Ed. 31 - Desabafo (por Victor)

By admin On janeiro 3rd, 2010 in Crônica, Victor /

Hoje tive a permissão de relatar um caso de uma querida jovem, apesar de logicamente não revelar sua identidade.

Mas, a relevância de tais acontecimentos fez-me querer dedilhar a vocês algumas linhas sobre desabafo.

Pouco há a meu respeito em minhas colunas, pois eu, que sou psicólogo, possuo mais a misteriosa tendência a ouvir. E muito ouço.

Não devo, portanto, estar a utilizar o espaço erroneamente e mantenho a discrição ao direcionar os desabafos a outros momentos e pessoas. Mas, talvez, esta época de Final de Ano junto a tantas coisas que passei no decorrer deste processo das Colunas Diárias tenham me deixado mais sensível a compartilhar este pequeno fato. E isto ocupou minha cabeça nos últimos meses:

Fiquei muito intrigado com esta encantadora moça que pouco queria falar de si e mais ela queria saber do tempo, dos jornais, de mim.

 

Estava claro que se escondia. E que ao tirar a atenção dela mesma não precisa encarar a profundidade de seus problemas. Não foi o primeiro caso deste tipo que vi.  Sugeri a ela que aquele era um espaço de reflexão, onde estaria segura a desabafar o que quisesse, mesmo que depois seu desabafo mudasse de idéias.

O que aconteceu foi que, nas sessões seguintes ela veio, e nada falava, apenas chorava. Este era seu desabafo. Fiquei confuso no começo. Tentei argumentar, mas nada obtinha êxito.

O que defini foi: fora daquele consultório, ela não chorava. Em sua vida, uma rotina estressante, não havia espaço para respirar.

Estava a chorar de cansaço e de angústia.

 

Esta era uma jovem que não conseguia abrir-se para o todo, nem mostrar sua fragilidade. Tal fragilidade não era aceitável para ela.

Entendam que a pressão vivida era intensa. No trabalho, era não somente chefe, mas dona do negócio. Por necessidade, não podia parar.

Era separada de seu marido, que pouco ajudava. Mãe de dois filhos e responsável pela sua tia, que a criou, e agora estava doente.

Ela precisava ser forte, a base onde todos podiam estar a apoiar-se. E ela só apareceu no consultório, pois sua médica disse que os vermelhões no corpo e os lapsos de memória eram psicológicos. Ela foi porque, desta maneira, não conseguiria trabalhar.

 

Mas, foi então, sozinha naquela sala, em contacto consigo após tanto tempo, que tomou consciência de seu estado. Finalmente, sentia-se em um lugar onde poderia conseguir certo apoio.    

Veja bem, ela precisava enxergar um mundo onde nem tudo dependia dela. Uma vida onde o esforço não funcionasse unilateralmente, como era até então.

Uma vez perguntei a ela porque não havia se casado de novo, e ela disse, realmente, que não precisava de mais trabalho. Quão injusto para esta mulher!

Mas, aos poucos, ela parou de chorar. E quando todos os desabafos foram feitos e repetidos, e as aflições compartilhadas, o mesmo comportamento começou a tomar espaço fora do consultório. Pois, teve consciência de coisas que antes sufocava.

 

Quis que esta história fosse citada, minhas caras, pois muitas vezes na vida nos sentimos a carregar o mundo nas costas.

Constantemente, recebemos tantas responsabilidades que nos impedem sequer de parar para pensar. Quanto mais, desabafar. Confiar a alguém um desabafo e contar com o apoio de um amigo é tão importante quanto ceder o teu. E dividir o fardo faz parte do que nos torna melhores. O que digo é que, é uma necessidade ter alguém que cuide de nós e demonstre carinho e compaixão.

 

Por essas, hoje não falo apenas por esta paciente. Falo por mim. Falo por toda gente.

Às vezes, é difícil expor tuas vulnerabilidades. Principalmente, quando tu não foste criado para tê-las. Mas, te permitir ser humano - errar, precisar de férias, precisar de tempo para entender a vida, soltar o choro engasgado – é a nossa salvação. Já comece este Novo Ano de outra maneira. Desabafa o que tu carregas no peito, faz do teu jeito, mas larga este peso de ti. E, daí, olha pra frente e recomeça a viver.

Ed. 30 - Relacionamentos à distância …….. (por Victor)

By admin On dezembro 27th, 2009 in Crônica, Victor /

Nem preciso dizer o quão complicado é sugerir diagnósticos on line, não é mesmo, minhas caras leitoras?

O que posso conceder a cá são opiniões embasadas em poucas informações, que poderão ajudar ou não. Gostaria de ajudar bem mais!

E quando me é perguntado o que acho sobre namoros à distância, especialmente nestas épocas de festas e viagens em que se conhece (e se apaixona por) gente de toda parte, devo considerar a base que possuo na observação de tais relacionamentos. A lembrar que, o que apresento é um panorama geral e, talvez, tu possas excluir-te deste critério.

Explico ainda que, não estou a falar de relacionamento onde a distância foi colocada em comum acordo, onde as pessoas escolheram a distância para manter seu espaço.

O que digo, de modo geral, sobre relacionamentos reféns da distância é:

 

Se neste relacionamento houver estipulada uma data de retorno, onde em determinado prazo o casal poderá conviver novamente, sim, é possível.

Porém, irá exigir um comprometimento e uma segurança muito grande entre os dois. Casais que estão juntos há alguns anos normalmente têm mais chances de manter o vínculo até o retorno.

Mas, já aviso, não será fácil. As fundações deste relacionamento devem ser sólidas, não há espaço para inseguranças, ataques ou imaturidades.

No período de afastamento, se vocês não podem estar fisicamente presentes, o que se espera ao menos é que estejam presentes mentalmente. Isto significa: ligar, lembrar, importar-se… Tentar participar da vida do outro mesmo à distância.

Ou seja, queridas, uma dedicação e respeito reais. É uma prova de fogo. E, às vezes, em um relacionamento pouco equilibrado, vocês podem facilmente sair queimados.

 

Estar próximo é importante, porque só a proximidade cria a intimidade. E a intimidade cria uma relação. São através dos detalhes do dia-a-dia que tu aprendes sobre aquela pessoa, onde tu descobres o quanto estás a envolver-te, fascinar-te.

