk!