Ed. 29 - O testamento Renonciere (por …….. Noel)

By admin On dezembro 20th, 2009 in Conto, Noel /

De primeiro, em uma atmosfera particular, Arthur Renonciere, pegou um pedaço de papel e começou a escrever. Lá, ele declarou suas mais finas intenções em relação ao mundo, a vida e as pessoas que cercavam ele. Deixou claro também, tudo o que se havia cumprido ou deixado de lado e tudo aquilo que se havia ganhado ao longo de uma grande andança. Arthur sofria de um dos mais sabidos males da humanidade e, absorto pela dúvida e pelo medo do fim, não pode ser diferente ao relatar apaixonadamente a vida que construiu. Seu desejo de longevidade só não era maior do que seu desejo de ter feito a diferença. Sem saber que fazia isso mesmo em seus minutos finais, Arthur foi arrebatado pela angústia, seguida de uma tristeza, seguida da paz, propriamente dita, que sombra todos nós.

Logo, desta maneira que foi feito o primeiro testamento do mundo. Todavia, ao longo dos tempos essa carta emocionada foi sendo modificada, já que nenhum testamentário dava conta de chegar ao seu fim sem ter grandes reações chorosas de entes queridos. Os testamentários entraram em acordo, frio, porém eficaz, sobre como a tal carta devia de ser lida e, afinal, ela acabou resumindo apenas a parte de “vida que construiu”, ou seja, bens, pulando, definitivamente, a parte de “significado da vida” que só deixava as pessoas mais deprimidas. O fato de nós mesmos não sermos as pessoas mais imparciais para falar de nós mesmo também influiu sobre a firmeza da decisão, dando um ar de redundância a tudo aquilo que gostaria de se auto-explicar.

Portanto, a invenção de Arthur, que nem tantas outras, foi corrompida na sua essência e intenção, porem, enquanto a família Renonciere vivesse, ou, morresse, tal significado não seria esquecido sendo, então, o formato de testamento de Arthur e sua preocupação em ser lembrado mortos em uma cajadada só. Confesso que sabia não de tal história antes do fatídico dia 29, quando Carlos Augusto Figueira Renonciere, amigo meu de longa data, morreu de medo da morte. Falo isso, porque ele teve um ataque cardíaco após a cazumba de ser picado por um mosquito que transmite uma doença infecto contagiosa rara e incurável, que alastra em cerca de uma semana. E aí, para que esperar, não é mesmo?

Assim, ali estava eu, em um velório de um Renonciere. Conforme cheguei, notei uma música estranha que mal se havia de ser reconhecida, pois o barulho das vozes das pessoas era demais. Era um velório animado, colorido, havia um bolo, que nem o de casamento. Fiquei cabreiro de que, a qualquer momento, cantassem parabéns. Entretanto, a família estava isolada e chegar até ela exigia um ritual de apresentação todo diferente que ditaria se você continuaria na festa ou não. Primeiro, você passava por umas correntes de prata, e depois de pegar uma fila agarrada falava seu nome e de onde conhecia o defunto, o que era bestagem demais, já que estamos falando de uma cidade pequena, onde todos já mais que se conhecem. Talvez por isso quisessem a presença apenas dos mais próximos… Quem sou eu para questionar tradições?

Então, apresentei minha pessoa a família, dando minhas condolências. Eles já me conheciam desde a infância, então o teste foi relativamente fácil e daí, podendo circular livremente pela festa, pude finalmente, aproximar do caixão. Quando fui ao caixão despedir, notei o quanto as pessoas ficam diferentes quando estão mortas, quase irreconhecíveis, e isso assustou por um tempo, mas não mais do que o momento em que um parente chegou para mim e falou, “O que achou?”, e eu surpreso falei, “Do que? Do meu amigo morto?”. O sujeito riu e lançou “Foi $75 mil, de primeira qualidade”. Achei estranho o homem, espiando o parente falecido comentar o preço absurdo do caixão, mas, novamente, já tinha percebido que estava em um velório comum não. A comida era farta, a bebida também e toda aquela recepção tinha cara de casório, onde todos esperavam pelo evento maior, sendo que nesse caso, não era a noiva vistosa entrar na Igreja. Era um senhor de aparência duvidosa direcionar ao púlpito para uma leitura.

A certo ponto, percebi que o testamentário, tratado que nem um artista,

 estava sem noção de tenso. O testamento ou carta seria lida ali, para todos, após as palavras dos mais próximos. As palavras dos mais próximos foram emocionadas, naturalmente. Talvez longas até demais. Histórias sem sentido sobre passeios em comum e conversas noturnas compartilhadas, afim de mostrar a intimidade destas pessoas, mas que, na realidade, para a maioria presente era apenas mais uma forma exagerada de falar de alguém que já foi pro beleleu mesmo. Aliás, maximizar impressões sobre uma pessoa quando ela morre é algo muito costumeiro. Se alguém era bacana, vira maravilhoso; se era bom de serviço, vira “o melhor empregado que já tive”; se era um besta, vira “alguém com um humor único” ; e se era inconseqüente “um espírito livre”. Com Carlos, foi diferente não. Todas suas qualidades e defeitos foram devidamente descritos da melhor forma que se havia, seja por carinho ou para não estragar o momento. Existem coisas que realmente ficam melhores olhadas de longe, e enquanto eu imaginava se Monet teria tido tal impressão também em um velório, era a hora do testamentário falar.

