Ed. 20 - O fim (por Adriano)

By admin On agosto 30th, 2009 in Adriano, Poema /

Existiu algo de bom um dia. Pequenos presentes instantâneos, espalhados em momentos banais. Era o que me dava força para reerguer-me. Encarar as coisas como se não houvesse fim.          Mas, tudo acaba. E assombra aqueles que ficam, atordoa nossos instintos mais básicos, nos torna mais sós. E é a solidão que mata qualquer esperança. A cadeira fria e sem dono e o telefone sem uso. Já desisti de tantas coisas e essa não seria a primeira vez…     Desistir de mim era só o que faltava. Pois não tenho forças para ser ou mudar ou viver.       Cada vez que tento levantar, tudo em mim pesa. Como pesa a decisão em minhas costas de não tentar mais nada.   Mais uma vez fui atingido. E fico aqui, tão impotente/delirante, agonizando em meu vazio.        Do qual quero sair, mas não vejo como.

E então, quando o pouco de mim que consigo reunir em motivação, desfalece, em uma profunda escuridão infinita, aceito o fim, pois aceitar é tudo o que me resta. É o último dos estágios… Nos becos sem saída, de onde não tem retorno.                                                    Tento controlar o ímpeto de contorcer-me já que isso só torna tudo mais difícil/demorado. Mas, o que mais desejava, e confesso ainda desejo, é poder, ao menos, ao final de todas as coisas presenciar algo tão perfeitamente belo como a luz do dia que não mais me desperta. Mas, que me lembro bem, existe aqui em algum lugar…    Um calor que me fizesse sentir novamente. Uma chance de reviver, em segundos que fossem, algo verdadeiro faria valer a pena.  Mas, não sei se posso ou deveria manter tais esperanças.

       Em uma vida que nem parece minha. Eu deixo levar-me e não resisto mais.                      Fluindo, dispersando.      E ninguém existe para puxar-me de volta, nessa maré que se vai e não retorna. Ou alguém que entenda, sem diminuir o sofrimento em sentir-se vencido.          Como precisava de forças agora! Não que eu não precisasse antes. Não que eu tivesse o controle alguma vez. Logo eu, que me orgulho das dores e amores…

Porque não dizer, um babaca que mostra os ferimentos juvenis, esperando que denotem força veterana, porém despertam pena do charlatão.

Não ousaria enganar ninguém na minha própria farsa medíocre. Tolo eu que ainda insisto em responder. Conversas mentais. Mas não por muito tempo.

É que agora nada, nem ninguém existe. E eu também passo a desaparecer.

Ed. 20 - A questão do namoro (por Alê)

By admin On agosto 27th, 2009 in Alê, Crônica /

 

Oiê, oiê!!

 

Queria muito agradecer altamente o interesse de vocês por esse assunto delicioso de hoje (uiuiui): Como ficam os namoros com soropositivos. L’amour.

Bem, meus amores, a meu favor tenho a dizer que nenhum namoro é fácil. A gente tem sempre que pesar os prós e contras e decidir se é com essa pessoa que você quer ficar. Isso é igual pra todo mundo.

.

Agora, sobre os cuidados que devem ser tomados, nisso posso orientá-los. Lembrando que tudo deve ser feito com muito respeito e responsa. (afinal, somos gente phina e direita!)

Os soropositivos podem sim ter uma vida tranqüila, um relacionamento normal, um casamento feliz.

Acho que a grande preocupação realmente fica para aqueles que têm parceiros “negões” (vulgo, soro negativos). Como é o meu caso.

.

Vou te digitar que, assim que me estabeleci e comecei a aceitar melhor a ideia de que era portador (ou seja, meses depois de freqüentar os grupos de apoio!), parei de pensar na morte e comecei a pensar na vida. Finally.

Foi aí que senti uma angústia, algo me corroendo o estômago. Eu pensei em como conseguiria conviver em uma sociedade, fora do ambiente acolhedor de casa, amigos e centro. Não queria sentir medo do mundo, ou pensar que, por ser HIV+, agora havia limites de onde eu poderia ir e com quem poderia ficar. Viver em uma prisão social, com grades imaginárias decoradas em ferrugem craquele. Terrible! (Solta a minha rédea, medo próprio)

Revelar ou não revelar? Essa era uma questão…

Para a família, contei.

Para os amigos mais próximos também. Os outros mais distantes, não me dei ao trabalho.

Aliás, das minhas amizades anteriores poucas valiam a pena serem mantidas então, foi até fácil. (opa… to possuído de over sinceridade :D )

O namoro foi então, o mais preocupante para mim! Hahahaha Que necessitado eu sou!!

Mas, poxa, eu queria alguém. Eu queria amar, eu estou vivo! Você também quer a Whitney cantando de fundo, com as Maldivas de cenário e um amor para chamar de seu, errei?

.

Ô meu bem! O que acontece é que a maioria das pessoas tem muuuuiiito preconceito em relação a HIV. C’est la vie.

Se você perguntar para uma pessoa, sinceramente, se ela namoraria um soropositivo a grande maioria dirá que não. Principalmente, se ela não namorava você antes de descobrir.

Isso porque as pessoas têm medo. Tem a idéia rústica de que somos como ceifadores, é como se a gente carregasse a sentença de morte! (Buuuuuu) Elas não querem transar com a gente pois tem medo de morrer. Maldaaadeee. Passaada! Isso detona qualquer ego, colega!!

Laisse tomber. Não dá pra culpá-las porque o esclarecimento sobre a Aids é o seguinte: Você pega, você morre. Ponto.