Claro, quando há um afastamento e as pessoas começam a crescer separadas, e conseqüentemente mudam, a proximidade acontecerá com outras pessoas mais próximas. E talvez aquilo que antes fazia a intimidade do casal pode não estar mais ali.

Por essas, é importante ter uma data de retorno. Isto mantém o foco na relação e fortifica o elo. E se houver um sentimento intenso, em bases concretas, o teu relacionamento pode prevalecer belamente.

 

Mas, tenhamos a suposição que o retorno seja incerto.

Com duas pessoas a construir suas vidas em pontos distintos. E, nitidamente, nenhum destes disposto a abrir mão de suas conquistas. Nesta situação é tão freqüente a mulher ser aquela que abre mão de tudo pelo amor. Queridas, sempre vocês e seus admiráveis corações, estão a pagar por amar demais! O que faço com vocês? Definam se é isto mesmo que deseja, se ele, outrossim, estará disposto a fazer sacrifícios!

Vejam bem… Um relacionamento sem objetivo de futuro próximo, ou qualquer perspectiva de contato e proximidade, está fadado ao fracasso.

Entendo que, os encontros sejam ardentes e apaixonados. E tu sonhes com um futuro apesar de não tê-lo. Mas, vamos aos fatos. Tu estás tão sozinha quanto antes.

Estou a lembrar a cá de um depoimento uma vez concedido a mim onde a menina dizia algo como: “É óbvio que sinto falta do físico, mas não falo apenas de sexo. Saio com meus amigos e os vejo a andar na rua de mãos dadas, ou simplesmente a trocar olhares, e eu presencio estas cenas e me pego a pensar: ‘Eu não tenho isto’. É muito difícil”.

E, claro, concordo com ela. Tu vês, é injusto não ter aquilo que tu mereces.

 

Acautele para não te envolver em uma história sem solução e deixar-te levar em uma esperança de mudança que, a não ser que exista um planejamento, não vai acontecer. 

Se tu pretendes insistir, avalie quais medidas devem ser tomadas, pois sem atitudes nada se resolverá. E tu continuarás insatisfeita. 

Lembre-te que, enquanto tu manténs tuas forças focadas em algo sem futuro, ou ao menos, sem presença, tu perdes forças para perceber grandes oportunidades.

Já disse uma vez, e volto a dizer: O amor não tem limites, mas relacionamentos têm.

 

Seja um namoro de verão (já estou a preparar vocês para a estação!) ou uma longa viagem de estudo, relacionamentos a distância são difíceis, pois são incompletos. Pois, para quem ama estar longe atormenta. Por essas, as separações devem durar o tempo necessário e nem um minuto a mais.

Para o bem ou para o mal. 

Ed. 29 - Manias (por Victor)

By admin On dezembro 17th, 2009 in Crônica, Victor /

 Este é um assunto que sempre rende em terapias de casais.

Irritar-se com manias é fácil, pois elas foram feitas para serem irritantes, minha cara. As manias demarcam territórios e tomam um espaço e energia que ninguém deveria estar disposto a despejar.

 

Porém, toda gente tem as suas manias, esta é bem verdade. Há manias que são como heranças, a passar de pai para filho. Empolgante perceber em um miúdo o reflexo de tuas origens, sem nunca ter ensinado a ele! Estes são traços de personalidade, de sangue.

Por essas, nada tem a ver com manias criadas, tão individuais. E aquelas inofensivas, que pouco interferem na vida do outro, podem muito bem ser aceitas.

Aliás, aos queridos casais explico: grandes ataques a troco de diminutas manias servem muitas vezes como um aviso prévio. Normalmente acontecem a casais que estão a procurar brigas em qualquer detalhe, na intenção de realmente discutir o que lhe incomoda. Algo está errado, algo sério, que não tem nenhuma ligação com as manias. Mas, claro, já que estás chateada com o possuidor da tal mania, qualquer coisa que este fizer, é motivo de irritação. 

 

No início de casados, entendo também que seja difícil adaptar-te às manias alheias. Afinal, estas coisas não foram reveladas anteriormente. E, mesmo que tivessem sido, estão a adquirir diferentes proporções quando passam a ser incorporadas a um dia-a-dia.

O que gostaria de dizer é que, apesar de cansativos, estas referências sobre o outro admitem também uma cumplicidade.

Sei que é difícil de acreditar, mas quando estas ações não estiverem mais lá, tu sentirás falta delas. Verdadeiramente. Porque são representações da presença de uma outra pessoa em tua vida, naquele espaço.

Vejas bem, creio que alguns sacrifícios são feitos por amor e haverá um momento em que tu irás te acostumar com algumas “esquisitices”. A paixão tudo ameniza, os amantes bem sabem. E se talvez não for o caso, converse na tentativa de ilustra a ele a questão. O máximo que poderá acontecer: tu não obteres sucesso e chegares à outra solução.

 

Mas, se acautelem com as manias! Estávamos a definir até agora aquelas que não prejudicam ninguém. As mais simples.

Falo isso, pois muitas manias estão a ser construídas para afastar as pessoas ou para suprir de forma errada algo que lhe falta.

É comum, através de manias, impedir pessoas de participarem de tua vida, a causar um desconforto próprio de quem desejava impor suas condições para manter-se no controlo.

Vou explicar: Por vezes, as manias nos tornam egoístas, isso é o que devemos perceber.

Pois, elas são colocadas de forma categórica, sem acordos. Algo como: “Apenas desta maneira está certo para mim. Apenas deste jeito eu vivo”. Estão a cobrar do outro adaptar-se ao seu bem estar, sem perguntar se corresponde ao dele, outrossim. E muitos com o coração acalorado e repleto de carinho e respeito, estão a aceitar a poda injusta. 

Mas a verdade é que, estas manias depreciativas não são parte do que nós somos. Elas são travas de comportamento que nos fazem pensar que há o direito de afastar ou sobrepujar as necessidades de outros. Sem dialogo, a base da relação é inconstante.

É uma boa desculpa para coisas que realmente importam, por essas, ótimas para encobrir nossos medos ocultos e camuflar nossas verdades.

 

Quando estamos a encontrar situações ou até pessoas que colocam tais manias em julgamento, esta é a hora de dar atenção a algo realmente importante, e porque não dizer, inovador em nossas vidas.