De acordo com a regra, o testamento completo deve ser lido no velório para todos os que participaram da vida do presunto e que estivessem presentes. Por isso, normalmente o povo tem muita cautela mesmo sobre o que escreve em seu testamento. Afinal, quantas vidas se há de serem afetadas com simples revelações? Mas, Carlos tinha outra opinião. Quando alguém tivesse o direito de ler seu testamento, ele estaria morto. Então, que se lasquem. Não valia um tostão furado! Contudo, poucos ali tinham conhecimento suficiente para ter certeza da impetuosidade desse caçador de confusão. O testamentário, conhecendo a declaração pós-morte do cliente, foi vagaroso até o microfone. Como quando alguém lê uma sentença, falou pausadamente e da forma mais firme que dava conta, deixando escapar um tremor de voz, vez ou outra:

“Ao testamentário: Sei os costumes e rituais de minha família e conheço as regras de conduta quanto tal procedimento. Assim, entendo que seja papel do testamentário presidir minhas palavras da forma mais gentil e, por vezes, utilizando de uma entonação afável por demais. Essa não seria a maneira correta de interpretar meus sentimentos e palavras finais. Acredito que, quem deve me representar nessa altura é uma pessoa que me conheça, tanto de maneiras quanto de pensamentos, e que, tenho certeza, irá usar palavra por palavra, sem tentar erroneamente suavizar a questão. Peço, então, para que outra pessoa leia meu testamento: meu amigo, Noel Aragão.”

Ah! Quando falaram meu nome, fiquei em choque mesmo e de orelha em pe, juntamente com todos os presentes que, imediatamente, encararam. O testamentário, nervoso e sem graça, me chamou de canto e sussurrou: “Aqui, sei que foi o pedido dele… então, se não pode passar mel na boca, meu conselho é: leia rápido. Bem ligero, para que não dê tempo de assimilar nada e arreda. Todos odeiam mensageiros”. Nessa hora, questionei meio confuso, meio com dever de justiça, “Mas, não era isso que ele queria…” e então ele acrescentou sabiamente“Ele está morto. Quem vai encarar o povo é você…”. Compreendendo, agora, o grande mantra dos testamentários, fui até o microfone, ainda em choque, só que, eu sou testamentário não, e por mais difícil que tivesse sido a situação que esse amigo gozador me colocou, talvez fosse sua última risada. Não queria ser responsável por uma infelicidade eterna, não mesmo.

“Queridos amigos e familiares, e convidados que eu nunca conheci, acompanhantes, pagos ou não, e aqueles não tão queridos assim…”. Nessa primeira frase, o pessoal imediatamente já ajeitou na cadeira. Todos nós sabíamos, naquele momento, que viria bomba e como todos temos segredos e uns trem para esconder, a inquietude pairava no ar. Silenciosa, mas cortante. Limpei a garganta e continuei “Quero deixar claro que faço esse testamento obrigado e que, apesar de não achar necessário, todos ainda insistem nesta tradição. Pois bem, se o que todos querem lembrar é a intenção de meu tataravô, então falemos de integridade, verdade e valores, coisas que já não vivem aqui há bastante tempo” alguns murmurinhos me lembraram de que eu deveria falar mais rápido“Na realidade, tem muito pouco a ver com ostentação ou tradição. Aliás, qual é a idéia dessas tranqueira dessas corrente de prata, afinal?”, algumas pessoas riram e depois sentiram sem graça mesmo. Logo prossegui: “A parte da integridade, tenho orgulho de dizer que tive uma vida correta por demais, sempre ajudei quem careceu e tudo que tive de mais importante esteve perto de mim, que nem a família e amigos. A parte da verdade, nua e crua, não tenho tanto orgulho de dizer que muitas coisas necessitavam de correção, ajudei quem pedia e não necessariamente quem carecia e tudo de mais importante, que nem família e amigos, estiveram por perto enquanto queriam algo em troca”.

Foi aí que o irmão perdeu a tramontana: “mas, o que é isso?”. Por sorte, o testamentário interveio a meu favor e a irmã mais velha de Carlos fazendo vista grossa mandou prosseguir “Chegando, finalmente aos valores. Ces não mede o quanto valorizei  a vida que tive e fui feliz justamente porque nunca troquei meus valores e aquilo que acreditava por dinheiro nenhum. Por isso, tio Bernardo pode pegar o dinheiro que quis fazer comodo para vender meu voto na companhia e enfiar naquele lugar, seu velho bilontra”. A outra irmã, nervosa demais, falou “Tio Bernardo morreu ano passado. Então, deixe que essa ele fala pessoalmente”. Balancei a cabeça e continuei “Para a currutela de fofoqueiras e santas do pau oco, deixo um teto de madeira bastante maciça para aguentar tanto de rabo preso. Para minha irmã mais velha deixo meu lustra móveis, assim pode polir a cara de pau enquanto passa a perna na família com seu jeito sonso, mas perspicaz, eu confesso. Para meu irmão, deixo meus votos sinceros de mais competência já que todos sabem que será impossível formar em vagabundagem com maior louvor. E para a caçula, deixo um pedido insistente para que entre logo na reabilitação, e aproveite e leve a tia Elaine. Para o primo Julio, que todo ano troca a esposa por uma biscate, sugiro que dê mais atenção à filha enquanto ela ainda quer espiar sua cara. E não menos importante, deixo para o goiabeiro tio Miguel minha coleção de discos que o filho duma porca pelejou comprar por $9 quando eu tinha 12 anos.”.

Bom, nem careço de dizer que foi aquele bololo. Nessa hora, tomaram conta discursos indignados, pessoas choravam e outros ofendiam Carlos. Este, pelo que eu conheço, devia estar em seu plano astral lascando de rir mesmo. Na verdade, sabia que ele era da pa virada, a ovelha negra, mas em um evento tão importante para aquela família quanto o velório, foi golpe baixo mexer com isso. Entretanto, infelizmente, ainda faltava um parágrafo. Por sorte, enquanto todos discutiam, passei o olho naquelas palavras, e aí, fiquei surpreso, pois havia um parágrafo inteiro dedicado a algo que não existia, dava para ver que havia sido escrito depois, talvez com outra idade. Portanto, resolvi erguer minha voz e falar o que finalmente parecia ter vindo do coração de Carlos. Palavras de amor. Todos deram comporta para ouvir, uns por curiosidade, outros porque talvez houvesse ali informações valiosas. “Para minha esposa, peço que tenha calma e fé. Definitivamente, você foi a pessoa mais importante que surgiu em minha vida, e só posso ter essa certeza, pois você foi a única que escolhi como minha. A única que me fez cometer a loucura de ser só seu.”

