Acho que nunca cheguei a contar a vocês sobre a história de Almir e Darlene. O Almir era primo de segundo grau de minha mãe, então eu só o conheci lá pelos 16 anos, quando fui entregar algumas encomendas em São Paulo, onde ele mora, e pedi brigada no apartamento dele. Almir é um sujeito bacana, muito atencioso e hospitaleiro, e essa receptividade aumentou ainda mais quando ele, inadvertidamente, perguntou sobre minha mãe e eu, hesitantemente, falei que ela estava morta. Situação chata. Então, ele ofereceu biscoitos e disse que eu poderia ficar o tempo que quisesse, o que foi bom, já que eu tive alguma dificuldade de achar a mim mesmo em São Paulo, e depois, de achar outras pessoas. Mas, Almir não podia acompanhar meus compromissos não, pois trabalhava por demais. Em um momento, fiquei intrigado sobre sua profissão. Como ele é um ótimo ouvinte, passávamos um bocado de tempo falando de mim e de minhas histórias, mas quase que nada sobre ele, e minha curiosidade começou a apertar já que ele estava sempre atento ao telefone e sempre atendendo emergências. Seria ele um médico, um bombeiro ou um super-herói?
Entretanto, ele não era nenhum dos citados. Na realidade, Almir explicou para mim que ele exercia uma profissão meio peculiar: ele era amigo de aluguel. O que ele disse foi que, em cidades grandes as pessoas ficam mais solitárias, o que eu achei estranho, porque havia visto um tanto de gente, mais gente do que havia visto minha vida inteira, daí ele disse: “É exatamente isso. Quem tem todos, não tem ninguém. São tantos que é difícil se lembrar de alguém. E as pessoas não têm mais tempo para conhecer realmente pessoas, ficar e esperar para ver se pode confiar. Em mim elas confiam, pois o que quero em troca já foi combinado”. Achei extremo de sua parte, mas como é de minha família e eu estava de favor em sua casa, não quis contestar. Ele continuou contando sobre seus procedimentos e clientes, tudo extra-oficialmente, só para mostrar que era bom de serviço: “Funciona assim”, ele explicava de meio cabreiro, confidenciando algo que não costuma falar em voz alta, e de maneira sistemática para não dar margem a interpretações erradas sobre seu profissionalismo, “…as pessoas me encontram normalmente por pesquisas e sites de busca. Nunca por indicação. Eles não gostam de dividir amigos”. Enquanto ia falando, eu ia percebendo nele um senso de dever e, talvez, de prazer nesse trabalho e fiquei curioso de saber a fonte disso: “Você tem clientes fixos?”, aí ele ficou calado por alguns segundos, e depois respondeu: “Sim, não posso revelá-los para você”, eu continuei: “E você cobra deles?”, e nessa ele justificou:“Mas, claro. Se não cobrasse seria injusto, não seria um acordo.”.
Percebendo que o que tinha falado não fazia sentido quando contado a alguém “fora do clubinho”, ele completou: “Eu não posso me envolver. É um trabalho… É muito difícil, mas não posso me envolver”. Para mim, estava claro que Almir já estava envolvido. É incrível como esses trem são um tanto mais fáceis de ver para quem observa de longe. Todavia, faltava saber quem tirava seu descanso e sua ética? Seria o AmigoRua23 ou GularPaulista147? Enquanto eu encasquetava nesse assunto, Almir se arrumava rapidamente para o próximo encontro, e concluía, agora em uma voz mais alta: “Não é nada demais. Como agora, estou indo a um show com um amigo. Ele acabou de se divorciar e com certeza vamos tomar uma cerveja e ele vai desabafar sobre a ex-mulher. Por que comigo? Porque eu sou como um terapeuta e é antiético se eu contar seus segredos ou se eu rir de suas fraquezas”.Deixando essa explicação no ar, ele deixou também uma parte de insatisfação em mim, que naquele momento estava profundamente desconfiado sobre o que ele NÃO queria contar.