Talvez isto seja o estopim para que desperte a necessidade de mudanças. Novos ritmos de vida, novas rotinas. Claro, velhos hábitos são difíceis de quebrar, mas muitas vezes é preciso quebrá-los para que aja uma evolução, um crescimento e uma convivência.

E mais importante de tudo, diferente da nossa essência, as manias podem mudar quando quisermos mudá-las. O que digo é, livra-te das dependências que só estão a atrapalhar e fazer mal! E deixas esta pessoa especial mostrar-te novas perspectivas.

 

Em conclusão, seja sua mania pequena e comum ou daquelas que destroem um casamento, vejas que a liberdade reina quando tu deixas de viver tuas limitações para simplesmente te permitir. Manias são vícios cultivados por nós que às vezes estão a retirar o equilíbrio e devem ser seriamente encarados e analisados, para que suas conseqüências não tragam uma surpresa. Afinal, por mais intensa e profunda que seja, nenhuma cegueira de paixão dura eternamente. 

Ed. 28 - Limites (por Victor)

By admin On dezembro 9th, 2009 in Crônica, Victor /

O tema “individualismo” é muito citado, pois retrata bem uma conduta que vem aparecendo em nossa sociedade e, portanto, em nossas relações.

Eu vejo com alguma freqüência, durante minhas consultas, situações assim: as pessoas que não estão a se importar e se fecham; e aquelas que se envolvem profundamente a ponto de perder sua identidade.

Extremos acontecem quando tu não aprendes os limites, e os limites são necessários para manter um equilíbrio, principalmente quando a dança é a dois.

Vou falar desses dois casos que regularmente chegam a mim e depois falaremos dos limites:

 

Veja bem, a postura do individualismo não é simplesmente egoísmo, mas também um mecanismo de defesa. O lema é “Não confies nas outras pessoas”, o que implica em um jogo cansativo de vigilância constante.

É, então, estipulado que não devemos criticar os outros, mas não precisamos aceitá-los. Confuso, não?

Vou explicar-te: A ideia é manter-se calado e simplesmente estipular uma distância. Algo como: “Não quero ofender-te. Então não fiques muito perto”.

Existe a impressão de que todos estão a respeitar a todos. Mas também existe um consenso geral daquilo que deve ser aceito e como deve ser aceito, e daquilo a que tu podes se opor.

Bem, claro que esta camada de falsas considerações dificulta o diálogo.

E ainda mais quando ela é transportada também para um ambiente familiar. É engano pensar que as atitudes e decisões de um reflectem apenas nele mesmo e que não é complexo viver separadamente, muitas vezes a confundir independência com falta de união.

Entendo que a vida hoje seja uma correria onde nem sempre tu poderás participar de cada momento da vida do outro. É claro que tu possuirás uma vida paralela a dos outros membros de tua família, em escola, trabalhos e amigos.

Mas, todos os aspectos da vida devem trabalhar em harmonia e não de forma a se anularem, afinal, todos eles compõe quem tu és.

 

Muitos pais, por exemplo, acham que dando “espaço” aos seus filhos irão lhes fazer bem. Vamos definir espaço. Não questionar, não participar, apenas fará com que os miúdos cresçam sem apoio, sem base. Demonstra uma falta de interesse da parte dos pais, associada pelo jovem, que ainda terá de sobreviver em um mundo realmente individualista.

Vou aproveitar este momento para dar um pequeno conselho:

Tenho pacientes que reclamam de não conseguir comunicar-se com seu filho, a aumentar esta barreira de vidas separadas dentro de uma família. E, às vezes, quando converso com o jovem vejo que o problema dele não é querer isolar os pais.

Na verdade, ele acaba a isolar a si, pois seus pais não sabem comunicar-se com ele. Veja, os pais são bons em dar ordens, impor situações, brigas e “pegar no pé”. Mas, no momento em que este jovem tenta compartilhar algo que ele considera importante, os pais dão pouca atenção. Estes pais não conhecem seus filhos. Por essas, chegam à conclusão de que, se cada um viver sua vida, ficarão em paz. Uma grande decepção, pois seus filhos precisam que façam o oposto. Sejam presentes na vida do outro, isso fará bem!

Este é um exemplo clássico do que acontece quando as pessoas estão tão distantes, mesmo sendo tão próximas, que perdem o senso de unidade.

 

Já o outro caso, onde o envolvimento na vida do outro é tão profundo que se perde o limite, a questão também tem a ver com anulação.

Acontece, e não raro, quando as pessoas estão em relacionamentos, principalmente amorosos, e elas se entregarem totalmente.

E isso, apesar de tentador, também é muito perigoso.

Fazer do outro o centro da sua vida causa sérias conseqüências. Afinal, aquela história de “tornar-se um só”, não é tão romântica quanto parece. Existe a tendência a perder a identidade. Perder a orientação, deixar seus desejos comandarem. E então, depositar em alguém a responsabilidade da tua felicidade é um risco grande.

Não é justo pensar que ao tornar tua vida dependente de uma outra pessoa, ela te deva algo. A tua vida é tua responsabilidade. E isso é algo maravilhoso!

Como disse anteriormente, não se pode anular todos os outros aspectos que estão a formar quem tu és, deve-se sintonizá-los.

Com alguma freqüência recebo pacientes que, após o fim do relacionamento, estão a acreditar que suas vidas acabaram. Ficam terrivelmente deprimidos. Pois, afastaram-se de todos os amigos, família, etc, para viver a vida do outro, com os amigos do outro e a família do outro.

Por essas, quando encontram-se sós, vêem-se completamente sós. Esta perspectiva tem de ser mudada, e então, a pessoa voltará a observar sua vida de forma mais própria.

 

Sempre aconselho sim, e insisto em dizer, que as pessoas devem aprender a aproveitar o tempo sós. O que digo é que, saber estar sozinho não significa ser solitário, mas sim saber apreciar momentos particulares, que não deixam de ser especiais se tu estás confortável contigo. Pode ser até delicioso, por vezes, teres o controle total do teu tempo, fazer o que quiseres a depender apenas da tua vontade… Decidir o que queres, por si só.