É realmente perigoso. É IMPORTANTE dizer que não tem como culpar as pessoas soronegativas por não tentarem, já que estão se colocando em uma situação de risco, certo?! A doença exige que você tenha muita responsabilidade e uma série de precauções nas relações sexuais. Por isso, é necessário respeitar as decisões de cada um e entender que ela não está errada quando fala que a doença oferece riscos que ela não quer correr.

.

Ai, ai… e estava eu lá, tão solteiro! Daí pensei que a solução para minha solteirice fosse me relacionar com outros soropositivos. Só “insiders”. Era isso, então? Essa era a regra?

Sabe que assim, nos grupos de apoio, muitas pessoas acham companheiros!

Verdade! Tenho amigos que até casaram com pessoas que conheceram lá. Isso porque tudo fica mais fácil quando a outra pessoa já sabe e entende sua doença, e esse companheirismo cria laços e sentimentos muito bonitos. (Dates nos grupos são fervidos!!)

Mas, não me apaixonei por ninguém. Não importava a regra.

.

Foi aí que conheci o Gael. Pensei que, como todos os outros, ele teria medo de mim.

Mas não teve. Ele já me conhecia de vista e de história. Era amigo da Joana e sempre rolava um flerte sem compromisso entre a gente. (Danado!)

Quando conversamos, ele já sabia tudo de mim, então não me senti pressionado a contar. Só o Gael (ou o amor) pra fazer a Aids parecer um detalhe. Como achava que ele estava sendo simpático, relaxei sem pretensões ou esperanças. Sem preocupações ou complexos.

Ficamos cada vez mais próximos. Mais amigos e conseqüentemente mais atraídos.

Quando Gael pediu pra me beijar, tive muito medo. Disse não, querendo muito dizer sim. (Dá frio na barriga só de lembrar!! Hehe Me segura!)

Não adiantava, já estávamos apaixonados. No outro dia, ele veio conversar comigo com uma pilha de pesquisas que ele tinha feito, falando das formas de contágio.

Daí, eu conversei seriamente com ele. Expus os riscos, as precauções e as situações difíceis que talvez ele pudesse passar. Fui honesto com dor no coração! Aquilo afugentaria qualquer pessoa comum!!

Gael me olhou muito sério e disse: “Isso tudo eu já tinha lido. Essa não é minha pergunta. Eu quero saber se você me ama também”. (Nhonhonho, fofo, meu prêt-à-porter)

Bem… todos já sabemos a resposta.

.

Realmente, eu dei a sorte grande e por isso tenho certeza que é possível encontrar grandes companheiros, pessoas especiais, que como todo ser humano se apaixonam e decidem que vale a pena tomar certas precauções para estar do lado de quem ama. :)

Também, eu não julgaria o Gael se ele tivesse pulado fora. Não vou dizer que é impossível ele contrair HIV e que ele não corre nenhum risco. Eu tenho muito medo disso e por isso, em respeito a ele, tomo muitos cuidados desde os menores no nosso dia a dia, até quando temos relações.

No começo foi difícil relaxar. Até o beijo era travado. (Uó! Coisa horrorosa, pavor da síndrome da boca dura! Désolé) Exigiu muita confiança, terapia e companheirismo até termos uma vida a dois tranqüila.

Mas, amoress, hoje nossa rotina é básica. Abaixo vou listar tudo que um namorado/marido negão deve saber:

.

- Todo soropositivo que faz o tratamento correto tem uma vida normal e saudável. Os remédios são oferecidos pelo Ministério da Saúde. Eles são ESSENCIAIS e não pode usar errado, nem esquecer! Se não vai perder o efeito!! Portanto, leve os coquetéis a sério! Eles também diminuem a chance de contaminar outra pessoa, porque impedem a reprodução do vírus e diminui a presença deles. (Percebeu a importância, bem?)

Não há cura, mas existe um controle.

A alimentação saudável também é importante. Continuo com minha musculação que dá resistência e mantém o tanquinho! :D (Ah, o importante é se sentir haha)

.

- Camisinha é para sempre. Em todos os momentos, posições e contatos sexuais. (Todinhos! Pira no látex, amados!)

.

- Uma das coisas que mais me preocupam é ficar atento a feridas, arranhões, fissuras na pele, para evitar o contágio. Tomo cuidado para não me machucar, não tenho objetos cortantes em casa. (Tudo bem, sou over paranóico nesse quesito! Sorry :P ) Gael também toma os mesmos cuidados.

.

- Exames freqüentes, para os dois. Isso nos deixa mais seguros, sabe?

.

- Para maior segurança, se e quando acontecerem incidentes, tipo a camisinha estourar, o parceiro pode fazer uso dos medicamentos antiretrovirais por precaução, e logo depois e o mais rápido possível procurar um infectologista.  Isso é só para emergência, e deve ser tomado até a consulta médica. Evita que o vírus se espalhe e soropositive. Mas, é sempre um risco… Se informem melhor com o infecto, tá, gatíssimos!

 .

- Minha amiga MaFe (merveilleux!) pediu para comunicar esta última que também é dúvida freqüente: Engravidar de maneira natural, logicamente, não é seguro. O que a gente vê é um tratamento, caro, mas aparentemente eficaz de fertilização em vitro, onde o esperma ou o óvulo pode ser purificado. Desejo toda a sorte para essa querida amiga!! Ieeee!! Tenha muitas crianças para derrubar seus vasos étnicos medonhos! :D

Infelizmente para mim e para o Gael a ciência ainda não conseguiu formas de engravidar :( heheh! Também forcei altamente agora, bi!

.

