Ed. 28 - Palhaço do nariz azul ( por …….. Noel)

By admin On dezembro 13th, 2009 in Conto, Noel /

Aqui na minha cidade é costume amplamente conhecido assistir apresentações ao ar livre e você a de saber que eu tenho sempre coisa boa a dizer sobre os artistas locais e os visitantes que chegam aqui. Geram lembranças por demais esses momentos em família, quando trazem as crianças naquela laquera para correr livremente pelo parque central, porque sempre que vou lá lembro de quando o Circo Imperial parava por essas bandas, é até uma história engraçada.

Outrora, quando eu era pequeno, quem ajudou a cuidar de mim foi minha tia Carmem. Tinha acabado de perder minha mãe, e ela, vendo que eu estava amuado, resolveu me levar ao circo. Na realidade, eu fui mais porque não queria que ela sentisse que não havia o que fazer do que pela vontade de me divertir propriamente dita. Mas quando cheguei lá e vi aquela tenda vermelha gigante e trêmula, todos os balões e cores e ainda risadas, muitas risadas de crianças que nem eu, confesso que me permiti encher o peito de um calor amistoso que poderia ser chamado de felicidade, a qual durou alguns minutos e rendeu um sorriso, para a alegria da minha tia.

Batuta como quando a gente é pequeno tudo parece muito maior, né não? Isso aplica igualmente à cadeira da cozinha, à sala de aula, ao seu pai, e naquele dia, à tenda do Circo Imperial. Entretanto, não acredito que tivesse a altura de uma montanha não, mas para mim era isso que parecia e o picadeiro repleto de luzes e objetos que seriam usados aguçava minha curiosidade por demais. Incessantemente perguntava minha tia o que aconteceria a seguir, que nem um mini-papagaio eufórico. É que tudo aquilo fascinou: as brincadeiras, as gargalhadas, a contagiante sensação de que tudo era possível e trouxeram um conforto sem igual. Sem noção de bom!

Contudo, não vou dizer que me fez esquecer minha mãe, mesmo porque ainda hoje, depois do tanto de tempo, todos os dias eu lembro dela pelo menos alguns segundos quando acordo ou vou dormir. Muito pelo contrário, pensei fortemente nela o tempo todo e no tanto que era possível, mesmo sem ela, viver e ser feliz e transmitir felicidade. Logo, foi isso que o circo me ensinou e por isso eu decidi que queria fazer o mesmo pelas outras pessoas: passar a felicidade àqueles que não tem muitos motivos para rir.

Embora, tenha sido uma apresentação em especial que predominantemente me fez matutar essa conclusão sobre meu futuro, ou melhor, um pequeno incidente proporcionou uma mudança em meu futuro e no futuro de Geraldo, e no de Adailson também.

Bem, lá estava eu por demais de curioso para saber sobre as próximas atrações e decidido a entrar para o mundo do circo. Então, verdadeiramente encasquetado em desvendar toda aquela magia, aproximei dos bastidores e, como tinha uma estatura mirrada, passei com brecha pelas grades. Nesse momento, vi lá dentro uma grande correria e várias pessoas se pintando. O homem bala passou por mim com a roupa chamuscada, mas não me viu e a assistente do mágico procurava desesperadamente por um coelho, o que na época achei maior bestagem, já que era óbvio que ele estava na cartola, e se não estivesse, não é para isso que o mágico serve? Enfim, eu cheguei a um camarim com várias máscaras e em cima da mesinha, um nariz de palhaço! Resisti não! Daí sorrateiramente, coloquei o nariz e quando preparava para colocar o cabelo, o Geraldo, vulgo Palhaço Gegé, entrou, bravo mesmo, nunca vi um palhaço tão bravo, e enquanto ele gritava comigo e com os homens segurança e eu tentava rapidamente tirar os acessórios que tinha colocado, trupiquei e o nariz caiu em uma tinta azul usada para pintar o cenário. Nessa hora, foi um grande bobolo, porque não tinha nariz reserva e o palhaço “estrela” caçador de confusão, que já estava muito mais do que bravo, recusou entrar no picadeiro. Logo o palhaço! Ainda mais agora!