 

O equilíbrio é a palavra a ser seguida. Através dele, os limites que irão guiar-te ajudarão a perceber o valor de tudo sem sobrecarregar ou afastar.

Nem a total independência ou o total apego são medidas certas em uma relação.

O que sugiro ‘aqueles que se identificam com estas historias, é que pegues um tempo para conhecer-te e reflictas sobre aquilo que seria teu limite, o que funcionaria e também, tudo aquilo que tu poderias melhorar para não viveres mais as situações citadas.   

Não aconselho nenhum dos casos, o que considero é o individuo, a manter sua individualidade sem deixar de envolver-se.

Ed. 27 - Revolução Masculina (por …….. Victor)

By admin On outubro 17th, 2009 in Crônica, Victor /

Todos já ouvimos muito falar sobre a incrível Revolução Feminina.

E, em todas suas bravas conquistas que vemos desabrochar, até hoje, fica clara também toda a sua força.

Durante o processo, mudanças de comportamento variaram. Vivemos a fase da fêmea alfa e passamos a mulheres multifuncionais. A buscar o equilíbrio entre seus desejos, seus sentimentos e suas ambições.

Mas, isso já foi tantas vezes discutido. E constantemente retorna como um assunto extenso e complexo descrever nossas inebriantes mulheres.

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O que gostaria de falar agora é algo que pouco nos perguntamos durante este tempo: E o homem?

Enquanto as mulheres finalmente começam a livrar-se do conservadorismo e machismo, descobriam-se e revelavam-se a toda gente, o homem simplesmente não entendia nada.

Vejam bem, não estou a cá para defender machistas. E nem poderia já que nunca fui um.

Não estou a falar que não seja verdade que, em outras épocas, o costume fazia com que o homem regozija-se no prazer da submissão feminina. E nem cegar-me-ei para esta postura, que ainda hoje revela-se, de atitudes cruelmente repressoras em relação às mulheres.

Disse e repito: A garra desta revolução trouxe merecidos reconhecimentos às mulheres.

O que quero dizer é que, ao mesmo tempo, entendo que desaprendemos como agir.

E que os homens estão mais perdidos do que nunca em relação às damas.

Elas querem cavalheiros ou isso seria considerado machismo?

Querem que eu seja romântico ou estou a ser pegajoso?

Preciso “pegar” esta menina, senão não serei homem?

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Até então, os papéis a serem representados eram muito claros. Hoje, as pessoas têm que decidir por conta própria o que querem e isso leva tempo a ser descoberto.

Por essas, é primeiro necessário que tu saibas quem tu es e não como deverias ser.

O homem costuma saber muito bem o que ele precisa ser para ser visto como homem. Um macho. Mas são por vezes ideias bastante antiquadas, rígidas, que não correspondem com as ideias gerais encontradas na nossa sociedade hoje. As mulheres sabiamente evoluiriam sua percepção em relação ao seu tempo, os homens vivem uma cultura que está atrasada.

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Antes conseguíamos nos provar através de autoridades: éramos detentores da posição social, hoje não somos mais. Éramos os independentes trabalhadores, e agora esta função não é apenas nossa. Éramos os chefes da família, hoje a família é uma democracia e com dois presidentes. E todas as funções exercidas pelas mulheres continuam a ser delas. Então, o que somos hoje?

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A função do homem está a ser bastante contestada.

E pasmem, a culpa disso é nossa. Os maiores preconceitos que os homens sofrem vem da nossa tentativa de provar algo. Vou explicar:

Alguns conseguem ser mais prestativos e participativos, a criar não só um laço com sua família, mas um equilíbrio em tarefas e rotinas. Quando a igualdade é pronunciada em casa, esta ideia de funcionalidade deixa de ser contestada.

Mas sempre há homens com conceitos pré-feministas que se recusam a ajudar, tentando recobrar certa autoridade. Porém, também não vamos achar que o exagero de delicadezas irá funcionar.

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Já ouvi muitos homens a falar algo do gênero: “Os homens são as mulheres de hoje”. É um conceito interessante, mas acho que o que gostariam de dizer é que, os homens mudaram de posição quando as mulheres começaram a assumir o controlo.

Talvez muitas mulheres, é claro, tenham começado a assumir uma postura que antes denunciava os tais machões.

Necessito dizer que, uma postura indelicada e desrespeitosa, independe vindo de um homem ou de uma mulher, é canalhice igual. E nada justifica tendo a ciência de que tu es sempre responsável pelos teus actos, e por nada mais.

Nessa mudança de postura, muitas coisas ficaram mal entendidas.

Claro, quando as mulheres falam que querem homens sensíveis, tu deves dar ênfase tanto a palavra “sensível” QUANTO à palavra “homem”.

Quer dizer: Dê valor a ela (a sua essência e a suas curvas), lembre do aniversário, a apóie quando ela chorar e não faça coisas como diminuir ou desrespeitar a sensibilidade dela.

Mas, isso não quer dizer: Aja como uma mulher. Em momento nenhum foi pedido que perdesses a identidade ou o pulso de homem. Equilíbrio é fundamental.

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É relativamente fácil entender isso, mas porque debochamos dos sentimentos? E temos dificuldade em lidar com eles? Os próprios homens são os maiores repressores dos homens. Isso é visto, pois, a todo o momento, nossa masculinidade é contestada.

Por exemplo, falar algo delicado, fazer as unhas, falar que outro homem é bonito e, até mesmo, usar a cor de rosa, serve como deboche e contestação de virilidade. Que sentido isto faz? Nenhum! Obviamente, não comprova nada. Mas estes conceitos vêm de culturas de base familiar, passadas aos filhos homens, que crescem reprimidos.

Ou isso não é repressão? E sim, é injusto!

Veja bem, assim como as mulheres que tiveram, e ainda tem, suas atitudes julgadas por morais impostas, os homens também vivem este dilema. Apenas os ignoram, já que não é de nosso costume aprofundar sobre sentimentos. Quando tu es persuadido a acreditar em limitações, tu te tornas incapaz. Deve libertar-te de ti. A pressão social sofrida por adolescentes nas escolas é muito cruel. Os meninos são testados física e psicologicamente. E por toda a vida são instigados a provar a masculinidade.

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Concluindo, está claro que, apesar de se recusarem a acreditar em toda sua pose de donos da situação, os homens precisam passar por sua própria revolução.