 É evidente que tem que ter muita confiança e responsabilidade. Essa situação delicada é uma prova para qualquer relacionamento!! No começo, ficava pensando “Será que ele se machucou jogando bola e não viu? Será que a boca dele está rachada com o calor?”. Sabe? (olha o paranóico atacando de novo, gente!) É uma loucura e acaba com o romantismo, com a impetuosidade!! Parada “osso”!

No início não foi fácil. Já aviso de antemão!

Foi com o tempo que aprendi os limites, a balancear as preocupações, e hoje é parte da nossa rotina, é natural e até carinhoso. Nos obriga a sermos mais criativos, curtir mais o outro.

.

Nos adaptamos e o prêmio que conseguimos é uma vida de muito amor e felicidade.

Como diria o gostosão dessa geração: “Yes, we can”!! ;)

.

Big kisses, xoxo

Alê.

Ed. 19 - Quando nada é tudo e é tudo …….. ou nada (por Noel)

By admin On agosto 21st, 2009 in Conto, Noel /

Acho que nunca cheguei a contar a vocês sobre a história de Almir e Darlene. O Almir era primo de segundo grau de minha mãe, então eu só o conheci lá pelos 16 anos, quando fui entregar algumas encomendas em São Paulo, onde ele mora, e pedi brigada no apartamento dele. Almir é um sujeito bacana, muito atencioso e hospitaleiro, e essa receptividade aumentou ainda mais quando ele, inadvertidamente, perguntou sobre minha mãe e eu, hesitantemente, falei que ela estava morta. Situação chata. Então, ele ofereceu biscoitos e disse que eu poderia ficar o tempo que quisesse, o que foi bom, já que eu tive alguma dificuldade de achar a mim mesmo em São Paulo, e depois, de achar outras pessoas. Mas, Almir não podia acompanhar meus compromissos não, pois trabalhava por demais. Em um momento, fiquei intrigado sobre sua profissão. Como ele é um ótimo ouvinte, passávamos um bocado de tempo falando de mim e de minhas histórias, mas quase que nada sobre ele, e minha curiosidade começou a apertar já que ele estava sempre atento ao telefone e sempre atendendo emergências. Seria ele um médico, um bombeiro ou um super-herói?

Entretanto, ele não era nenhum dos citados. Na realidade, Almir explicou para mim que ele exercia uma profissão meio peculiar: ele era amigo de aluguel. O que ele disse foi que, em cidades grandes as pessoas ficam mais solitárias, o que eu achei estranho, porque havia visto um tanto de gente, mais gente do que havia visto minha vida inteira, daí ele disse: “É exatamente isso. Quem tem todos, não tem ninguém. São tantos que é difícil se lembrar de alguém. E as pessoas não têm mais tempo para conhecer realmente pessoas, ficar e esperar para ver se pode confiar. Em mim elas confiam, pois o que quero em troca já foi combinado”. Achei extremo de sua parte, mas como é de minha família e eu estava de favor em sua casa, não quis contestar. Ele continuou contando sobre seus procedimentos e clientes, tudo extra-oficialmente, só para mostrar que era bom de serviço: “Funciona assim”, ele explicava de meio cabreiro, confidenciando algo que não costuma falar em voz alta, e de maneira sistemática para não dar margem a interpretações erradas sobre seu profissionalismo, “…as pessoas me encontram normalmente por pesquisas e sites de busca. Nunca por indicação. Eles não gostam de dividir amigos”. Enquanto ia falando, eu ia percebendo nele um senso de dever e, talvez, de prazer nesse trabalho e fiquei curioso de saber a fonte disso: “Você tem clientes fixos?”, aí ele ficou calado por alguns segundos, e depois respondeu: “Sim, não posso revelá-los para você”, eu continuei: “E você cobra deles?”, e nessa ele justificou:“Mas, claro. Se não cobrasse seria injusto, não seria um acordo.”.

Percebendo que o que tinha falado não fazia sentido quando contado a alguém “fora do clubinho”, ele completou: “Eu não posso me envolver. É um trabalho… É muito difícil, mas não posso me envolver”. Para mim, estava claro que Almir já estava envolvido. É incrível como esses trem são um tanto mais fáceis de ver para quem observa de longe. Todavia, faltava saber quem tirava seu descanso e sua ética? Seria o AmigoRua23 ou GularPaulista147? Enquanto eu encasquetava nesse assunto, Almir se arrumava rapidamente para o próximo encontro, e concluía, agora em uma voz mais alta: “Não é nada demais. Como agora, estou indo a um show com um amigo. Ele acabou de se divorciar e com certeza vamos tomar uma cerveja e ele vai desabafar sobre a ex-mulher. Por que comigo? Porque eu sou como um terapeuta e é antiético se eu contar seus segredos ou se eu rir de suas fraquezas”.Deixando essa explicação no ar, ele deixou também uma parte de insatisfação em mim, que naquele momento estava profundamente desconfiado sobre o que ele NÃO queria contar.

Por sorte ou por acaso, talvez por ser uma pessoa extremamente curiosa, ou por não ter muito mais o que fazer já que tinha receio de andar na cidade sozinho, comecei a perceber padrões, que nem, sempre que ia sair com o amigo divorciado ele colocava umas roupas aprumadas e levava os óculos; e tinha um amigo que era punk e Almir sai de casa…nervoso. No meio tempo houve eventos grupais, que nem o aniversário de um cliente, donde ele teve de chamar outros amigos de aluguel para completar o serviço. Lia diariamente um tanto de coisa sobre tudo que dizia respeito a seus amigos e suas profissões, assim tinham sempre assunto, e, antes de sair de casa, lia também a ficha de cada um e decorava nomes e datas. Um estudioso do perfil humano.