Nesse momento, todos entreolharam, abismados. Muitos procuravam a tal esposa, mas outros, os mais próximos, entenderam. Carlos nunca achou que iria tão cedo. Quando fez o testamento obrigado, pensou que estaria mais velho em sua morte, teriam uma família, teria construído uma vida. Talvez ate tivesse encontrado alguém, a responsável pelas palavras, mas nada teve tempo de ser feito. Aquilo não era um testamento sobre o que foi sua vida, mas sobre o que ele esperava que fosse. Seus desejos, seus sonhos. Então, de repente, os olhares de raiva e repreensão foram transformando em de tristeza e pena. Por essa Carlos esperava não, isso ele não queria jeito nenhum, mas, segundo as regras e a seus próprios pedidos, tive que prosseguir, eu dei palavra de rei “A minha esposa deixo tudo, pois tudo já é dela. A meus filhos…”, nesse instante, a irmã mais nova teve que sair troada da sala. Estava chorando compulsivamente. “A meus filhos, mais do que meus bens, quero deixar algumas lições. Contudo, mais do que lições quero deixar um abraço apertado de quem amou vocês por demais, mais do que tudo. Por favor, nunca duvidem disso! Se duvidarem do meu amor, saberei que não fui um bom pai. Então, tenham piedade d’eu! Sejam o melhor que puderem, mas não melhores em tudo, pois ganância e egoísmo não é algo que quero em vocês. Sejam felizes e verdadeiros, nunca subestimem as pessoas, elas podem e, se tiverem sorte, irão surpreender. Enfim nunca deixem os outros dizerem o que vocês devem ser, como eu acho que acabei de fazer. Já tenho saudades! Nos encontraremos em um momento feliz. A todos só queria dizer que, apesar de tudo, sempre amei vocês. Só que em alguns momentos mais e outros menos. Mas, sempre amei vocês.Este foi meu testamento, gostem ou não. Carlos Renonciere, 25 de agosto de 2004.”

Todos estavam, finalmente, em um silêncio verdadeiramente fúnebre.

Os irmãos, que eram os mais bravos, entenderam que naquele momento eles podiam amar menos Carlos, mas, era mentira dizer que, apesar de tudo, não amavam ele, a sua maneira. Esse clima de amor delicadamente tomava conta. Até, pelo menos, alguém mais rancoroso lembrar de que havia sido insultado e daí começaram a levantar. Nenhuma lição levada, Carlos choveu no molhado, coitado. Alguns foram embora imediatamente, outros ficaram para raspar as sobras da festa, porem eu, ainda observava tudo, pelejando entender o que se havia acontecido. O que eu estava sentindo? O que eles estavam sentindo? Porque parecia que meus sentimentos e os de todo o resto eram tão diferentes? Ah! Tudo bom, eu fui o único que não foi ofendido. Deve ser isso.

No final, notei uma fila para pegar uma espécie de lembrança, eram saquinhos, com terra. Não, era terra não, eram cinzas. Cinzas do falecido! Aí, descobri que os 75 mil não eram do caixão, e sim da réplica do corpo de Carlos no caixão. A idéia é que todos os mais próximos tenham essas cinzas e deixem elas ou despejem em um lugar particular onde lembrem do morto, que nem uma homenagem. Depois do testamento, eu digo que muitos utilizaram a privada como “lugar especial” para depósito de cinzas.

Naquele dia, entretanto, eu estendi a viagem mais um tiquinho e, no caminho, eu e Carlos tivemos uma longa prosa sobre a brincadeira bistontada que ele havia pregado em mim e em todos os outros que nem um adolescente da bola virada, e sobre o quanto era triste ele ter deixado para depois até mesmo falar o que ele queria para sua família, quando seria muito mais corajoso ser dito por ele mesmo. Mas, principalmente, disse que sentia demais por tanto de coisas não terem realizado na vida dele. Pois o tempo havia sido suficiente não, nem mesmo para ele crescer e espiar a vida com mais harmonia ou a morte com mais importância. Infelizmente, ali havia muita gente para quem ele podia entregar suas mágoas e nenhuma para qual ele dava seu carinho, tão bem descrito e terno, vivendo nele e esperando donos. Aí, despejei suas cinzas na lagoa, onde na juventude nós íamos pular, nadar e desfrutar duma vida tão despreocupada porque, quando você é jovem, tudo parece tão possível. Eu deixei ele naquelas águas, naquela época, em que nossos sonhos e felicidades viviam juntos para que, talvez, eles renasçam em outras margens, e em águas mais pacíficas.

Ed. 28 - Palhaço do nariz azul ( por …….. Noel)

By admin On dezembro 13th, 2009 in Conto, Noel /

Aqui na minha cidade é costume amplamente conhecido assistir apresentações ao ar livre e você a de saber que eu tenho sempre coisa boa a dizer sobre os artistas locais e os visitantes que chegam aqui. Geram lembranças por demais esses momentos em família, quando trazem as crianças naquela laquera para correr livremente pelo parque central, porque sempre que vou lá lembro de quando o Circo Imperial parava por essas bandas, é até uma história engraçada.

Outrora, quando eu era pequeno, quem ajudou a cuidar de mim foi minha tia Carmem. Tinha acabado de perder minha mãe, e ela, vendo que eu estava amuado, resolveu me levar ao circo. Na realidade, eu fui mais porque não queria que ela sentisse que não havia o que fazer do que pela vontade de me divertir propriamente dita. Mas quando cheguei lá e vi aquela tenda vermelha gigante e trêmula, todos os balões e cores e ainda risadas, muitas risadas de crianças que nem eu, confesso que me permiti encher o peito de um calor amistoso que poderia ser chamado de felicidade, a qual durou alguns minutos e rendeu um sorriso, para a alegria da minha tia.