Vou definir a ideia: Onde estes elementos preconceituosos não sejam mais impregnados em nossas vivencias desde a infância. Onde não precisem a todo o momento reafirmar sua virilidade. Onde aceitem compartilhar ao invés de dominar, já que isso não funciona mais! Sem a pretensão de ser dono ou vítima. Sequer pensar sobre isso, sem achar que é frescura!

Mas, na nossa cultura essa história de abrir o coração ainda é coisa de mulher, não é? O que nos foi dito é que o homem deve ser prático, forte e objectivo.

Por essas, estamos presos e somos nossos próprios reféns. Temos muito que crescer.

Aviso !

By admin On outubro 6th, 2009 in Kaká, Manô, Victor /

Peço desculpas aos leitores pela demora na publicação Ed. 25, com o novo poema de Alicia.

Essa semana, mais duas colunas, da Ed. 26, serão publicadas normalmente!

É promessa! Fiquem de olho :)

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Marcela B. D´Angelo - Admin. Colunas Diárias

Ed. 13 - Civilidade e necessidades …….. básicas (por Victor)

By admin On julho 1st, 2009 in Crônica, Victor /

Acredito ser este um conceito muito interessante de nossa cultura.

Em todas as etiquetas impostas, rituais considerados aceitáveis e condutas exemplares estamos a falar mesmo de civilidade.

Medimos níveis sociais, culturais e econômicos conforme o domínio de tais maneiras.

Logicamente, com passar dos tempos, mudam também as premissas.

Não deixam, porém, de existir.

O que me intriga mais que tudo é pensar de onde vêm tais regras. Com base em que são impostas? Quem primeiro disse as disposições dos talheres ou estipulou uma excelência?

Observo que, a civilidade pode ser encontrada ao oposto das necessidades básicas.

Vem da idéia mais afastada possível de nossas humanidades.

Estas foram as leis que pudemos adotar a partir de um ponto fundamental: o domínio de si.

Veja bem, tudo aquilo que está a ser animal, que está a fazer parte de nós intrinsecamente é considerado não-civilizado.

E civilizado é apoderar-se destes constantes impulsos e controlá-los, ignorá-los. Esta é a definição tradicional que pude concluir.

Por essas, tomei como evidências alguns costumes ainda hoje presentes e indicativos de civilidade.

Como exemplo de necessidade básica podemos ver nossa relação com a comida.

Para a alimentação, existe todo um ritual que anuncia postura, controlo e elegância.

O contacto é frio e, para ser civilizado, devem ser usados os talheres que mantêm a distância correcta entre nós e aquilo que necessitamos para viver.

Outros indícios são constantemente vistos, como pequenas regras de conduta entre pessoas, a referir aquilo que pode ser aceitável ou não.

A própria questão do toque, tão mutante entre culturas, é algo cheio de cautelas para não invadir espaços ou limites.

Não digo necessariamente o físico, mas, cumprimentos como sorrir e dar atenção, em determinados momentos e em medidas erradas, não é civilizado.

Pois, esta proximidade com o outro é uma necessidade básica do ser humano. E, às vezes, remete-se injusta e rapidamente a promiscuidade, mesmo que seja de carácter.

Reações e sentimentos são grandes inimigos dos momentos civilizados.

Vou explicar-me. São coisas que não se pode controlar, claro. Porém, quem domina a arte da civilidade aprende a contê-los, a não transparecer de forma física.

Isso é algo tão desconcertante. Aparentemente, os sentimentos são controláveis se resistimos a suas reações familiares, enquanto internamente não possuem limites.

Quando é necessário escondê-los, por razões diversas, é esperado um êxito do racional e daquilo que é considerado decente.

E se tu não obténs sucesso nesta amputação emocional, tu és fraco.

Tantas regras existem para ajudar-nos a caminhar em uma direção correcta, a evitar mal entendidos, pois tudo parece bem estipulado.

Seja tua postura a mesa ou a revelação de algo particular e visceral, tudo está traçado.

E manter-te dentro disso é o ideal para conferires uma justiça a toda gente.

Mas, nada muda nossas necessidades.

A civilidade conquistada, independente de modos ou cultura, em nada altera o que somos.

O que digo é que, a forma como o fazemos não anula o facto de que nós precisamos nos alimentar, nos relacionar, sentir o outro, sentir que não estamos sozinhos. Não há nada de errado nisso. Claro, talvez não seja confortável perceberes que, vez ou outra, tu não estás no controlo. E sim, o calor humano, impulsivo e sem pudores, revela tua vontade sem perdão. Quem pode resistir a isso?

Por essas, acredito que, se alguém te impõe alguma coisa, o mínimo que esta pessoa te deve é um bom argumento.

E para isso, recomendo algumas civilidades e outras, nem tanto.

Ed. 12 - Beleza (por Victor)

By admin On junho 27th, 2009 in Crônica, Victor /

A questão da beleza é constantemente levantada durante as consultas, e digo, com cada vez mais intensidade. Não acredito que estejamos a falar apenas de vaidade ou insegurança, mas sim de uma forma de pensar que está a aborrecer especialmente as mulheres.

Afinal, o peso da beleza sempre foi carregado por elas, isso não é novidade.

Considere tantas histórias onde o homem é a representação da força e a mulher a detentora da beleza. E as mais belas são as mais poderosas.

Portanto, às vezes, é um cargo a ser almejado. Bem, ao menos instigante garanto-lhe que é.

Entendo que, talvez, a ânsia pela beleza mais que perfeita venha desta idéia de ser considerada a melhor apresentação do feminino e a possuidora do domínio acrescido a isso.

Mas o que acontece hoje, com esta enxurrada de tratamentos e cirurgias? A beleza sempre foi atraente, claro, mas antes as mulheres podiam lançar mão de outros atributos para conquistar, como em uma educação doméstica em sociedade patriarcal. A submissão pode ser muito atraente pelo poder que sugere, mas as mulheres encontraram uma forma mais justa de comportamento. E, apesar de oferecerem outras várias qualidades, hoje seus dotes intelectuais ao invés de atrair deixam a maioria dos homens fragilizados. E, então, a beleza feminina, sempre tão sedutora, passa a ter um valor importante (e bem caro!) nesta sociedade.