Todavia, desses amigos, um era exceção. Quando esse cliente ligava, Almir ficava visivelmente atordoado, e depois, confortável, daí ia trocar a roupa imediatamente, ficava nervoso de novo, e assim por diante. Para esse cliente, Almir sabia tudo de cabeça, mas não tinha a capacidade de perceber que estava usando perfume por demais ou que tinha espiado no espelho 37 vezes em 2 minutos. Foi quando eu perguntei se havia de ser um encontro e ele disse, sem graça, que não… apenas um amigo,  e sem jeito de sutileza, perguntou se sua roupa estava bacana, a que eu respondi que sim, pois esse seria o pior momento para ser sincero, e perguntei também (êita curiosidade!), se a amiga havia de ser bonita. Almir ficou vermelho que nem pimentão, e eu até temi pela sua saúde, mas logo ele retomou a compostura e disse que não podia mais comentar sobre esses assuntos comigo e ainda, que é contra sua ética aceitar clientes mulheres. Aí, eu fiquei meio encasquetado. Almir foi embora, mas eu fiquei ali, matutando. Não sabia que ele era gay, mas, se fosse, que diferença faria ele ter clientes mulheres ou não, afinal, ele estava cheio de intenções com o cliente ético e homem, de qualquer forma. Não entendi. Esperei até ele voltar.

Almir voltou, mais perturbado do que nunca. Achei que era minha chance de aproveitar a perturbação, e conseqüentemente o desequilíbrio psicológico presente no momento, para um interrogatório. Comecei com a menos ardida: “O que aconteceu?”, e ele veio com a clássica “Nada”, e como “nada” significa “algo importante que não posso contar”, pelejei o “pode confiar em mim”, e depois “Você quer me contar”, e “Eu só posso ajudar se você contar o que aconteceu”. Nessa hora, Almir ficou nervoso demais da conta e quando o telefone tocou, ele jogou o aparelho longe. Finalmente, apoiou na mesa e sentou no banquinho, então deu um suspiro aflito, e daí eu aproximei dele, porque aquela era a hora da verdade. “Ela é tudo para mim”, ele soltou, e eu vangloriei em pensamento: “Sabia que não era “nada”, era tudo mesmo”, e ele continuou: “Isso é tudo muito errado. Não sei mais o que fazer, estou de mãos atadas”. Ah, daí começou a ficar mais interessante, porque a história era a seguinte: O “tudo”, que ele insistia em fazer referência, era apenas Darlene. Sim, finalmente chegamos a história de Almir E Darlene.

Na hora, deduzi que poderiam ser duas situações: na primeira, a irmã de Darlene teria contratado os serviços de meu primo, pois achava Darlene tímida e solitária demais, mas, esta desconhecia a profissão de Almir e achava que seu novo amigo era, apenas, um novo amigo. Almir não esperava apaixonar com ela, o que nesse caso seria terrível por dois motivos: ela era uma cliente; e ela não sabia que sua irmã, por caridade, pagava por sua amizade. Desta forma, infelizmente, não só Almir poderia perder sua licença pela atitude antiética de “apaixonar”, como perderia a confiança de Darlene; ou, na segunda hipótese, seu cliente era, sim, um homem, irmão de Darlene, e os irmãos morariam juntos e foi assim que Almir conheceu a moça. Freqüentador da casa e melhor amigo de seu irmão, os dois haviam de ter tempo de sobra para apaixonar com o outro, porém o irmão de Darlene descobriria a paixão deles e movido pela ganância e ciúme (já que os clientes não gostam de dividir), começaria a chantagear Almir. Assim, ele não só é obrigado a ser amigo de seu maior inimigo de graça, como é constantemente ameaçado a ter sua verdadeira profissão exposta a mulher que ama, e que nunca entenderia seu ganha-pão.

Por isso, ninguém mede o tanto de surpresa em que eu fiquei quando Almir contou para mim a história mais simples possível. Darlene contratou o rapaz e ele se apaixonou com ela. Só isso só. Os motivos de Darlene para solicitar companhia eram diferentes dos de todos os outros, visto que ela não queria alguém para compartilhar tristezas ou para acompanhar no que ela quisesse, apesar de que, na realidade, tinha acabado de perder o noivo em um acidente de carro e estava sozinha na cidade. Mas, acima de tudo, Darlene não dava conta de suportar o silêncio, fruto de um noivado de 9 anos com um musicista e, por isso, ela queria falar, mas queria mesmo era ouvir.

Almir não esperava por isso, e mesmo sabendo que era errado aceitar ela como cliente e que poderia ter sua licença caçada, quis bastante ajudar a moça. Mas, muito mesmo. Quando menos esperou, estava falando sobre sua vida inteira para ela e, mais do que ele ajudava a amiga, era ela quem socorria o rapaz quando ele carecia de desabafo. Só que, coitado, como ele havia de saber que descuidando de sua segurança, ele encontraria sua felicidade? Que deixando passar essa pequena regra, ele estaria pondo tudo em risco?

Logo, ele não quis mais cobrar dela, porque sentia que eram realmente amigos, e que ela fazia tanto bem para ele que não era justo, e, então, o grande dilema começou: “O que ela vai pensar se eu sugerir que não pague mais? Ela vai se sentir traída? Incomodada? Vai pensar que estou fazendo isso com segundas intenções e não se sentirá mais segura comigo? Não! Não quero perder a Darlene, nem quero ser trocado por outro amigo…”.