Por sorte ou por acaso, talvez por ser uma pessoa extremamente curiosa, ou por não ter muito mais o que fazer já que tinha receio de andar na cidade sozinho, comecei a perceber padrões, que nem, sempre que ia sair com o amigo divorciado ele colocava umas roupas aprumadas e levava os óculos; e tinha um amigo que era punk e Almir sai de casa…nervoso. No meio tempo houve eventos grupais, que nem o aniversário de um cliente, donde ele teve de chamar outros amigos de aluguel para completar o serviço. Lia diariamente um tanto de coisa sobre tudo que dizia respeito a seus amigos e suas profissões, assim tinham sempre assunto, e, antes de sair de casa, lia também a ficha de cada um e decorava nomes e datas. Um estudioso do perfil humano.
Todavia, desses amigos, um era exceção. Quando esse cliente ligava, Almir ficava visivelmente atordoado, e depois, confortável, daí ia trocar a roupa imediatamente, ficava nervoso de novo, e assim por diante. Para esse cliente, Almir sabia tudo de cabeça, mas não tinha a capacidade de perceber que estava usando perfume por demais ou que tinha espiado no espelho 37 vezes em 2 minutos. Foi quando eu perguntei se havia de ser um encontro e ele disse, sem graça, que não… apenas um amigo, e sem jeito de sutileza, perguntou se sua roupa estava bacana, a que eu respondi que sim, pois esse seria o pior momento para ser sincero, e perguntei também (êita curiosidade!), se a amiga havia de ser bonita. Almir ficou vermelho que nem pimentão, e eu até temi pela sua saúde, mas logo ele retomou a compostura e disse que não podia mais comentar sobre esses assuntos comigo e ainda, que é contra sua ética aceitar clientes mulheres. Aí, eu fiquei meio encasquetado. Almir foi embora, mas eu fiquei ali, matutando. Não sabia que ele era gay, mas, se fosse, que diferença faria ele ter clientes mulheres ou não, afinal, ele estava cheio de intenções com o cliente ético e homem, de qualquer forma. Não entendi. Esperei até ele voltar.
Almir voltou, mais perturbado do que nunca. Achei que era minha chance de aproveitar a perturbação, e conseqüentemente o desequilíbrio psicológico presente no momento, para um interrogatório. Comecei com a menos ardida: “O que aconteceu?”, e ele veio com a clássica “Nada”, e como “nada” significa “algo importante que não posso contar”, pelejei o “pode confiar em mim”, e depois “Você quer me contar”, e “Eu só posso ajudar se você contar o que aconteceu”. Nessa hora, Almir ficou nervoso demais da conta e quando o telefone tocou, ele jogou o aparelho longe. Finalmente, apoiou na mesa e sentou no banquinho, então deu um suspiro aflito, e daí eu aproximei dele, porque aquela era a hora da verdade. “Ela é tudo para mim”, ele soltou, e eu vangloriei em pensamento: “Sabia que não era “nada”, era tudo mesmo”, e ele continuou: “Isso é tudo muito errado. Não sei mais o que fazer, estou de mãos atadas”. Ah, daí começou a ficar mais interessante, porque a história era a seguinte: O “tudo”, que ele insistia em fazer referência, era apenas Darlene. Sim, finalmente chegamos a história de Almir E Darlene.
Na hora, deduzi que poderiam ser duas situações: na primeira, a irmã de Darlene teria contratado os serviços de meu primo, pois achava Darlene tímida e solitária demais, mas, esta desconhecia a profissão de Almir e achava que seu novo amigo era, apenas, um novo amigo. Almir não esperava apaixonar com ela, o que nesse caso seria terrível por dois motivos: ela era uma cliente; e ela não sabia que sua irmã, por caridade, pagava por sua amizade. Desta forma, infelizmente, não só Almir poderia perder sua licença pela atitude antiética de “apaixonar”, como perderia a confiança de Darlene; ou, na segunda hipótese, seu cliente era, sim, um homem, irmão de Darlene, e os irmãos morariam juntos e foi assim que Almir conheceu a moça. Freqüentador da casa e melhor amigo de seu irmão, os dois haviam de ter tempo de sobra para apaixonar com o outro, porém o irmão de Darlene descobriria a paixão deles e movido pela ganância e ciúme (já que os clientes não gostam de dividir), começaria a chantagear Almir. Assim, ele não só é obrigado a ser amigo de seu maior inimigo de graça, como é constantemente ameaçado a ter sua verdadeira profissão exposta a mulher que ama, e que nunca entenderia seu ganha-pão.