Mas, defina beleza. O que mais intriga e atordoa é questionar, enfim, o que é belo.

É por essas que as pessoas perdem-se, já que começam a levar em conta a opinião daquele que olha como seu espelho. Mas, não estão a considerar que opiniões são opiniões. E tendem a mudar mais rapidamente do que sua destreza em modificar-se.

Particularmente, considero uma grande besteira tentar definir padrões de algo indefinível.

É desconcertante algo tão variável possuir tanta importância dentro de nossa cultura.

Digo variável, sim. Pois a beleza sempre é relativa, assim como qualquer análise ou interpretação de qualquer observador. Vou explicar-me:

A beleza está nos olhos de quem vê, não é assim? Portanto, varia conforme a quantidade de pessoas aptas a olhar. Ou seja, bastante.

Minha mãe, por exemplo, acha-me maravilhoso! Para tu veres que depende mesmo de quem olha, brinco. O que uns acham lindo, outros não se interessam.

E lhe digo mais uma coisa que sempre me foi razoavelmente clara: Ninguém É bonito.

Uma pessoa pode estar bonita, neste momento. Mas, não significa que será sempre bonita. Ou que estará bonita pela manhã, após os tratamentos, montagens, maquiagens, etc, perderem-se. Quando tu dizes que uma pessoa é inteligente, por exemplo, ela realmente o é independente da hora, do dia, da situação. As pessoas são bonitas arrumadas, bonitas depois de um bronzeado, claro.

Por essas, não te enganes, pois ninguém é bonito o tempo todo, mesmo aquelas pessoas que parecem naturalmente lindas.

Vou dizer-lhe algo, a beleza enche. Isso é um dado curioso que me foi confirmado por alguém acostumado a lidar com os actuais padrões de beleza para desfiles.

Segundo ela, é como quando tu compras um quadro novo. No começo, tu o achas lindo. Até gasta horas de teu dia a admirar sua beleza.

Mas depois de um tempo, tu passas por ele e nem percebe. Tu acostumas com sua beleza e assim, de repente, ele não parece mais tão bonito. Por essas, se só existir a beleza, tão logo não existirá mais nada.

Portanto, te acautele em apegar-te a algo que, sinceramente, não preenche ou satisfaz por muito tempo. Pelo menos não da maneira mecânica e industrial que é estipulada.

Devo confessar que o amor tem, sim, tudo a ver com a beleza. A atracção tem muito a ver com o amor. Mas, não com o ideal que foi imposto onde é necessária uma aceitação dentro de um padrão e, sem isso, a conclusão é que tu não serás querida, admirada ou amada.

Veja bem, não é nada disso. A beleza que falo é a naturalidade e a particularidade, e talvez mais nitidamente, a felicidade. Uma pessoa feliz é linda ao extremo. Ilumina o lugar e atrai os olhares.

Portanto, apenas ao dominar a autoconfiança é possível achar algo simplesmente belo, de uma maneira que não pode ser copiada. A beleza só aparece quando primeiro tu amas a ti.

O artificial geralmente chama a atenção de forma ruim e causa estranhamento.

Então, por favor, parem com essa loucura em fazer parte de um padrão que amanhã poderá mudar.

Entendas que, não há nada de especial em padrões. São muito monótonos.

Sugiro fundar bases em temas mais estáveis que possam trazer a verdade.

A imagem é uma mentira, pois é mutável.

É justo dizer que se tu cultivas superficialidades, é isso que terás em tuas relações. Serão tão duradouras quanto durar a tal imagem submetida. Fará de ti escrava de uma ilusão.

A beleza como é vendida, é passageira, claro. Desculpe a crueldade desta afirmação, mas tu necessitas envelhecer se pretendes continuar viva.

E se todos envelhecemos, qual é a beleza que fica? O que nos torna realmente bonitos e irresistíveis? É essa que se encontra em ti todo o tempo, que conquista, que cativa e não engana.

Mas, veja bem, tudo é uma escolha. Tu podes ser livre ou impecável. Ouso dizer que há sempre algo de muito sensual em uma bela rebeldia.

Ed. 11 - A Falsa Revolução Feminina …….. (por Victor)

By admin On junho 17th, 2009 in Crônica, Victor /

Ao observar o movimento do meu consultório percebi que o número de pacientes mulheres era muito superior ao número de homens. Em sua grande parte, estavam ali por uma mesma causa: as mulheres estão estressadas.

E digo isso porque, naquela sala, não havia casos patológicos ou distúrbios. Eram mulheres exaustas, que estiveram a passar por alguma experiência recente que foi a gota d´água e por essas resolveram vir. Esta gota d´água, na verdade, é um fragmento de água comparado aos motivos reais de sua condição. Vou explicar-me:

O retrato destas mulheres é este: pessoas cansadas, cobradas pelo mundo 24 horas por dia, sobrecarregadas. Como já citei anteriormente em “Sucesso”, o mundo impõe-nos o melhor, constantemente. E as mulheres em suas mil funções adquiridas cobram-se muito mais, claro. São as mulheres multifuncionais, as mulheres da nova geração.

E a ideia de felicidade está associada a ter o pacote completo. Por essas, nossas fantásticas fêmeas querem tudo, e conseqüentemente, querem ser boas em tudo.

Às vezes, esquecem-se que ser perfeito não é humanamente possível. Na tentativa de acertar, processar, agendar e cumprir verdadeiras missões, tornam-se máquinas, e chegam ao consultório, quando conseguem vir, como zumbis.

E isso é o conceito de sucesso?

Estamos a falar a cá da falsa revolução feminina, onde ao invés de igualdade, as mulheres conquistaram mais trabalho e responsabilidade.

Veja bem, a igualdade ainda não existe. Quando tu tens mulheres esgotadas em actividades que deveriam ser compartilhadas, não há igualdade.

E o que se escuta muito é algo do gênero: “Mas não foi por isso que elas lutaram?”. Lutaram, sim, por um espaço. Por uma forma mais respeitosa, pelo reconhecimento. E não por este acúmulo de cargos, ainda impostos, de certa maneira, em nossa sociedade.

Culturalmente, as mulheres ainda são a responsáveis pela casa. E ainda funcionam como secretárias do marido. Quando se tornam mães, o assunto fica ainda mais complicado e entraremos mais especificamente nisso depois.