No final das contas, era só isso, nenhuma catástrofe, chantagem, nem mentira, separava aqueles dois, na realidade, era algo por demais simples e bem mais comum, que acontece com a maioria de nós. De primeiro, ele estava em um lugar seguro, e agora, estava com medo. Somos todos um bando de mané-besta quando amamos, porque não sabemos, na maioria das vezes, se o que desejamos é verdadeiro. O medo de que tudo fosse real, ou pior, que fosse obra de sua imaginação e mais profundos desejos, o medo de encarar a realidade dos fatos, deixavam o moço angustiado e começava, então, o festival de inseguranças que todos os apaixonados têm, e que podem se resumir em uma pergunta: “Será que ela me ama também?”. Essa era a questão, e por causa disso, naquela noite, Almir perdeu a tramontana, jogou o telefone longe, e em seguida teve uma depressão profunda. Pobre do rapaz.

Ele estava com Darlene, sua amiga secreta, há algumas horas atrás, indo a um concerto, onde chegaram atrasados, pois ele errou o caminho duas vezes. Darlene perguntou se ele estava bom, Almir disse que sim, mas não quis pensar sobre o assunto. Sabe que, toda vez que saia com ela o rapaz tinha que se concentrar, porque qualquer coisa poderia tirar sua atenção ou revelar sua intenção: os cabelos caídos no ombro, a risada graciosa dela, o olhar atento e penetrante, e talvez principalmente, aquela bendita pinta no pescoço, “é sem noção!”, descreveria Almir, em pensamento. Mas, naquele dia, ele estava desconcentrado, e ele não sabia se era porque estava cansado de viver angustiado, ou visto que as perguntas que eu fiz antes dele sair pediam uma resposta, ou até, porque pela primeira vez ele percebeu que não tinha mais como negar que estava apaixonado, por mais que ele tentasse. O que passava pela cabeça dele, no segundo retorno de carro, era algo bastante perigoso de se pensar quando se está prestes a tomar uma decisão extrema: “É agora ou nunca”.

Mas, entrando no salão não viu muitas oportunidades de falar qualquer coisa. Estava nervoso, suando frio, por isso, vez ou outra, Darlene perguntou se ele estava passando mal, mas o primo já não estava dando conta de discernir palavras ou senso de humor, ou momentos propícios para declarações. Então, Darlene chamou Almir para ir embora e ele ficou desesperado em ver sua chance indo pelo ralo. Foi quando ela resolveu parar primeiro no banheiro, e ele aproveitou para acompanhar a moça, sim, na fila do banheiro, daí quando ela disse algo do estilo: “Faz tanto tempo que eu queria te dizer… eu me divirto muito com você”, ele entendeu como um encorajamento, um sinal óbvio de que aquela fila de banheiro, cercada de outras mulheres desconhecidas, era o melhor lugar para falar a única frase decente que vinha a sua cabeça (fruto de uma pergunta que eu havia feito algumas horas atrás, e que chegava com atraso): “Você é linda”, e entrou na frente dela completando: “Digo, você está bonita. Quer dizer, você é e está linda”. Darlene que olhava diretamente nos olhos dele, em uma força sobre-humana para não se deixar abalar, ou demonstrar qualquer tipo de nervosismo e insegurança, começou a gargalhar e saiu da fila.

Voltaram para casa sem trocar palavras e agora Almir chegava se achando um derrotado. Para ele era claro, ela não só não estava gostando dele, como também achava ele ridículo, e não havia mais o que fazer.

Nessa hora, tive que intervir: “Peraí, você disse que amava ela?”, ele falou confuso: “Não com essas palavras”,  perguntei: “Com quais palavras, então?”, e ele retrucou: “Uma pessoa sabe quando é amada, ela tem que saber. Ela riu, porque é absurdo o que sinto. E ela tem razão”. Lógico, concordei para não ser “do contra”, afinal não tem como argumentar em uma prosa esbaforida. 

Era mais fácil fingir que o sentimento não existia do que arriscar ser magoado. Assim como era mais fácil acreditar logo no fim, do que nutrir esperanças incertas e que quando destruídas causam tanta dor. Almir não queria mais criar esperanças em relação a Darlene, porque cada vez que ele percebia algo especial e era imediatamente provado que “não era nada especial”, ele sofria. Resolveu se afastar, arredar pé do posto de melhor amigo, ignorar e sair com outros clientes. Sua produtividade caiu por demais, afinal ninguém havia de quer contratar um amigo deprimido.

Aí, um dia, Darlene bateu à porta. Eu atendi e, finalmente, conheci a célebre formosura. Só que, ela não tinha nada de moça arrebatadora, não, pelo contrário, ela é bastante tímida e simpática, usava um vestido de flores que casava com a personalidade delicada dela, porém, suas expressões eram um tanto vivas e parecia nervosa. Isso porque ela estava lá para pegar suas coisas de volta. “Suas coisas” era uma caixa com seus papéis, documentos pessoais, contatos, etc, e estava lá também uma agenda, e quando Darlene viu a tal agenda começou a debulhar em lágrimas. Eu não sabia o que eu havia de fazer. Ela pediu desculpas, mas o choro não parou: “Desculpe, mas estou tão confusa. Não entendo o que aconteceu”, e eu, que também não estava entendendo neca, fiquei quieto. Ela falou nervosa: “Tem certeza que ele colocou essa agenda aqui? Era um presente”, a que eu respondi: “É…não sei. Então, ele deve de ter se enganado”, e ela ressentida murmurou: “Acho que não. Deixa pra lá, não é nada especial”.

Ah, tá! Naquela hora, entendi. A situação era essa:

Darlene riu, gargalhou, é mesmo. Mas, porque ela é acanhada e ela estava envergonhada. O lugar público onde Almir sugeriu, de maneira bem inarticulada, falar que ela é bonita, não era exatamente romântico, portanto, ela, apesar de ter gostado do que ouviu, não sabia como reagir e tentou levar na brincadeira o que poderia ser uma brincadeira, de repente.