Batuta como quando a gente é pequeno tudo parece muito maior, né não? Isso aplica igualmente à cadeira da cozinha, à sala de aula, ao seu pai, e naquele dia, à tenda do Circo Imperial. Entretanto, não acredito que tivesse a altura de uma montanha não, mas para mim era isso que parecia e o picadeiro repleto de luzes e objetos que seriam usados aguçava minha curiosidade por demais. Incessantemente perguntava minha tia o que aconteceria a seguir, que nem um mini-papagaio eufórico. É que tudo aquilo fascinou: as brincadeiras, as gargalhadas, a contagiante sensação de que tudo era possível e trouxeram um conforto sem igual. Sem noção de bom!

Contudo, não vou dizer que me fez esquecer minha mãe, mesmo porque ainda hoje, depois do tanto de tempo, todos os dias eu lembro dela pelo menos alguns segundos quando acordo ou vou dormir. Muito pelo contrário, pensei fortemente nela o tempo todo e no tanto que era possível, mesmo sem ela, viver e ser feliz e transmitir felicidade. Logo, foi isso que o circo me ensinou e por isso eu decidi que queria fazer o mesmo pelas outras pessoas: passar a felicidade àqueles que não tem muitos motivos para rir.

Embora, tenha sido uma apresentação em especial que predominantemente me fez matutar essa conclusão sobre meu futuro, ou melhor, um pequeno incidente proporcionou uma mudança em meu futuro e no futuro de Geraldo, e no de Adailson também.

Bem, lá estava eu por demais de curioso para saber sobre as próximas atrações e decidido a entrar para o mundo do circo. Então, verdadeiramente encasquetado em desvendar toda aquela magia, aproximei dos bastidores e, como tinha uma estatura mirrada, passei com brecha pelas grades. Nesse momento, vi lá dentro uma grande correria e várias pessoas se pintando. O homem bala passou por mim com a roupa chamuscada, mas não me viu e a assistente do mágico procurava desesperadamente por um coelho, o que na época achei maior bestagem, já que era óbvio que ele estava na cartola, e se não estivesse, não é para isso que o mágico serve? Enfim, eu cheguei a um camarim com várias máscaras e em cima da mesinha, um nariz de palhaço! Resisti não! Daí sorrateiramente, coloquei o nariz e quando preparava para colocar o cabelo, o Geraldo, vulgo Palhaço Gegé, entrou, bravo mesmo, nunca vi um palhaço tão bravo, e enquanto ele gritava comigo e com os homens segurança e eu tentava rapidamente tirar os acessórios que tinha colocado, trupiquei e o nariz caiu em uma tinta azul usada para pintar o cenário. Nessa hora, foi um grande bobolo, porque não tinha nariz reserva e o palhaço “estrela” caçador de confusão, que já estava muito mais do que bravo, recusou entrar no picadeiro. Logo o palhaço! Ainda mais agora!

Eu fui expulso dos bastidores antes de saber o que tinha sido resolvido e sentindo culpado mesmo. Contudo quando voltei troado ao lado da minha tia, fiquei bem quietinho. Todos aguardavam ansiosos e eu, aflito demais. O que seria daquelas pessoas se descobrissem que estavam em um circo sem palhaço? Foi quando para o meu alívio, as luzes acenderam suavemente ao centro. Eles acharam uma solução! O palhaço resolveu entrar! Todavia, espiei que não era o palhaço que eu conhecia, pois era mais alto. Aí, neste momento, eu e todos mais conhecemos Adailson, o palhaço substituto. Adentrava bravamente ao picadeiro um palhaço, mas um palhaço de nariz azul. Todos ficaram em silêncio, caídos das nuvens. “Que estranho!”, uma dona ao meu lado falou, e era isso que todos pensavam nesse instante. “Qual o sentido disso?”, e eu me perguntei, “E qual o sentido daquilo que é diferente? A não ser que… ele é.”.

Mas as outras pessoas não compartilharam de minha paciência e culpa. Nem quiseram entender sua condição ou espiar o tanto de coragem que era dar sua cara a tapa apenas para fazer o show continuar. Num rabo de foguete! Todas as crianças irritantemente choraram, porque falaram que ele não era um palhaço de verdade não. Ninguém aceitava ele por ser diferente. Entretanto, era realmente a bola azul na ponta do nariz que fazia dele menos gaiato? Na realidade, não, e à medida que começou a apresentação, todos viram seu talento. Os mais receosos em mudanças demoraram um tiquinho, mas logo começaram a rir e aplaudir incessantemente. Ao fim do número todos estavam de pé. Não só era talentoso, mas era surpreendente, era mesmo, uma surpresa tanto de boa! Então, ele teve a certeza de que não seria esquecido. Ele queria ser diferente, pois ele queria ser lembrado ou, ao menos, reconhecido e teve essa chance. Achei astuto demais da parte dele. Daí, como havia ajudado ele em sua carreira, após o show o moço perguntou curiosamente porque estava no camarim do palhaço e contei pra ele minhas pretensões artísticas. Aí, ele me deu comporta para dizer se eu queria ser assistente e aprendiz. Esse é o Adailson, sempre justo mesmo, mas respondi que não daria conta de acompanhar, afinal era um momento que minha família carecia de mim. Muitas responsabilidades.

A partir desse dia, sua fama foi crescendo rapidamente de região em região,

até parar na televisão. Ele virou uma febre! O povo ficava doido com ele! Ah! Se você tem seus 30 anos deve lembrar do palhaço do nariz azul e ainda mais que vários pelejaram conquistar sua fama, que nem o “palhaço verde” e o “palhaço turquesa”. Mas, ele era imbatível! Por sorte, sempre que eu quisesse tinha acesso exclusivo no programa dele, e foi dali que posteriormente recebi grandes contatos e conheci mentores de minha carreira tão precoce. O palhaço azul foi como um mestre para mim. Foi ele que um dia me disse sabiamente: “Antes de desejar algo, de conquistar algo, conheça a você mesmo. Procure a verdade do seu sonho” e eu senti que esse era um conselho mais para ele do que para mim.