Talvez, em alguns aspectos, isso seja exigido delas, porque, de forma ancestral, tais ações denotam certa sensibilidade.

Veja bem, não excluo a presença das mulheres nos afazeres domésticos e imagino que algumas, de facto, gostem de cuidar do lar. Mas, a sobrecarga acontece e a pressão da decisão onde elas são obrigadas a escolher uma coisa ou outra (profissão ou família) acontece, pois elas não têm apoio. Nunca é perguntado ao homem se ele irá abrir mão da profissão pela família, ao contrário, é esperado um aumento de produtividade. Isso porque ele entende que, em casa, possui uma base sustentável.

O que digo é que, na actual situação socioeconômica e cultural, esta base precisa ser sólida nos dois lados.

Devo explicar que, na verdade, a ideia não é fazer com que um dos dois abra mão de sua profissão, estudos, etc… Mas, que haja um ajuste justo que permita um pouco a todos.

Se for ele quem trabalha, a mulher pode ponderar um horário onde ele fique com as crianças enquanto ela faz seus cursos. O oposto também é verdadeiro. E depende da disposição em coreografar esta dança. O que não pode ser, querida leitora, é fingir que é mãe solteira.

Tenho a destacar, porém, um dado que considero muito feliz. A postura dos homens está a mudar. A nova geração masculina, vinda de uma educação de mulheres mais liberais e vendo suas mães lutadoras a trabalhar, tem uma visão diferente sobre responsabilidades do lar.

Vejo que, estão aprendendo a arrumar-se. Mesmo porque, alguns estão a passar pela experiência de morar, durante um tempo, sozinhos. E, então, eles dão valor às tarefas domésticas. Eles ganham uma consciência sobre, por exemplo, como é chato lavar louça.

Sabem fazer compras, sabem passar uma camisa… Claro, quando se casam, eles não são meninos perdidos e dependentes. Enquanto aquele que sai mal acostumado da casa de sua mãe, faz imediatamente a transferência de papéis para a esposa.

Por essas, aconselho minhas estimadas pacientes a casarem com homens que já moraram sós, e aos pacientes a largarem a saia de suas mães. Pois as mulheres de hoje não suportam ser babás. Não querem um marido como filho e sim, um homem que as apóia. E estão deliciosamente certas!

Ainda assim, com esta consciência que vem a crescer, talvez as mulheres estejam a comprometer sua sanidade no desequilíbrio destas responsabilidades.

Ao saberem disso, não deveria ser clara a solução? A divisão igualitária de tarefas dentro de uma casa, a possibilitar a todos uma administração de seu tempo e afazeres.

Mas, não é bem assim. Isso porque ainda existem barreiras bastante complexas nesta real evolução. Veja bem:

Em um cenário tradicional, existem ainda muitos homens que, apoiados em conceitos machistas ou simplesmente apoiados confortavelmente, se recusam a executar papéis que consideram femininos.

E há mulheres que definem que nessa divisão de funções irão perder o espaço pelo qual batalharam, e que é de seu direito e dever, e então, não delegam. A divisão, que traria a ideal igualdade, acaba por não acontecer.

Ainda, a tão polêmica questão dos filhos, onde, logicamente, as mães têm a incumbência de amamentá-los, após os primeiros anos da maternidade, não se altera. Elas continuam a responder pelos filhos e por tudo o que os envolve, pois assim têm feito desde o momento em que eles nasceram. Mas, agora que as crianças estão a tornarem-se, não independentes, mas menos “exclusivas” aos cuidados das mães, é a hora de dividir mais responsabilidades. Precisamos quebrar este tabu, pois a participação dos pais é tão importante quanto a das mães. Entenda que, os dois são a representação do homem e da mulher, e do que essas crianças aprenderão por relação entre os dois. Portanto, mães, deleguem aos pais também!

As mulheres precisam aprender a delegar! Precisam ver que, não é possível estar no controlo de tudo e, claro, relaxar. Deixar toda a impetuosidade e espontaneidade, tão sensuais da mulher, fluírem novamente.

Aproveito o espaço para afirmar às nossas mulheres atarefadas que, perfeccionismo tem hora e tu só consegues ajuda quando abres espaço para alguém ajudar. Entendas que, não adianta culpar o outro, não!

Nós, homens, sabemos que tu és maravilhosa. E achas que apenas tu és hábil a arrumar a cama perfeitamente. Também sabemos que tua mãe sempre te disse algo como: “Homem é assim mesmo”, cada vez que falhávamos na organização ou arrumação de casa, a fortalecer a máxima de que somos mentalmente incapacitados de realizar tais tarefas.

Mas, a verdade é que a prática leva a perfeição, e se tu desejas uma ajuda para arrumar a cama, deixas seu marido arrumá-la todo dia. Fiques tranqüila. Ele vai acertar.

Menos uma preocupação para tua lista.

Afinal, do que adianta tanto esforço, sem saborear nenhuma vitória? É necessário tempo em teu dia-a-dia para apreciá-la. Nos permitir é algo maravilhoso. É possível e te trará certa paz. Permitas a ti não seres “a melhor” e sim, feliz.

Percebas que, esta definição prevalecente em nossa cultura, em que mulheres são exemplos e devem ser perfeitas e multifuncionais para mostrarem-se modernas, é injusta. E não deve ser aceita. Cabes a ti não vesti-la.

Também, é importante lembrar, que não é admissível uma regressão de valores, abrindo mão das conquistas reais posteriores a revolução feminina, como a abertura nos mercados de trabalho.

Mesmo assim, também neste aspecto, as mulheres ainda são reféns. De certa forma, são consumidoras e mão-de-obra mais barata, bem-vindas aos mercados até a página cinco. E continuam a cumprir, cordialmente, seus papéis sociais.

Por essas que, quando estou a diagnosticar uma paciente, que apresenta sintomas sérios, pois já não come direito, há dificuldades em dormir e sua memória está falha, me pergunto se ela sabe o que quer da sociedade e se sabe o que a sociedade está a fazer com ela. Às vezes, acho que estas mulheres tão encantadoras, inteligentes e cultas, que dominam tão bem a si e as questões psicológicas e mais profundas, não fazem ideia do poder que têm neste mundo. E o quanto ainda devem libertar-se e lutar pela igualdade.