Ela não sabia, pois também estava apaixonada, ou seja, estava cega, e, por isso, não dava conta de saber se ela estava sendo cantada ou se queria tanto ser cantada que achava estar sendo. De qualquer forma, teve medo de arriscar perguntar e ter seus sentimentos abastados e resolveu esperar algo mais da parte de Almir, mas isso não aconteceu. Ao contrário, ele enviou um e-mail falando que não poderia mais ser seu amigo e que havia de se afastar, a que Darlene concluiu que tinha entendido tudo errado, que ele odiava sair com ela a ponto de passar mal e que não existia paixão, amizade e nem consideração. Sem esperanças e com seus sentimentos estilhaçados, foi conformada naquela 19:32 de quarta-feira pegar tudo o que tinha restado entre eles, tentando entender o que havia acontecido. Porém, quando ela viu a agenda, que com tanto carinho e uma dedicatória personalizada ela deu a Almir para marcar seus momentos, jogada com aquelas coisas que eram agora passado, ela não pode resistir a dor de sua insignificância na vida daquele que ela acreditava ser tudo. Assim, ela contestava a si mesma no olhar de Almir: “Não é nada especial”.

Eu, que sabia de tudo, e que sabia que o “nada” era “tudo” e que agora era “tudo ou nada”, insisti que ela esperasse meu primo chegar em casa para conversarem, mas ela não queria não, de jeito nenhum, pois estava magoada. Vendo que não tinha jeito de convencer a mulher, sugeri que antes de sair, pelo menos lavasse o rosto para se acalmar, e aí, tranquei Darlene no banheiro.

Logo Almir havia de chegar e eu não aceitava o rumo dessa história. Ele chegou meio atrasado, é mesmo, mas ela ficou perfeitamente boa nos 31 minutos que esteve presa, e achei bom quando ela gritava, pois mostrava que ela possuía todas as faculdades mentais. Certamente. Expliquei a Almir o que estava acontecendo. Não posso dizer que ele ficou satisfeito, ficou relutante e bastante nervoso, então começou a gritar para saber se ela estava boa. Ela, assim que ouviu sua voz, percebeu que não tinha mais motivos para gritar, e respondeu timidamente: “Sim, estou bem”, e completamente deficiente de qualquer sanidade diante de Almir, perguntou: “E você?”, e ele, que estava eufórico, também parou. O coração ficou por demais acelerado, já que ele não esperava pela pergunta, daí chegou perto da porta e disse emocionado: “Bem. Estou bem.”.

Agora, existiam barreiras físicas que apartavam os dois, mas que, ao mesmo tempo, enxotavam qualquer barreira psicológica que os pudesse exigir pudores, e foi aí que eu percebi que o amor faz coisas loucas demais, porque para eles era mais fácil falar a uma porta na sua frente do que olhando nos olhos um do outro. Enquanto espiavam aquela porta, inconscientemente, falavam para eles mesmos e tinham a coragem para revelar coisas que “pessoalmente” não diziam, e assim, finalmente estavam confortáveis e seguros para confessar e ser ouvidos. Foi desse jeito que aconteceu quando Almir, encostado na porta sussurrou para Darlene, apoiada no outro lado da mesma: “Não sei se estou bem. Sinto sua falta”, e enquanto Almir enumerava as delicadezas das quais sentia falta, e Darlene explicava sua risada nervosa, rindo, ela finalmente questionou sobre o motivo de ter sido deixada, e ele compulsivamente despejou que também era cego e idiota. Os dois perceberam, naquele momento, que não havia nenhum sentimento, nem o mais tolo, que eles não compartilhassem e nada havia de separar aquela paixão recém-assumida, a não ser, é claro, uma porta e alguns móveis estrategicamente colocados a frente desta.

Então, no calor dos acontecimentos, Almir quis ver o rosto de Darlene. Darlene, comovida, quis abraçar Almir. Apesar do esforço para conter as ações, imaginando o que realmente havia de acontecer quando aquela porta abrisse, no segundo em que ele tirava desesperadamente os móveis que atravancavam a porta e derrubava esta heroicamente, nenhum deles pode deixar de sentir finalmente que estavam no seu devido lugar. Em seu próprio conto de fadas, ela era apenas uma menina triste e encarcerada e ele era alguém que salvava a desventurada da agonia intensa, e ambos sentiram vergonha da felicidade absurda em se olharem novamente. Acredito que nada mais carece de ser falado sobre isso a não ser que eles foram bastante felizes, talvez para sempre, e que eu fui o padrinho de seu casamento. Apesar de que, mesmo assim, tive de pagar os estragos com a porta.

Todavia, isso não foi nada, em comparação a tudo o que aconteceu.

Ed.19 - Pais e Grupos de Risco (por Alê)

By admin On agosto 17th, 2009 in Alê, Crônica /

 

Olá, queridos companheiros de leituras!

 

Tudo certíssimo?? Ai, deixa eu digitar que ontem foi um dia muito especial. Fui visitar minha família em um almoço na casa dos pais. Adoroo!

Até hoje fico impressionado em ver como as coisas mudaram, para melhor. (Inchalá!!)

Enquanto tinha uma refeição civilizada naquela sala de jantar barroca, não pude deixar de lembrar dos últimos episódios (da minha novela mexicana) que aconteceram lá, há alguns anos atrás.

Daí, me lembrei de quando fui até meus pais para lhes contar que eu sou soropositivo.