Eu fui expulso dos bastidores antes de saber o que tinha sido resolvido e sentindo culpado mesmo. Contudo quando voltei troado ao lado da minha tia, fiquei bem quietinho. Todos aguardavam ansiosos e eu, aflito demais. O que seria daquelas pessoas se descobrissem que estavam em um circo sem palhaço? Foi quando para o meu alívio, as luzes acenderam suavemente ao centro. Eles acharam uma solução! O palhaço resolveu entrar! Todavia, espiei que não era o palhaço que eu conhecia, pois era mais alto. Aí, neste momento, eu e todos mais conhecemos Adailson, o palhaço substituto. Adentrava bravamente ao picadeiro um palhaço, mas um palhaço de nariz azul. Todos ficaram em silêncio, caídos das nuvens. “Que estranho!”, uma dona ao meu lado falou, e era isso que todos pensavam nesse instante. “Qual o sentido disso?”, e eu me perguntei, “E qual o sentido daquilo que é diferente? A não ser que… ele é.”.

Mas as outras pessoas não compartilharam de minha paciência e culpa. Nem quiseram entender sua condição ou espiar o tanto de coragem que era dar sua cara a tapa apenas para fazer o show continuar. Num rabo de foguete! Todas as crianças irritantemente choraram, porque falaram que ele não era um palhaço de verdade não. Ninguém aceitava ele por ser diferente. Entretanto, era realmente a bola azul na ponta do nariz que fazia dele menos gaiato? Na realidade, não, e à medida que começou a apresentação, todos viram seu talento. Os mais receosos em mudanças demoraram um tiquinho, mas logo começaram a rir e aplaudir incessantemente. Ao fim do número todos estavam de pé. Não só era talentoso, mas era surpreendente, era mesmo, uma surpresa tanto de boa! Então, ele teve a certeza de que não seria esquecido. Ele queria ser diferente, pois ele queria ser lembrado ou, ao menos, reconhecido e teve essa chance. Achei astuto demais da parte dele. Daí, como havia ajudado ele em sua carreira, após o show o moço perguntou curiosamente porque estava no camarim do palhaço e contei pra ele minhas pretensões artísticas. Aí, ele me deu comporta para dizer se eu queria ser assistente e aprendiz. Esse é o Adailson, sempre justo mesmo, mas respondi que não daria conta de acompanhar, afinal era um momento que minha família carecia de mim. Muitas responsabilidades.

A partir desse dia, sua fama foi crescendo rapidamente de região em região,

até parar na televisão. Ele virou uma febre! O povo ficava doido com ele! Ah! Se você tem seus 30 anos deve lembrar do palhaço do nariz azul e ainda mais que vários pelejaram conquistar sua fama, que nem o “palhaço verde” e o “palhaço turquesa”. Mas, ele era imbatível! Por sorte, sempre que eu quisesse tinha acesso exclusivo no programa dele, e foi dali que posteriormente recebi grandes contatos e conheci mentores de minha carreira tão precoce. O palhaço azul foi como um mestre para mim. Foi ele que um dia me disse sabiamente: “Antes de desejar algo, de conquistar algo, conheça a você mesmo. Procure a verdade do seu sonho” e eu senti que esse era um conselho mais para ele do que para mim.

Alguns anos depois, ele afastou e a posição que ele ocupou foi ocupada por outros.

Não sei porque decidiu quiabar, mas ele nunca pareceu realizado suficiente, mesmo com todo o sucesso, e sentia falta de viajar com seu circo. Ele se destacava, com seu nariz azul e seu carisma inconfundível, era reconhecido por onde passava e era constantemente lembrado, mas a sua alegria estava cada vez mais nos palcos e menos em sua vida. Queria buscar outras felicidades, dessa vez para si mesmo, algo que havia esquecido pelo hábito da profissão. Hoje, ele nem é lembrado pela maioria. Porem, acredito piamente que não é porque não foi lembrado que também tenha sido esquecido, entende? As crianças crescem e querem uns trem novo, mas as lições que aprendemos na infância nunca são apagadas. Ele fez a alegria de muita gente e ajudou educar uma geração, cê num mede o tanto.

Mesmo que tenha afastado dos holofotes, certamente “um palhaço arreda do picadeiro, mas o picadeiro nunca arreda do palhaço”, que nem o próprio dizia, e fama não é sinônimo de felicidade, pelo menos, não com a liberdade que meu amigo tanto desejava. Mas, de agora queria mandar meu abraço para todos os circenses do Brasil e, em especial, para esse amigo bom de serviço que completa hoje 23 anos de profissão.

Alguém que esconde suas tristezas para gerar alegrias deve ser sempre lembrado.

One Response to “Ed. 28 - Palhaço do nariz azul ( por …….. Noel)”

  1. Felipe Willardson Says: abril 19th, 2010 at 2:02

    Meu blog é bem visualisado no Explorer e no Firefox. O seu parece que também é. Estou criando outro que está com esse problema de visualização. Você conhece algum plugin para isso? Seu blog é mesmo muito legal!

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