Eu estava proseando com o meu amigo Wagner noutro dia exatamente sobre esse tema que perguntaram hoje, diversidade, que parece ser algo um tanto mais simples do que realmente é, eu garanto pra você. Pois, pelo meu ponto de vista, nada causa maior contrariedade do que a diversidade de opiniões. Acredito que a confusão se apresente porque diversidade indica as diferentes pessoas, mas não fala neca sobre as pessoas diferentes. Existem várias maneiras de se dizer o mesmo trem e várias maneiras de reagir a algo, porque não existe a melhor maneira… Vai do gosto do individuo.
Ta certo, to sendo vago, então, vou dar dois exemplos, duas faces da mesma moeda, que, por um descuido do destino, se encontraram em um mesmo tempo e espaço habitável, um tanto de “universo paralelo”, e demoraram um tempo para perceber que eram tão iguais em suas diferenças.
Eduardo cresceu a exatamente 10 km de distância de Janis e, óbvio, se encontraram em muitas circunstâncias onde nenhum deles deu comporta a tal presença. Pura questão de ignorância. Se ambos soubessem que anos mais tarde seriam inimigos e por isso tomariam tamanha importância na vida do outro, talvez as coisas fossem diferentes. Mas, não importa o que seriam e sim, o que foram.
Assim, no verão de 1987, Janis espia pela primeira vez Eduardo e enxerga ele.
Eduardo era mais velho, porem Janis era mais alta e como eram opostos em praticamente tudo o que se poderia descrever fisicamente vou parar as descrições por aqui. Bem, contudo Janis não era apenas maior que Eduardo, ela era mais alta do que todos os garotos e por isso, havia adotado uma postura diferenciada, e se não fosse por várias vezes revelada sua timidez, era facilmente confundida com arrogância. Janis gostava de pensar que era o poder que todos viam e enchia de uma marra dificilmente vista em garotinhas de 9 anos. Como diria sabiamente o meu avô: “O mais alto do lugar sempre está fadado a comandar algo, pois não passa desapercebido”. Porém, Edu que era mais velho e, portanto, mais sábio, era aquele que não se deixava intimidar, e Janis pôde ver, de uma vista privilegiada, que ele seria uma pedra em seu sapato.
Ela gosta de amarelo, vôlei, competições e rock. Ele gosta de azul, basquete, amigos e folk.
Em todas as brincadeiras faziam grupos rivais, logo era um tanto comum, em brincadeiras como queimada, restarem apenas os dois no final, em uma batalha incessante. Ganhar era importante por demais, para ela reduzia as inseguranças e para ele era certeza de ser ouvido. Quando os pais se separaram, ela virou rebelde e ele, depressivo. Todavia, os dois clamavam por atenção, cada qual a sua maneira.
Então, por todas essas diferenças, depois de um tempo, eles afastaram. Com a idade essas picuinhas eram reservadas apenas a pessoas importantes. Eles não eram mais obrigados a brincar juntos ou a fazer par em festa junina, nem ao menos freqüentar as mesmas festinhas de aniversário, pois cada um tinha encontrado seu lugar em grupos de amigos diferentes e esse espaço foi respeitado não havendo mais atritos. Parecia que finalmente os dois entendiam o conceito de “respeitar as diferenças”, o que revelaria uma grande mentira nos próximos anos. Afinal, eram tanto as diferenças quanto as similaridades que os levariam a compartilhar a mesma história novamente.
Foi quando eu os conheci e tornei amigo dos dois, separadamente. Não sabendo que já se conheciam, quando meu amigo Eduardo disse que havia terminado um namoro de 5 anos e sentia só, e minha amiga Janis reclamou que estava cansada de relacionamentos vazios e pronta para um negocio mais sério, achei que os dois haviam de se arranjar. Nenhum dos deles, porém, pareceu afim de um encontro às escuras. Em primeiro momento, recusaram. Depois de alguns dias, e algumas crises de solidão, os dois voltaram a me procurar com umas ladainhas que, obviamente, pretendiam desembocar em minha antiga proposta indecente. Sem querer ser causador de constrangimento, logo voltei ao assunto, e daí marquei o encontro.
À medida que o tempo passava, a curiosidade que tomava conta dos dois adotava tons de ansiedade, entretanto mantinha a sobriedade de dois espíritos velados em grande desconfiança e tanto um quanto outro decidiram esperar para ver. Às exatas 20:30, no restaurante marcado, Janis espreitava a mesa meticulosamente reservada para o encontro por trás de algumas folhagens que enfeitavam a entrada. A alguns metros dali, Eduardo fazia a mesmíssima coisa, pelo mesmo motivo, mas pela perspectiva da lateral do restaurante, revestida por uma vidraça. Os dois esperavam pela aparição do parceiro, que nunca apareceu. Em um determinado momento, Janis que tinha escolhido uma posição mais próxima, porém desconfortável por demais, começou a se incomodar com o salto alto e com os mosquitos que vinham das folhagens e Eduardo, que escolheu uma situação mais agradável, porém com um ângulo de visão inferior, ficou rapidamente impaciente e entediado com a monotonia. Chegaram à conclusão de que levaram um “bolo” e foram para casa caído das nuvens.