Opa! TA BOMM, já sei!! (Sai pra lá, bicha agorenta!) Eu sei que é mórbido, gente! Mas, como eu só vou lá em ocasiões especiais, as lembranças que chegaram foram as mais fortes. 

Muita gente me manda e-mail, cartas, posts, perguntando como foi esse momento pra mim. Eu vou contar agora, meus amores. Foi uma bosta. Uó! Hahahha :D

Imaginaaa!!! Gente, é o tipo de situação que ninguém merece!

Vocês sabem que minha relação com meus pais sempre foi realmente delicada. Ficamos muito distantes por bastante tempo. (Evitando conflitos, que eu sou uma biba nervosa!).

Eu não queria contar para eles. Não via porque contar. Diferente de quando você tem uma relação bacana com seus pais e espera apoio numa hora dessas. (Uhff!)

Como no caso de uma amiga minha, MaFe, os pais dela a acolheram na hora. Injustamente pensei: “Não posso contar para os meus, eles nunca fariam isso. O máximo que vai acontecer é que serei, de novo, uma decepção”. Daí chorava que nem Whitney apanhando de Bob Brown, assistindo ao final de “Em algum lugar no passado”. :D Muito mesmo! Não queria contar. Mas, laisse tomber…

Aí, a Joana veio encher a paciência de novo. Fiquei bravo com ela (que bruto!), falei para ela cuidar da própria vida. Tadinha!

Eu não a mereço, amados! Pardon! Eu estava frustrado e deprimido. Ela vinha todo dia ao apartamento (quitinete estilo rústico minimalista com detalhes em mofo verde musgo) que eu dividia com uma amiga, só para me ver. Perdia aulas e provas na faculdade. Eu pedi para ela parar de vir ou iria se prejudicar. Ela me imprensou na parede e disse que se eu não contasse para os nossos pais, ela contava! (Joana é atitude, bem! :) )

Daí, entrei no carro dela e fomos. Eu fingia para mim mesmo que não estava nem aí. Insistia em pensar que eles não eram pessoas importantes ou presentes em minha vida e, por isso, não fazia diferença. (Até parece, né…)

Mas, quando chegou a hora de falar, comecei a tremer. Senti vontade de chorar.

Para o bem ou para o mal, eles são meus pais e a aprovação deles é tudo. Eu estava realmente arrasado e esperando um olhar de desdém como repreensão. (Preparado para aquele escracho federal! Maldade!). A sala ferveu!

Minha mãe ficou chocada. Mas, logo se recompôs. Fez várias perguntas, ofereceu muitas ajudas e me deu um abraço. Nessa ordem. (Mas afetada como sempre!).

Meu pai ficou imóvel. (Pensei: “Fudeu”) Perguntou se eu tinha certeza. E depois de minha mãe mostrar toda sua iniciativa em relação a causa, ele resmungou olhando para a janela:

“Bem, não podemos estar completamente surpresos. Afinal, você fazia parte do grupo de risco”. (Que antigo isso, que démodé!)

Minha mãe abaixou a cabeça, minha irmã olhou para ele escandalizada. E eu estava me arrependendo de ter ido quando olhei para meu pai e percebi que, discretamente, estava com os olhos cheios d’água. Pela primeira vez tive algo em comum com meu pai. (Que loucura!) Diferente das outras que estavam positivas e inquietas, nós dois estávamos com medo.  

Fui até ele calmamente e falei: “Eu também pensava que fazia parte de um grupo de risco. Mas isso não existe mais. Pai, grupo de risco inclui todas as pessoas que tem atividades sexuais e que acabam não se protegendo”. Viram, colegas!?

O que quero dizer é que, apesar de todo o medo, o apoio dos meus pais foi fundamental. As dúvidas deles eram as minhas dúvidas também e mesmo sendo tão diferentes em todos os sentidos e visões, saber que nesse momento eles aceitaram a oportunidade de estar do meu lado, me alivia vários complexos!! :D Não custa tentar, não custa dar essa chance, queridos. Sei lá… eles me surpreenderam. 

Quanto a história do grupo de risco, me abriu os olhos para algo que precisa ser divulgado!

 

PAY ATTENTION PLEASE!!

Eu preciso que vocês entendam uma coisa: eu sou o maior clichê de todos os clichês.

Como muitos sabem, eu fui contaminado com o vírus da Aids por pura negligência e promiscuidade. Sou ex-viciado em drogas. E quando falo para as pessoas que sou homossexual, elas  fazem aquela cara de “Ah, tá! Então é por isso”.

Mas, eu, meus amados, sou a forma menos criativa, a história mais rodada. (Rodada mesmo…  :D fazer o que…) Não represento o que realmente acontece nessa vida, nem sou o modelo do soropositivo!! Capicci? 

Acho importante falar (ou digitar) sobre isso, pois muitas pessoas ainda hoje se enganam, e se acham intocáveis.

Elas estão erradas, porque eu posso ser clichê, mas nenhuma doença é óbvia. 

Se você faz transfusão, se você tem contato com qualquer fluido corpóreo que possa estar contaminado, em qualquer tipo de relação sexual sem proteção, você corre risco.

Não tem sexo, não tem idade, não tem estado civil, meu bem!!

As pesquisas estão aí para provar que o índice de soropositivos em pessoas casadas é altíssimo. O número de portadores maiores de 50 anos dobrou. (Socorrooo!!)

Mesmo que seja mais fácil ser contaminado sendo mulher ou passivo, TODOS estão sujeitos a serem infectados. Não se engana não, bi!! Todo mundo esperto, hein lindinhoss!