Alguns anos depois, ele afastou e a posição que ele ocupou foi ocupada por outros.

Não sei porque decidiu quiabar, mas ele nunca pareceu realizado suficiente, mesmo com todo o sucesso, e sentia falta de viajar com seu circo. Ele se destacava, com seu nariz azul e seu carisma inconfundível, era reconhecido por onde passava e era constantemente lembrado, mas a sua alegria estava cada vez mais nos palcos e menos em sua vida. Queria buscar outras felicidades, dessa vez para si mesmo, algo que havia esquecido pelo hábito da profissão. Hoje, ele nem é lembrado pela maioria. Porem, acredito piamente que não é porque não foi lembrado que também tenha sido esquecido, entende? As crianças crescem e querem uns trem novo, mas as lições que aprendemos na infância nunca são apagadas. Ele fez a alegria de muita gente e ajudou educar uma geração, cê num mede o tanto.

Mesmo que tenha afastado dos holofotes, certamente “um palhaço arreda do picadeiro, mas o picadeiro nunca arreda do palhaço”, que nem o próprio dizia, e fama não é sinônimo de felicidade, pelo menos, não com a liberdade que meu amigo tanto desejava. Mas, de agora queria mandar meu abraço para todos os circenses do Brasil e, em especial, para esse amigo bom de serviço que completa hoje 23 anos de profissão.

Alguém que esconde suas tristezas para gerar alegrias deve ser sempre lembrado.

Ed. 26 - Pessoas diferentes (por Noel)

By admin On outubro 9th, 2009 in Conto, Noel /

Eu estava proseando com o meu amigo Wagner noutro dia exatamente sobre esse tema que perguntaram hoje, diversidade, que parece ser algo um tanto mais simples do que realmente é, eu garanto pra você. Pois, pelo meu ponto de vista, nada causa maior contrariedade do que a diversidade de opiniões. Acredito que a confusão se apresente porque diversidade indica as diferentes pessoas, mas não fala neca sobre as pessoas diferentes. Existem várias maneiras de se dizer o mesmo trem e várias maneiras de reagir a algo, porque não existe a melhor maneira… Vai do gosto do individuo.

Ta certo, to sendo vago, então, vou dar dois exemplos, duas faces da mesma moeda, que, por um descuido do destino, se encontraram em um mesmo tempo e espaço habitável, um tanto de “universo paralelo”, e demoraram um tempo para perceber que eram tão iguais em suas diferenças.

Eduardo cresceu a exatamente 10 km de distância de Janis e, óbvio, se encontraram em muitas circunstâncias onde nenhum deles deu comporta a tal presença. Pura questão de ignorância. Se ambos soubessem que anos mais tarde seriam inimigos e por isso tomariam tamanha importância na vida do outro, talvez as coisas fossem diferentes. Mas, não importa o que seriam e sim, o que foram.

Assim, no verão de 1987, Janis espia pela primeira vez Eduardo e enxerga ele.

Eduardo era mais velho, porem Janis era mais alta e como eram opostos em praticamente tudo o que se poderia descrever fisicamente vou parar as descrições por aqui. Bem, contudo Janis não era apenas maior que Eduardo, ela era mais alta do que todos os garotos e por isso, havia adotado uma postura diferenciada, e se não fosse por várias vezes revelada sua timidez, era facilmente confundida com arrogância. Janis gostava de pensar que era o poder que todos viam e enchia de uma marra dificilmente vista em garotinhas de 9 anos. Como diria sabiamente o meu avô: “O mais alto do lugar sempre está fadado a comandar algo, pois não passa desapercebido”. Porém, Edu que era mais velho e, portanto, mais sábio, era aquele que não se deixava intimidar, e Janis pôde ver, de uma vista privilegiada, que ele seria uma pedra em seu sapato.

Ela gosta de amarelo, vôlei, competições e rock. Ele gosta de azul, basquete, amigos e folk.

Em todas as brincadeiras faziam grupos rivais, logo era um tanto comum, em brincadeiras como queimada, restarem apenas os dois no final, em uma batalha incessante. Ganhar era importante por demais, para ela reduzia as inseguranças e para ele era certeza de ser ouvido. Quando os pais se separaram, ela virou rebelde e ele, depressivo. Todavia, os dois clamavam por atenção, cada qual a sua maneira.

Então, por todas essas diferenças, depois de um tempo, eles afastaram. Com a idade essas picuinhas eram reservadas apenas a pessoas importantes. Eles não eram mais obrigados a brincar juntos ou a fazer par em festa junina, nem ao menos freqüentar as mesmas festinhas de aniversário, pois cada um tinha encontrado seu lugar em grupos de amigos diferentes e esse espaço foi respeitado não havendo mais atritos. Parecia que finalmente os dois entendiam o conceito de “respeitar as diferenças”, o que revelaria uma grande mentira nos próximos anos. Afinal, eram tanto as diferenças quanto as similaridades que os levariam a compartilhar a mesma história novamente.

Foi quando eu os conheci e tornei amigo dos dois, separadamente. Não sabendo que já se conheciam, quando meu amigo Eduardo disse que havia terminado um namoro de 5 anos e sentia só, e minha amiga Janis reclamou que estava cansada de relacionamentos vazios e pronta para um negocio mais sério, achei que os dois haviam de se arranjar. Nenhum dos deles, porém, pareceu afim de um encontro às escuras. Em primeiro momento, recusaram. Depois de alguns dias, e algumas crises de solidão, os dois voltaram a me procurar com umas ladainhas que, obviamente, pretendiam desembocar em minha antiga proposta indecente. Sem querer ser causador de constrangimento, logo voltei ao assunto, e daí marquei o encontro.