Ed.08 - Defina “Amor” (por Victor)

By admin On maio 31st, 2009 in Crônica, Victor /

Há muito tempo já me conformei que o assunto prevalecente de minhas conversas seria “o amor”.

E é isso que está a acontecer em meus textos, consultas e… vida. Quão intrigante é este grande agente de transformações?

Digo, o amor é tema tão recorrente, pois é parte de uma busca constante, porém não se pode buscar o amor, deve-se esperar ele acontecer.

Acredito que por essas as pessoas fiquem impacientes. E neste meio tempo, o que será que todos estão a esperar?

Para definir o amor existem várias formas, algumas bíblicas e outras poéticas, mas entendê-lo já é grande desafio.

Talvez, ao invés de dizer o que é o amor, devêssemos dizer primeiro o que ele não é.

Uma das principais falhas, ao meu ver, é quando confundimos o sentimento com a situação.

Em primeiro lugar, deve-se separar a idéia de amor das demais, tão facilmente confundidas.

O amor é algo mais, muito além de um relacionamento. Mas devo dizer que um relacionamento não é baseado apenas no amor.

Vou explicar-me melhor:

Um amor vive sem sexo, por exemplo. Um relacionamento, não. Um relacionamento precisa do amor, mais também precisa de desejo, cumplicidade, afinidade…

Relacionar-se, talvez nessa concepção, seja mais difícil que amar. Pois é um conjunto de tantas coisas mais reais e rotineiras, que lhe ofuscam a beleza e exigem tanto, enquanto amar é sempre terno.

O que digo é que, é possível tu amares alguém que não pode estar ao teu lado. É possível amares alguém que ama outra pessoa, ou que já não vive mais entre nós.

Por essas, existem pessoas com quem, por mais que tu ames, não consegue se relacionar.

O relacionamento precisa de amor, sim. Mas não apenas dele.

Não tiro a importância do amor em um relacionamento, digo que, durante este, não se ama uma pessoa da mesma forma e com a mesma intensidade todo o tempo. Existem “marés”, e assim, momentos de maior expressão, e outros onde seu foco muda temporariamente. Vejo que isso é uma grande decepção para muitos casados que sentem-se negligenciados.

Entenda que, claro, a maré não pode secar. Mas o equilíbrio, em meio às oscilações, é fundamental e torna tudo mais divertido. “Viver de amor” é apenas força de expressão, pois várias outras coisas também estão a acontecer na sua vida e na do parceiro. Nem sempre é possível ser prioridade. E não significa que o amor não esteja ali.

Também, não se pode confundir amor com paixão ou atracção.

Eles são bem diferentes, claro. A paixão acontece de uma forma avassaladora. Ela atormenta, confunde, destorce, hipnotiza. Uma força eufórica que depois se vai, a deixar os rastros de sua impetuosidade. Mas, que delícia é apaixonar-se e ainda conseguir apaixonar-se todos os dias por aquela pessoa.

Esta atracção irresistível tem muito a ver com o amor, mas também não é o amor.

Pois ela é muito mais carnal, mais tátil, enquanto o amor seria uma atracção mais sentimental, até espiritual ou filosófica.

Por essas, o amor firma-se com o tempo, diferentemente da paixão. O amor vai a descobrir-se no passar dos dias, nas intimidades e a partir do momento que tu desvendas aquela pessoa.

Eu digo, correndo o risco de ser repreendido, que reconheço mesmo o amor conforme os detalhes. Quantos mais detalhes tu sabes e registras sobre alguém, mais amor existe. Pois existe um interesse genuíno sobre a pessoa.

O que normalmente se explicaria por algo do gênero “Amo porque amo. Amo porque é ela”, lê-se como, “não existe no mundo, nem por encomenda, alguém como ela”.

Um tanto inexplicável a sensação que lhe traz aquele olhar cheio de significados que tu já entendes. A maneira como prende o cabelo. Uma risada específica. Ou aquela mania irritante de cantar (alto e erroneamente) “I want to go”, quando a letra é “I wanna know”. Tudo isso é um conjunto praticamente afrodisíaco de detalhes particulares que constroem uma vida. Cultivados ao longo de um tempo de estudo.

Eu sei, sim, que existem os amores à primeira vista. Mas, será que novamente não estaríamos a definir errado? Não seria uma atracção, uma química à primeira vista?

Aquele primeiro olhar onde uma pessoa lhe impressiona possui uma conexão, mas não necessariamente para uma vida inteira. O relacionamento que vier daí se encarregará disso.

Com tantas interpretações do que é o amor, imagino quantas vezes as palavras “eu te amo” foram utilizadas a possuir o mesmo significado tanto para o emissor quanto para o receptor.

Na verdade, o termo foi popularizado de tal maneira que perdeu o sentido.

De qualquer forma, essa questão um tanto polêmica, que gera expectativas em novos casais, não deve ser levada a ferro e fogo.

Deve fluir naturalmente, ou pode cair em situações difíceis como: não sentir e dizer, ou sentir e não dizer.

Veja bem, é importante deixar claro ao outro o que se sente, a evitar as falhas de comunicação, e assim, podem chegar a um acordo justo sem prejudicar o parceiro ou a si mesmo.

Mas, em conclusão, estou longe de ser um mestre capaz de entender tudo o que concerne ao amor. E das experiências que observo, apenas posso tentar separar o joio do trigo.

Como psicólogo e estudioso, consigo ajudar-te a entender-se e nada mais.

Mas, como marido e pai, posso dizer o que acho do amor, pessoalmente.

O amor que encontro é presente e altruísta.

Basicamente, não busca razões de existir. É um compromisso de estar sempre ali, de um jeito ou de outro, sem calcular ou prever, inconscientemente. É algo que tu não consegues evitar quando ama alguém.

Ele tem a capacidade de confessar coisas que racionalmente tu nunca verias. E dentro destes detalhes puramente instintivos, tu encontras o prazer em estar rendido.

O amor, seja de que forma for, se é direcionado a alguém, ou a si mesmo, sempre envolve-se pela alegria e paz, onde tu verdadeiramente encontra-te.

Mais do que isso, não posso definir.