Queridooosss,
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Tudo bem por aí? Eu estou meio pensativo esses dias. Comecei a me lembrar de várias coisas que não pensava há tanto tempo, mas por causa do portal e das perguntas fui levado a pensar de novo… Vocês sabem que qualquer descoberta muda a sua vida. Nem que seja a visão que você tem da vida ou das pessoas… (Eu acho, mas eu sou meio míope então posso estar errado!
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Tem também aquelas descobertas que mudam apenas o seu mundo, obrigando você a se desfazer de seu mobiliário kitsch horrendo, mas de forma indireta o mundo em si, por isso parecem de menor importância. Só parecem, amados!
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Se eu pudesse dividir minha vida em eras, seria fácil dividi-la em Antes de Elisa / Depois de Elisa.
Mas, Elisa não é uma mulher pela qual me apaixonei (Haha, que piada!). Estou digitando sobre o exame ELISA de anticorpos, que serve para detectar se há contaminação com o vírus da Aids. Le terrible!
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Confesso que estava ingenuamente tranqüilo quando fui fazer o teste. Não me sentia doente e apesar de ter perdido peso, e me sentir cansado, acreditava que se estivesse infectado estaria com sintomas graves, afinal, Aids mata. Mas, eu estava bem.
(Santa Ignorância!!)
Só fui fazer porque colegas meus da reabilitação contaram que, nos momentos de baixa, haviam pego. Lembro que, na hora, pensei: “Imagina. Já sei disso tudo. Sou informado”. Depois, lembrei que a informação apenas não adianta nada, tem que saber usar a cabeça. (Sem trocadilhos infames, tá gente!)
Descobri que era portador de HIV assim, por acaso. Em uma prova dos nove, tirei dez em HIV positivo, meu bemm! (O primeiro dez da minha vida… que irônico!). Não estava consciente, não estava preparado, nem tinha pensado realmente sobre o que faria se desse positivo. Fui lá como alguém que faz um check up.
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Quando o infectologista falou, foi aquele choque. Eu não consegui acreditar, então, não chorei, não gritei. Fiquei lá, olhando para ele com cara de besta naquela salinha de paredes amareladas! Cada um reage ao seu jeito, né! Não tem regra! Meu amigo Dodô, uma mona de 1,80m, desabou no consultório, foi um Deus nos acuda pra arrastar a bicha pra maca do SUS! Hors concours!
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A minha irmã sabia que eu iria ao médico naquele dia e me ligou o dia todo. Eu não retornei uma ligação.
Não quis falar nada antes de fazer o segundo exame. O segundo exame é importantíssimo para tirar qualquer margem de erro.
Eu sabia que para mim as probabilidades eram grandes, mas, sei lá… Me permiti ter fé e esperança. Fiquei quieto pra variar um pouco.
Durante todo o tempo de espera entre um resultado e outro foi uma tortura. Não atendia o telefone, porque não queria falar sobre o assunto. (Pouquinho neurótico, não?) Não saia de casa porque tinha medo, não sabia o que podia ou não fazer sendo soropositivo. Comecei a pirar!
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Quando chegou o dia do segundo resultado, sentia alívio e pavor ao mesmo tempo. Como isso é possível, não sei! Que loucura!!
O médico confirmou o HIV. Daí me passou mil informações, remédios, telefones e suportes. Peguei os panfletos e saí sem ter escutado nada.
Liguei o celular. Liguei pra minha irmã e falei: “Joana, minha vida acabou”.
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Ai, eu sei que não tinha nada a ver, mas sei que muitos de vocês entendem o que eu digo! Os primeiros dias foram terríveis, eu realmente achava que poderia ficar doente a qualquer minuto, por qualquer coisa. Que maldade, eu estava um craquelê!
É difícil se sentir seguro, porque você não tem medo de nada do que possa se proteger. É medo de si, desse boicote interno.
Não vou mentir: Ter Aids é estar vulnerável. É pensar “E se o remédio parar de fazer efeito e eu tiver recaída? E se pegar uma infecção? E se meu fígado não agüentar tanto medicamento?”. Eu tenho qualidade de vida, tenho. Levo minha vida e sou feliz.
Mas, Aids não é uma doença que você luta para combater. Você luta para manter-se vivo com ela. Não tem cura. (E a danada é traiçoeira, viu!)
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Mas então, eu sempre imaginei uma morte glamourosa pra mim, bem! E achava que ia morrer de um resfriado!! Fiquei désolé !!
Também não queria que as pessoas ficassem perto demais, pois tinha muito medo de passar o vírus para alguém em um acidente com faca ou em um beijo, uma ferida… Não sabia nada sobre o assunto, me sentia uma bomba relógio. (Daquelas barulhentas!!).
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Mas daí o tempo passou (pro bem ou pro mal). É um longo caminho até se tornar um insider. Demorei quase um mês para sair dessa depressão, e mais alguns meses para conseguir me adaptar a ideia. Eu acho que cada um tem o seu tempo. Não é fácil encarar uma coisa assim. Então, não se preocupem em enfrentar tudo de uma vez só, amigos! Digere com calma!
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O seu médico lhe dá a orientação para manter a saúde, os remédios ajudam a manter o controle e os grupos e a família dão apoio moral e psicológico.
Mesmo assim, é difícil você realmente descobrir que não está fragilizado e impotente. Que todos correm riscos todos os dias e que uma doença não define quem você é.
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Como todo ser humano, estamos sujeitos a descobrir algo, vivenciar algo, que nos faz mudar nossa vida, bem! C’est la vie! No meu caso, me ensinou muito. Me deu limites, (algo que nunca tive). Ao mesmo tempo, essa doença me libertou de valores falsos. Parei de deixar as coisas para depois, parei de chorar (que nem Madalena arrependida) por bobagem.
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Meu tempo rende mais e minha vida é mais feliz e saudável hoje, pois aprendi a me cuidar, a respeitar meu corpo e minha vida. Momento joie de vivre!
Descobri coisas sobre mim que antes não tinha tempo de descobrir.
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E descobri algumas coisas que me deram força durante o comecinho do processo, e que agora eu compartilho com vocês:
As pessoas que te amam ficarão do seu lado.
Novos amigos surgirão, e vão te apoiar nessa estrada.
Nos grupos de apoio você acha não só pessoas capacitadas a lhe dar informações, mas você se sente novamente parte do mundo.
Essa é a chance de uma nova vida, com novas perspectivas. Não desperdice. Uma vida custom made.
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Foi assim que eu me encontrei (tomei rumo e deixe de ser perdido
). Nos digitamos em breve!!
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Beijinhos e beijões,
Alê.