À medida que o tempo passava, a curiosidade que tomava conta dos dois adotava tons de ansiedade, entretanto mantinha a sobriedade de dois espíritos velados em grande desconfiança e tanto um quanto outro decidiram esperar para ver. Às exatas 20:30, no restaurante marcado, Janis espreitava a mesa meticulosamente reservada para o encontro por trás de algumas folhagens que enfeitavam a entrada. A alguns metros dali, Eduardo fazia a mesmíssima coisa, pelo mesmo motivo, mas pela perspectiva da lateral do restaurante, revestida por uma vidraça. Os dois esperavam pela aparição do parceiro, que nunca apareceu. Em um determinado momento, Janis que tinha escolhido uma posição mais próxima, porém desconfortável por demais, começou a se incomodar com o salto alto e com os mosquitos que vinham das folhagens e Eduardo, que escolheu uma situação mais agradável, porém com um ângulo de visão inferior, ficou rapidamente impaciente e entediado com a monotonia. Chegaram à conclusão de que levaram um “bolo” e foram para casa caído das nuvens.

No outro dia, me ligaram e eu demorei um tanto de tempo para entender o bololo. Eu estava enganado porque talvez essa não fosse a maneira ideal de se conhecerem. Então, no dia do meu aniversário, que era próximo, convidei os dois. Eduardo chegou primeiro. Em seguida, assim que Janis apareceu levei até ele. Quando deu conta de ver o rosto dele, ela empacou, logo olhei para ela surpreso e ela disse que o conhecia. Perguntei se ela tinha certeza e ela disse que o conhecia por foto. Janis é terapeuta e há pouco tempo sua amiga e paciente terminou um relacionamento de 5 anos com um Eduardo, e cê não mede o tanto que ele parecia com o Eduardo que avistava agora. Nesse momento, o próprio Edu nos viu no meio da pista e foi na nossa direção. Eu não sabia o que fazer, Edu vinha decidido conhecer ela e Janis estava mais arredia do que interessada.

Contudo resolvi apresentar, na esperança de que Edu não fosse quem Janis achava, porem, percebi que quanto mais ele chegava mais força a expressão dela ganhava. Edu puxou conversa sobre a festa e as pessoas, sem resposta. As primeiras palavras que Janis ofereceu a Edu foram: “Olha só, Eduardo, qual é o nome da sua ex-namorada, mesmo?”. Momento de tensão. Ele ficou desconcertado, e sem graça disse: “Renata. Por que?”. Janis deu uma esbravejada, virou as costas e arredou. Edu, perplexo com a atitude, foi atrás dela para saber o que significava aquele tanto. Janis foi enfática: “Eu já conheço você. Mais que bem! Eu sei o quanto você pode ser nocivo e egoísta, mas você não esperou nem um mês pra procurar outra…”. Eduardo, surpreso, não conseguiu alem do que gaguejar “Mas, de onde…” e ela, continuou subindo nas tamancas “Poxa, a menina ainda está na terapia e você na vadiagem de novo!”. Aí, ele exclamou: “Peraí, você é aquela terapeuta maluca!? Eu sabia que isso não havia de vir dela, ela nem sabe o que significa nocivo!” e a briga começou com a réplica de Janis: “Você pode tentar diminuir o quanto quiser, mas quer saber? Ainda bem que ela realmente me ouviu dessa vez”. Eles começaram a alterar a voz no meio da festa. Edu gritava: “Você acabou com meu relacionamento de cinco anos, sua doida!” enquanto ela: “Eu nem poderia estar falando disso com você, mas o senhor merece ouvir umas…”. Eles perdiam a tramontana e a imagem que vinha, inconscientemente, na cabeça dos dois era um jogo, incessante, de queimada. Até, um amigo mais preocupado aproximar dos dois e perguntar “Janis,ce tá boa?”. Estava tudo bom, pois estavam bem familiarizados com a situação e houve uma sensação estranha de deja vu.

Todavia, Eduardo, que na primeira vez que falei o nome “Janis” já ficara intrigado, só percebeu ali que aquele nome diferente não era de coincidência e quando ele falou alarmado “Janis?? Do Colégio Bragança?”, ela automaticamente associou a expressão do rosto de Edu à daquele garotinho metido a sabe tudo que importunava ela. Daí, foi um passo… para o abismo. O problema era que a única coisa que eles sabiam que tinham em comum, além de mim, era uma tremenda antipatia. Juntamente com a revelação, várias lembranças voltaram pra eles. Eles eram diferentes, defendiam lados opostos em todas as batalhas e, portanto, eram inimigos naturais. Eduardo, que havia tornado um grande advogado, saiu da festa prometendo processar Janis tanto por abrir o sigilo médico/ paciente, quanto por prejudicar seu relacionamento. Ela ameaçou alegar insanidade e pedir uma ordem de restrição a que ele riu, pois aparentemente, não existe ordem de restrição no Brasil e ela esta vendo filmes demais. Com tal índole, apenas poderiam ter se tornado justiceiros ou bandidos e foi exatamente o que aconteceu. Sendo que, quem era o bandido e quem era o justiceiro dessa história dependia de por qual ponto de vista você escolhesse olhar.

Que nem bons competidores, tinham curiosidade de saber quem é o adversário. O que ele tem? Que armas usa? Sendo eu o elo de ligação, começaram a competir pela minha atenção e informações. Foi quando, em fogo cruzado, me decretei Suíça e simplesmente respondia aquilo que era questionado. A munição que juntaram um sobre o outro era tanta que podia vencer algumas guerras. Aos poucos, essas implicâncias foram tomando conotações inflamatórias, assim que percebiam algo totalmente repulsivo sobre o inimigo. No dia que Eduardo, um conservador, descobriu que Janis era de esquerda, ele comentou com sarcasmo “Isso explica tudo!” e quando Janis soube que Eduardo mexia com uma das corporações que defende “grandes poluidores” que nem ela os chama, falou furiosa: “Isso não é apenas sobre nós! Ele é pior do que eu pensava”.