Por isso, ninguém mede o tanto de surpresa em que eu fiquei quando Almir contou para mim a história mais simples possível. Darlene contratou o rapaz e ele se apaixonou com ela. Só isso só. Os motivos de Darlene para solicitar companhia eram diferentes dos de todos os outros, visto que ela não queria alguém para compartilhar tristezas ou para acompanhar no que ela quisesse, apesar de que, na realidade, tinha acabado de perder o noivo em um acidente de carro e estava sozinha na cidade. Mas, acima de tudo, Darlene não dava conta de suportar o silêncio, fruto de um noivado de 9 anos com um musicista e, por isso, ela queria falar, mas queria mesmo era ouvir.
Almir não esperava por isso, e mesmo sabendo que era errado aceitar ela como cliente e que poderia ter sua licença caçada, quis bastante ajudar a moça. Mas, muito mesmo. Quando menos esperou, estava falando sobre sua vida inteira para ela e, mais do que ele ajudava a amiga, era ela quem socorria o rapaz quando ele carecia de desabafo. Só que, coitado, como ele havia de saber que descuidando de sua segurança, ele encontraria sua felicidade? Que deixando passar essa pequena regra, ele estaria pondo tudo em risco?
Logo, ele não quis mais cobrar dela, porque sentia que eram realmente amigos, e que ela fazia tanto bem para ele que não era justo, e, então, o grande dilema começou: “O que ela vai pensar se eu sugerir que não pague mais? Ela vai se sentir traída? Incomodada? Vai pensar que estou fazendo isso com segundas intenções e não se sentirá mais segura comigo? Não! Não quero perder a Darlene, nem quero ser trocado por outro amigo…”.
No final das contas, era só isso, nenhuma catástrofe, chantagem, nem mentira, separava aqueles dois, na realidade, era algo por demais simples e bem mais comum, que acontece com a maioria de nós. De primeiro, ele estava em um lugar seguro, e agora, estava com medo. Somos todos um bando de mané-besta quando amamos, porque não sabemos, na maioria das vezes, se o que desejamos é verdadeiro. O medo de que tudo fosse real, ou pior, que fosse obra de sua imaginação e mais profundos desejos, o medo de encarar a realidade dos fatos, deixavam o moço angustiado e começava, então, o festival de inseguranças que todos os apaixonados têm, e que podem se resumir em uma pergunta: “Será que ela me ama também?”. Essa era a questão, e por causa disso, naquela noite, Almir perdeu a tramontana, jogou o telefone longe, e em seguida teve uma depressão profunda. Pobre do rapaz.
Ele estava com Darlene, sua amiga secreta, há algumas horas atrás, indo a um concerto, onde chegaram atrasados, pois ele errou o caminho duas vezes. Darlene perguntou se ele estava bom, Almir disse que sim, mas não quis pensar sobre o assunto. Sabe que, toda vez que saia com ela o rapaz tinha que se concentrar, porque qualquer coisa poderia tirar sua atenção ou revelar sua intenção: os cabelos caídos no ombro, a risada graciosa dela, o olhar atento e penetrante, e talvez principalmente, aquela bendita pinta no pescoço, “é sem noção!”, descreveria Almir, em pensamento. Mas, naquele dia, ele estava desconcentrado, e ele não sabia se era porque estava cansado de viver angustiado, ou visto que as perguntas que eu fiz antes dele sair pediam uma resposta, ou até, porque pela primeira vez ele percebeu que não tinha mais como negar que estava apaixonado, por mais que ele tentasse. O que passava pela cabeça dele, no segundo retorno de carro, era algo bastante perigoso de se pensar quando se está prestes a tomar uma decisão extrema: “É agora ou nunca”.