No outro dia, me ligaram e eu demorei um tanto de tempo para entender o bololo. Eu estava enganado porque talvez essa não fosse a maneira ideal de se conhecerem. Então, no dia do meu aniversário, que era próximo, convidei os dois. Eduardo chegou primeiro. Em seguida, assim que Janis apareceu levei até ele. Quando deu conta de ver o rosto dele, ela empacou, logo olhei para ela surpreso e ela disse que o conhecia. Perguntei se ela tinha certeza e ela disse que o conhecia por foto. Janis é terapeuta e há pouco tempo sua amiga e paciente terminou um relacionamento de 5 anos com um Eduardo, e cê não mede o tanto que ele parecia com o Eduardo que avistava agora. Nesse momento, o próprio Edu nos viu no meio da pista e foi na nossa direção. Eu não sabia o que fazer, Edu vinha decidido conhecer ela e Janis estava mais arredia do que interessada.
Contudo resolvi apresentar, na esperança de que Edu não fosse quem Janis achava, porem, percebi que quanto mais ele chegava mais força a expressão dela ganhava. Edu puxou conversa sobre a festa e as pessoas, sem resposta. As primeiras palavras que Janis ofereceu a Edu foram: “Olha só, Eduardo, qual é o nome da sua ex-namorada, mesmo?”. Momento de tensão. Ele ficou desconcertado, e sem graça disse: “Renata. Por que?”. Janis deu uma esbravejada, virou as costas e arredou. Edu, perplexo com a atitude, foi atrás dela para saber o que significava aquele tanto. Janis foi enfática: “Eu já conheço você. Mais que bem! Eu sei o quanto você pode ser nocivo e egoísta, mas você não esperou nem um mês pra procurar outra…”. Eduardo, surpreso, não conseguiu alem do que gaguejar “Mas, de onde…” e ela, continuou subindo nas tamancas “Poxa, a menina ainda está na terapia e você na vadiagem de novo!”. Aí, ele exclamou: “Peraí, você é aquela terapeuta maluca!? Eu sabia que isso não havia de vir dela, ela nem sabe o que significa nocivo!” e a briga começou com a réplica de Janis: “Você pode tentar diminuir o quanto quiser, mas quer saber? Ainda bem que ela realmente me ouviu dessa vez”. Eles começaram a alterar a voz no meio da festa. Edu gritava: “Você acabou com meu relacionamento de cinco anos, sua doida!” enquanto ela: “Eu nem poderia estar falando disso com você, mas o senhor merece ouvir umas…”. Eles perdiam a tramontana e a imagem que vinha, inconscientemente, na cabeça dos dois era um jogo, incessante, de queimada. Até, um amigo mais preocupado aproximar dos dois e perguntar “Janis,ce tá boa?”. Estava tudo bom, pois estavam bem familiarizados com a situação e houve uma sensação estranha de deja vu.
Todavia, Eduardo, que na primeira vez que falei o nome “Janis” já ficara intrigado, só percebeu ali que aquele nome diferente não era de coincidência e quando ele falou alarmado “Janis?? Do Colégio Bragança?”, ela automaticamente associou a expressão do rosto de Edu à daquele garotinho metido a sabe tudo que importunava ela. Daí, foi um passo… para o abismo. O problema era que a única coisa que eles sabiam que tinham em comum, além de mim, era uma tremenda antipatia. Juntamente com a revelação, várias lembranças voltaram pra eles. Eles eram diferentes, defendiam lados opostos em todas as batalhas e, portanto, eram inimigos naturais. Eduardo, que havia tornado um grande advogado, saiu da festa prometendo processar Janis tanto por abrir o sigilo médico/ paciente, quanto por prejudicar seu relacionamento. Ela ameaçou alegar insanidade e pedir uma ordem de restrição a que ele riu, pois aparentemente, não existe ordem de restrição no Brasil e ela esta vendo filmes demais. Com tal índole, apenas poderiam ter se tornado justiceiros ou bandidos e foi exatamente o que aconteceu. Sendo que, quem era o bandido e quem era o justiceiro dessa história dependia de por qual ponto de vista você escolhesse olhar.