Agora suas picuinhas iam além de uma implicância pessoal. Depois de tanta procura, finalmente conseguiram desculpas legais e embasadas para atazanar com a vida do outro. Justificativas para estarem em lados opostos no pátio do colégio.

Conforme, chegou o dia do julgamento. Ah, sim! Eles acabaram indo a julgamento, porque incrivelmente não era figura de expressão quando falavam em processos por causa que Eduardo nunca brincava com o jurídico e Janis nunca deixava de cumprir uma ameaça. No tribunal, foram apresentadas evidências que colocavam carreiras em risco e morais à prova. Entretanto o juiz, levemente entediado, pelejava entrar em um acordo, enquanto refletia sobre como é que dois jovens bem arranjados não tinham mais o que fazer e que, no seu tempo, as coisas eram diferentes. Foi quando Janis, exigindo atenção do juiz, começou a se exaltar, resultando em um bate-boca com Eduardo, que logicamente não parava de caçar confusão. Com a grande desordem instaurada no tribunal, o juiz percebeu duas coisas: a primeira que há anos não presidia um caso de divórcio, o que o levou a segunda percepção; nenhum dos dois queria um acordo, estavam ali, portanto, com o único propósito de perder seu tempo. Avisou duas vezes para acalmarem, mas na terceira vez ele ficou nervoso com aquele rabo de foguete e mandou prender eles temporariamente por desordem e desacato.

Não poderia de haver situação pior para ambos. Dividir o mesmo cubículo com aquele que mais odeia é no mínimo desagradável. Lembraram, porém que nunca passaram mais de 5 minutos respirando o mesmo ar e que então, eram estranhos. O conhecimento que obtiveram sobre o outro, na realidade, era apenas o conhecimento prévio da interpretação de uma terceira pessoa e pensaram que, se eu não o/a conheço, ele/ela também não conhece a mim. Será que é por isso que me odeia? De repente todas as teorias e estratagemas foram pelo ralo. Que graça tem odiar uma pessoa que, na verdade, não me odeia?

Portanto, com medo do fim dessa relação duradoura, ambos forçaram uma conversa que resultaria em maior conhecimento sobre a mente do outro, na certeza de que, no final, dariam conta de encontrar aquela sensação de desdém que primeiro impulsionou eles. Não deu muito certo. Identificavam as opiniões opostas, entretanto havia uma essência verdadeiramente parecida. Não podiam negar, ou julgar, sua teimosia em comum, tanto quanto a desconfiança, competitividade, curiosidade e insegurança. Quando foram liberados possuíam uma impressão completamente diferente sobre o outro. Havia um tanto mais de respeito, compreensão. Não existia só uma verdade e por causa disso, não havia motivo de inimizades, nem tudo necessitava ser preto ou branco. Diferente era levemente melhor do que indiferente. Como vêem, essa não é uma história de amor. É principalmente uma história de ódio que culminou em aceitação.

Embora, estaria mentindo se dissesse que idéias conceitualmente românticas não passariam em suas cabeças. Se fosse dada a dica de como fugir da tal prisão através de sentimentos mais nobres, Edu em sua gana por vitória teria a idéia brilhante: “Vou casar com ela, só para fazer ela infeliz” e ela casaria com ele, pois quereria vingança. Concluo isso porque, no amor e no ódio, só muda a intenção, pois a obsessão é a mesma. Mas, nesse caso, eles não tiveram tanta sorte não. Não importa o que eles pensariam, e sim o que aconteceu.

Eles entraram em um acordo, e apesar de não tornarem melhores amigos, Edu sempre liga para Janis quando carece de argumentos em seu trabalho, e Janis liga para Edu quando sente insegura sobre qualquer questão, juntando o melhor dos dois mundos e aceitando as diferenças.

Então, apesar daquele ditado, “os opostos se atraem”, essa história mostra que talvez o ditado devesse de ser “os opostos se colidem e eventualmente estagnam”.

Como duas faces de uma mesma moeda, eles nunca haviam de se ver totalmente. Qualquer entendimento maior do que aquele estava fadado ao fracasso. Para eles, entender isso foi entender tudo. Que nem eu disse: Duas coisas iguais que são diferentes. Igual, na verdade, tudo na vida. Não é mesmo?

Ed. 25 - Campeão mundial de Peteca …….. (por Noel)

By admin On outubro 2nd, 2009 in Conto, Noel /

Eu gosto por demais de viajar, é mesmo. Mas, eu sou daqueles que gosta de viajar sem rumo definido. Não há melhor maneira de conhecer um lugar do que desvendar, sem uma pesquisa prévia que inclui sempre a percepção de outras pessoas sobre o que é importante ser visto e admirado. Isso, logicamente, exige que você seja mais flexível sobre o que pode achar no caminho, talvez neca de colchões confortáveis, ou uma cama, ou nem um teto sequer. Todavia, como sou um colecionador de histórias e nunca tive o hábito de dormir tanto, não importo não. Nada me preocupa quando estou na estrada.

Foi nessa energia que, mais uma vez, pegava o ônibus de Jequitinhonha até BH para ver uns conhecidos, e quando o ônibus quebrou no meio da estrada nos deixando na boca de uma cidade chamada Canto dos Amaral, todos seguiram e eu lá fiquei. Queria saber qual era a butica. Sinceramente não sei do que tanto as pessoas reclamam. Estava ali uma oportunidade de conhecer algo que, se não fosse o ônibus quebrado (e massacrado por aquela população) provavelmente nem saberíamos da existência e, ao invés de olhar os belos jardins que comportavam a singela placa de “Boas vindas”, todos olhavam com desdém a carcaça traiçoeira do automotor.

Como diria (ou cantarolaria) sabiamente meu amigo Wagner: “Sorria, sorria, e se o céu não estiver azul, olhe para o chão. Lá a grama está sempre verde. Sorria novamente”.