Mas, entrando no salão não viu muitas oportunidades de falar qualquer coisa. Estava nervoso, suando frio, por isso, vez ou outra, Darlene perguntou se ele estava passando mal, mas o primo já não estava dando conta de discernir palavras ou senso de humor, ou momentos propícios para declarações. Então, Darlene chamou Almir para ir embora e ele ficou desesperado em ver sua chance indo pelo ralo. Foi quando ela resolveu parar primeiro no banheiro, e ele aproveitou para acompanhar a moça, sim, na fila do banheiro, daí quando ela disse algo do estilo: “Faz tanto tempo que eu queria te dizer… eu me divirto muito com você”, ele entendeu como um encorajamento, um sinal óbvio de que aquela fila de banheiro, cercada de outras mulheres desconhecidas, era o melhor lugar para falar a única frase decente que vinha a sua cabeça (fruto de uma pergunta que eu havia feito algumas horas atrás, e que chegava com atraso): “Você é linda”, e entrou na frente dela completando: “Digo, você está bonita. Quer dizer, você é e está linda”. Darlene que olhava diretamente nos olhos dele, em uma força sobre-humana para não se deixar abalar, ou demonstrar qualquer tipo de nervosismo e insegurança, começou a gargalhar e saiu da fila.
Voltaram para casa sem trocar palavras e agora Almir chegava se achando um derrotado. Para ele era claro, ela não só não estava gostando dele, como também achava ele ridículo, e não havia mais o que fazer.
Nessa hora, tive que intervir: “Peraí, você disse que amava ela?”, ele falou confuso: “Não com essas palavras”, perguntei: “Com quais palavras, então?”, e ele retrucou: “Uma pessoa sabe quando é amada, ela tem que saber. Ela riu, porque é absurdo o que sinto. E ela tem razão”. Lógico, concordei para não ser “do contra”, afinal não tem como argumentar em uma prosa esbaforida.
Era mais fácil fingir que o sentimento não existia do que arriscar ser magoado. Assim como era mais fácil acreditar logo no fim, do que nutrir esperanças incertas e que quando destruídas causam tanta dor. Almir não queria mais criar esperanças em relação a Darlene, porque cada vez que ele percebia algo especial e era imediatamente provado que “não era nada especial”, ele sofria. Resolveu se afastar, arredar pé do posto de melhor amigo, ignorar e sair com outros clientes. Sua produtividade caiu por demais, afinal ninguém havia de quer contratar um amigo deprimido.
Aí, um dia, Darlene bateu à porta. Eu atendi e, finalmente, conheci a célebre formosura. Só que, ela não tinha nada de moça arrebatadora, não, pelo contrário, ela é bastante tímida e simpática, usava um vestido de flores que casava com a personalidade delicada dela, porém, suas expressões eram um tanto vivas e parecia nervosa. Isso porque ela estava lá para pegar suas coisas de volta. “Suas coisas” era uma caixa com seus papéis, documentos pessoais, contatos, etc, e estava lá também uma agenda, e quando Darlene viu a tal agenda começou a debulhar em lágrimas. Eu não sabia o que eu havia de fazer. Ela pediu desculpas, mas o choro não parou: “Desculpe, mas estou tão confusa. Não entendo o que aconteceu”, e eu, que também não estava entendendo neca, fiquei quieto. Ela falou nervosa: “Tem certeza que ele colocou essa agenda aqui? Era um presente”, a que eu respondi: “É…não sei. Então, ele deve de ter se enganado”, e ela ressentida murmurou: “Acho que não. Deixa pra lá, não é nada especial”.
Ah, tá! Naquela hora, entendi. A situação era essa:
Darlene riu, gargalhou, é mesmo. Mas, porque ela é acanhada e ela estava envergonhada. O lugar público onde Almir sugeriu, de maneira bem inarticulada, falar que ela é bonita, não era exatamente romântico, portanto, ela, apesar de ter gostado do que ouviu, não sabia como reagir e tentou levar na brincadeira o que poderia ser uma brincadeira, de repente.