Que nem bons competidores, tinham curiosidade de saber quem é o adversário. O que ele tem? Que armas usa? Sendo eu o elo de ligação, começaram a competir pela minha atenção e informações. Foi quando, em fogo cruzado, me decretei Suíça e simplesmente respondia aquilo que era questionado. A munição que juntaram um sobre o outro era tanta que podia vencer algumas guerras. Aos poucos, essas implicâncias foram tomando conotações inflamatórias, assim que percebiam algo totalmente repulsivo sobre o inimigo. No dia que Eduardo, um conservador, descobriu que Janis era de esquerda, ele comentou com sarcasmo “Isso explica tudo!” e quando Janis soube que Eduardo mexia com uma das corporações que defende “grandes poluidores” que nem ela os chama, falou furiosa: “Isso não é apenas sobre nós! Ele é pior do que eu pensava”.
Agora suas picuinhas iam além de uma implicância pessoal. Depois de tanta procura, finalmente conseguiram desculpas legais e embasadas para atazanar com a vida do outro. Justificativas para estarem em lados opostos no pátio do colégio.
Conforme, chegou o dia do julgamento. Ah, sim! Eles acabaram indo a julgamento, porque incrivelmente não era figura de expressão quando falavam em processos por causa que Eduardo nunca brincava com o jurídico e Janis nunca deixava de cumprir uma ameaça. No tribunal, foram apresentadas evidências que colocavam carreiras em risco e morais à prova. Entretanto o juiz, levemente entediado, pelejava entrar em um acordo, enquanto refletia sobre como é que dois jovens bem arranjados não tinham mais o que fazer e que, no seu tempo, as coisas eram diferentes. Foi quando Janis, exigindo atenção do juiz, começou a se exaltar, resultando em um bate-boca com Eduardo, que logicamente não parava de caçar confusão. Com a grande desordem instaurada no tribunal, o juiz percebeu duas coisas: a primeira que há anos não presidia um caso de divórcio, o que o levou a segunda percepção; nenhum dos dois queria um acordo, estavam ali, portanto, com o único propósito de perder seu tempo. Avisou duas vezes para acalmarem, mas na terceira vez ele ficou nervoso com aquele rabo de foguete e mandou prender eles temporariamente por desordem e desacato.
Não poderia de haver situação pior para ambos. Dividir o mesmo cubículo com aquele que mais odeia é no mínimo desagradável. Lembraram, porém que nunca passaram mais de 5 minutos respirando o mesmo ar e que então, eram estranhos. O conhecimento que obtiveram sobre o outro, na realidade, era apenas o conhecimento prévio da interpretação de uma terceira pessoa e pensaram que, se eu não o/a conheço, ele/ela também não conhece a mim. Será que é por isso que me odeia? De repente todas as teorias e estratagemas foram pelo ralo. Que graça tem odiar uma pessoa que, na verdade, não me odeia?
Portanto, com medo do fim dessa relação duradoura, ambos forçaram uma conversa que resultaria em maior conhecimento sobre a mente do outro, na certeza de que, no final, dariam conta de encontrar aquela sensação de desdém que primeiro impulsionou eles. Não deu muito certo. Identificavam as opiniões opostas, entretanto havia uma essência verdadeiramente parecida. Não podiam negar, ou julgar, sua teimosia em comum, tanto quanto a desconfiança, competitividade, curiosidade e insegurança. Quando foram liberados possuíam uma impressão completamente diferente sobre o outro. Havia um tanto mais de respeito, compreensão. Não existia só uma verdade e por causa disso, não havia motivo de inimizades, nem tudo necessitava ser preto ou branco. Diferente era levemente melhor do que indiferente. Como vêem, essa não é uma história de amor. É principalmente uma história de ódio que culminou em aceitação.
Embora, estaria mentindo se dissesse que idéias conceitualmente românticas não passariam em suas cabeças. Se fosse dada a dica de como fugir da tal prisão através de sentimentos mais nobres, Edu em sua gana por vitória teria a idéia brilhante: “Vou casar com ela, só para fazer ela infeliz” e ela casaria com ele, pois quereria vingança. Concluo isso porque, no amor e no ódio, só muda a intenção, pois a obsessão é a mesma. Mas, nesse caso, eles não tiveram tanta sorte não. Não importa o que eles pensariam, e sim o que aconteceu.
Eles entraram em um acordo, e apesar de não tornarem melhores amigos, Edu sempre liga para Janis quando carece de argumentos em seu trabalho, e Janis liga para Edu quando sente insegura sobre qualquer questão, juntando o melhor dos dois mundos e aceitando as diferenças.
Então, apesar daquele ditado, “os opostos se atraem”, essa história mostra que talvez o ditado devesse de ser “os opostos se colidem e eventualmente estagnam”.
Como duas faces de uma mesma moeda, eles nunca haviam de se ver totalmente. Qualquer entendimento maior do que aquele estava fadado ao fracasso. Para eles, entender isso foi entender tudo. Que nem eu disse: Duas coisas iguais que são diferentes. Igual, na verdade, tudo na vida. Não é mesmo?