Eu li um depoimento da Carmen Lent, coordenadora do Banco de Horas, do Rio, em que ela falava que não existe perfil. Se você é sexualmente ativo, não é porque você é casado, ou flerte sem compromisso, ou hetero, ou avô que é necessariamente soronegativo, mas sim “sorointerrogativo“. Entendeu o perigo, amore??

Independente se você é soropositivo ou não, previna-se. Tenha zelo pela sua vida e a dos outros.

 

Não se esqueça de amar, não se esqueça de aproveitar e de se jogar… mas coloque as coisas no seu devido lugar! ;) Arrasooo!! Até mais, gente!! Joie de vivre!

 

Beijos escandalosos,

Alê.

Ed. 18 - Desemprego e desapego (por ……… Manô)

By admin On agosto 11th, 2009 in Crônica, Manô /

É, não se enganem. Sou tão desempregada quanto a maioria de vocês.

Mas, na verdade, na minha profissão isso é natural. E sempre dependo de um frila. Essa é a merda da atual situação! Se você não é um desempregado, com certeza conhece alguém que é.

É uma condição muito cruel, bater de porta em porta por uma chance. Você só quer trabalhar, não está pedindo dinheiro. Mas, é essa a sensação. Pois a competição é grande e ser a “mão-de-obra” não é nenhuma vantagem.

Vamos a uma entrevista de emprego atrás da outra. Chega a um ponto de desespero que a pessoa lhe oferece uma ninharia por horas incessantes de trabalho, e você ainda diz obrigada, obrigada por essa oportunidade!!.

Caralho, que tristeza. Você vai falar com algum colega, que também batalha no mercado, e ele responde:

Ah, é normal.

É normal?!? É normal… exploração existe há muito tempo, realmente! Sempre existiu essa massa abusada e marginalizada. Vem das nossas raízes, no começo da nossa educação escrava do “abaixar a cabeça”.

A pior prisão é aquela que não vemos a grade. Sendo assim estamos longe de sermos livres. Mas, a denominação “emprego” faz tudo parecer mais correto e legalizado.

De verdade, o que nos escraviza não é mais a falta de direitos, e sim o excesso de dívidas as quais adquirimos antes mesmo de nascermos! Temos o direito a liberdade, mas, de que adianta se, nós (a maioria) não podemos nos dar ao luxo de bancá-la? Somos dependentes de uma nação que se recusa confessar que também depende de nós, porra!! São afogados talentos e potenciais!! Nós pagamos por isso também, todos os dias.

Enfim, vamos nós procurar serviço, onde quer que esteja vago. Poucas empresas se dão ao trabalho de, ao menos, avisar que você não foi selecionado. Foda-se você! Fica aí esperando o resto da vida.

O primeiro emprego é mais complicado ainda. A tão falada “experiência” seria bem vinda se alguém se arriscasse a investir no jovem. Em todos os sentidos. Mas, isso seria muito.

Os critérios de seleção também são duvidosos e embaraçosos. Dinâmica de grupo é uma das invenções de merda que nos forçam a aturar. Não, não basta competir com aquelas pessoas. Você precisa as conhecer e encarar, animais brigando por território!! Ninguém é obrigado…! Quem faz essas seleções tem um prazer sórdido em ver pessoas se digladiarem.

A pressão em relação ao emprego é grande. Cada dia que passa é mais difícil conseguir um lugar. Mais difícil explicar porque você está há tanto tempo fora do mercado.

Reuniões com amigos, principalmente da mesma área, são sempre constrangedoras, nesse sentido. Eles perguntam

Então, tá trabalhando?

O que é uma pergunta idiota, já que eles sabem a resposta. Eu não estaria tão disponível se estivesse trabalhando, certo?

Gostaria de pensar que perguntam isso porque se importam comigo. Mas, na verdade, e só curiosidade mesmo. Pois dessa conversa nunca sai uma dica ou um contato.

É aquela história: Quando eu acho que minha vida tá uma merda, olho para o lado para ver se não tem ninguém mais fodido do que eu. E assim eu me sinto feliz… na minha vida de merda!! 

Mas, não os culpo. Afinal, amanhã é outro dia. E eles pouco tem culpa sobre o desemprego que assola o Brasil, não é de hoje.

Vou deixar as questões econômicas e políticas à parte desta vez. Pois já sabemos de todas as reestruturações que devem ser feitas. E não são. De todas as pessoas que deveriam sair. E não saem. O festival da hipocrisia.

Gostaria de falar a você, desempregado desse país, se é que lhe restou “algum” no final do mês pra comprar a revista ou acessar Internet. Pior do que ser desempregado é ser obrigado a trabalhar em algo que você odeia. Eu sei que parece babaquice ouvir isso quando você tá no vermelho e tem filho pra criar. Mas, talvez essa seja a chance que você esperava pra fazer alguma coisa que acredita. Começar algo que valha a pena!

Pelo menos, um trampo em um lugar com uma política bacana. Pesquise sobre ele, e chegue lá tendo motivos pra querer estar lá, além do salário. Mostre o interesse por algo mais. Se está tudo uma bosta, este é mais um motivo para você tentar mudar alguma coisa. Essa é a batalha!!!

É verdade, é injusto. São negócios. Onde qualquer um é substituível. Onde os lucros são necessários para se manter em pé. Esta é a prioridade. Só que essa não precisa ser a sua prioridade!

Para resumir, se é a nossa força que impulsiona esse país, utilize a sua em algo que você se orgulha em fazer parte. Isso não é utopia! Isso é o mínimo que você pode fazer por você mesmo. E sem querer, pelos outros. É assim que as pessoas fazem a diferença!

E é isso que eu tento fazer aqui.