Ela não sabia, pois também estava apaixonada, ou seja, estava cega, e, por isso, não dava conta de saber se ela estava sendo cantada ou se queria tanto ser cantada que achava estar sendo. De qualquer forma, teve medo de arriscar perguntar e ter seus sentimentos abastados e resolveu esperar algo mais da parte de Almir, mas isso não aconteceu. Ao contrário, ele enviou um e-mail falando que não poderia mais ser seu amigo e que havia de se afastar, a que Darlene concluiu que tinha entendido tudo errado, que ele odiava sair com ela a ponto de passar mal e que não existia paixão, amizade e nem consideração. Sem esperanças e com seus sentimentos estilhaçados, foi conformada naquela 19:32 de quarta-feira pegar tudo o que tinha restado entre eles, tentando entender o que havia acontecido. Porém, quando ela viu a agenda, que com tanto carinho e uma dedicatória personalizada ela deu a Almir para marcar seus momentos, jogada com aquelas coisas que eram agora passado, ela não pode resistir a dor de sua insignificância na vida daquele que ela acreditava ser tudo. Assim, ela contestava a si mesma no olhar de Almir: “Não é nada especial”.
Eu, que sabia de tudo, e que sabia que o “nada” era “tudo” e que agora era “tudo ou nada”, insisti que ela esperasse meu primo chegar em casa para conversarem, mas ela não queria não, de jeito nenhum, pois estava magoada. Vendo que não tinha jeito de convencer a mulher, sugeri que antes de sair, pelo menos lavasse o rosto para se acalmar, e aí, tranquei Darlene no banheiro.
Logo Almir havia de chegar e eu não aceitava o rumo dessa história. Ele chegou meio atrasado, é mesmo, mas ela ficou perfeitamente boa nos 31 minutos que esteve presa, e achei bom quando ela gritava, pois mostrava que ela possuía todas as faculdades mentais. Certamente. Expliquei a Almir o que estava acontecendo. Não posso dizer que ele ficou satisfeito, ficou relutante e bastante nervoso, então começou a gritar para saber se ela estava boa. Ela, assim que ouviu sua voz, percebeu que não tinha mais motivos para gritar, e respondeu timidamente: “Sim, estou bem”, e completamente deficiente de qualquer sanidade diante de Almir, perguntou: “E você?”, e ele, que estava eufórico, também parou. O coração ficou por demais acelerado, já que ele não esperava pela pergunta, daí chegou perto da porta e disse emocionado: “Bem. Estou bem.”.
Agora, existiam barreiras físicas que apartavam os dois, mas que, ao mesmo tempo, enxotavam qualquer barreira psicológica que os pudesse exigir pudores, e foi aí que eu percebi que o amor faz coisas loucas demais, porque para eles era mais fácil falar a uma porta na sua frente do que olhando nos olhos um do outro. Enquanto espiavam aquela porta, inconscientemente, falavam para eles mesmos e tinham a coragem para revelar coisas que “pessoalmente” não diziam, e assim, finalmente estavam confortáveis e seguros para confessar e ser ouvidos. Foi desse jeito que aconteceu quando Almir, encostado na porta sussurrou para Darlene, apoiada no outro lado da mesma: “Não sei se estou bem. Sinto sua falta”, e enquanto Almir enumerava as delicadezas das quais sentia falta, e Darlene explicava sua risada nervosa, rindo, ela finalmente questionou sobre o motivo de ter sido deixada, e ele compulsivamente despejou que também era cego e idiota. Os dois perceberam, naquele momento, que não havia nenhum sentimento, nem o mais tolo, que eles não compartilhassem e nada havia de separar aquela paixão recém-assumida, a não ser, é claro, uma porta e alguns móveis estrategicamente colocados a frente desta.
Então, no calor dos acontecimentos, Almir quis ver o rosto de Darlene. Darlene, comovida, quis abraçar Almir. Apesar do esforço para conter as ações, imaginando o que realmente havia de acontecer quando aquela porta abrisse, no segundo em que ele tirava desesperadamente os móveis que atravancavam a porta e derrubava esta heroicamente, nenhum deles pode deixar de sentir finalmente que estavam no seu devido lugar. Em seu próprio conto de fadas, ela era apenas uma menina triste e encarcerada e ele era alguém que salvava a desventurada da agonia intensa, e ambos sentiram vergonha da felicidade absurda em se olharem novamente. Acredito que nada mais carece de ser falado sobre isso a não ser que eles foram bastante felizes, talvez para sempre, e que eu fui o padrinho de seu casamento. Apesar de que, mesmo assim, tive de pagar os estragos com a porta.
Todavia, isso não foi nada, em comparação a tudo o que aconteceu.