Eu não necessariamente sorri, mas senti uma leve empolgação no momento que adentrei a cidade esperando conhecer ela e esperando que ela não importasse em me conhecer. BH poderia aguardar. Ela aguardaria de qualquer jeito, pois naquela altura, quando o motorista perguntou: “Você não vem?”, minha curiosidade e espírito de aventura responderam “Eu já cheguei”, e o próximo ônibus passaria só dali a três dias.

Pois andei até o centro da pracinha, onde havia um coreto, para ter uma visão maior da cidade. A visão foi panorâmica. Pois a cidade era de fácil visualização, descomplicada, calma e…vazia. Onde quer que eu olhasse espiava casas simpáticas e, apesar de simples, aparentemente harmoniosas que pareciam feitas de renda que nem uma casinha de boneca.

“Será que alguém mora ali?”, matutei. Não era possível alguém viver ali, era um lugar para ser admirado, sô.

Enquanto refletia sobre isso, vi uma criança passando com uma pipa vermelha que brilhava no céu, e como o menino corria para pegar o impulso, e corria muito mais rápido que eu a uma distância maior, fui seguindo o rastro da pipa vermelha ofuscante.

Até que a pipa ficou presa a uns galhos de árvores, e tive a oportunidade de perguntar ao garotinho triste na calçada onde estavam todos. Ele apontou para uma casa rosa e grande no final da rua, já que não podia falar com estranhos. Descobri isso, porque ele contou.

Fui até a casa e, para a minha surpresa, toda a cidade estava lá. A fachada da casa era bonita e pomposa, porém mal comportava os tiquim de habitantes da cidade que espremiam no salão em um calor descomunal.

Neste momento, estava acontecendo uma reunião da cidade e, em pé em uma cadeira, o prefeito discursava sobre a importância dos próximos dias, que no decorrer do discurso descobri ser referente a um evento mundialmente conhecido: o Campeonato Mundial de Peteca. Naquele ano, o Brasil havia ganhado o privilégio de sediar tal campeonato, originalmente no Rio, todavia por questões de força maior, foram passadas as honras para Belo Horizonte e há algumas semanas a capital decidiu não arcar com esse evento tão importante, oferecendo a oportunidade à cidade que provasse de mais competência para fazer a recepção. Sabendo disso, e sendo grande conhecedor da arte da peteca, o prefeito rapidamente colocou o nome da cidade na lista e, incrivelmente, foi escolhida. Agora, organizavam para a recepção e se existia algo que os canto-amarences sabiam fazer, era receber. Todos, mesmo naquele calor e confusão, pelejavam idéias empolgantes sobre o que podia fazer para deixar os visitantes mais confortáveis: abrir espaços nas ruas para carros passarem, colocar uns breguetes enfeitados e talvez placas nos locais.

Eu observava tudo da porta do salão, e conforme a reunião foi encerrada e eles viraram para ir embora, todos pararam, ficando estáticos ao me ver ali. De repente, eu tinha uma cidade encarando. Eu não sabia o que fazer, e eles também não, já que planejavam uma recepção e eu peguei eles em flagrante. Sentiram que suas “máscaras” de perfeitos anfitriões desmantelaram com minha invasão. Como, naquela altura, eu não poderia mais fazer o papel de convidado maravilhado, minha única saída foi juntar a eles. Logo falei, “Nossa, quanta idéia boa demais! É disso que a cidade necessita, desse incentivo, dessa disposição! Ótima essa das placas…”. Então, eles sorriram e foi assim que me tornei um deles. Um cúmplice. Breve já estava ajudando a pintar as tais placas e definir pontos estratégicos, chamando todos por apelidos e hospedado na casa do Seu Euclides, cuja esposa era uma dona doceira da cidade.

Ah! Fiquei impressionado com a empolgação de todos. Não tratava apenas de trazer recursos à cidade, ou de colocar eles no mapa não. Eles acreditavam que estavam apoiando algo importante. Não importava a peteca não ser um esporte famoso e o evento ter pulado de mão em mão que nem uma peteca, ou melhor, batata quente, pois estariam ali reunidas pessoas que acreditavam em algo, que dedicaram suas vidas a isso e que, igual eles, possuíam a paixão por algo que não era reconhecido, que não tinha espaço ou chance. Os cidadãos estavam fazendo a justiça e a festa que eles nunca tiveram. A homenagem a todos eles, daquele povo bom de serviço que num parava por nada!

Logo pude perceber que as pessoas daquele lugar eram diferentes, pessoas que insistem em ver mágica no mundo. Nada é simples ou ordinário em suas vidas que um tanto de gente consideraria bem simples e bem ordinárias.

Entretanto, no outro dia, quando acordei, tinha ninguém de novo. Eu sou do campo, e acordo cedo, mas, eles davam conta de me superar. Não havia ninguém na casa, porém na praça havia uma comoção. O prefeito estava transtornado, caído das nuvens e sentado em seu banquinho, enquanto filho dele tomou as rédeas da conversa, tentando acalmar a todos. O que aconteceu foi que o representante brasileiro do campeonato, naquela manhã, estava pronto para pegar o ônibus para Canto dos Amaral quando um grave acidente aconteceu bem em sua frente. Um jipe e um ônibus chocaram violentamente, e o campeão nacional de peteca pensou “Ainda bem que não estou neste ônibus”, segundos antes de ser atingido pela roda do ônibus em alta velocidade e morrer na hora. Sendo assim, ele estava impossibilitado de comparecer, pois não perderia seu funeral por nadinha. O prefeito estava triste com a morte, contudo estava desesperado pois, pelo regulamento, só é permitido sediar um campeonato mundial o país que possuir um representante residente e naturalizado para o esporte. Ou seja, o Brasil estava fora.

Comovido com aquela imagem, onde uma população inteira sucumbia à perda e ao tédio, e suas lágrimas cobriam o que antes era o semblante da esperança de um povo adormecido, resolvi fazer o único trem que estava ao meu alcance de fazer. Trazer de volta a merecida chance pela qual todos batalharam e fazer acreditarem novamente. Passei por todos eles na praça, e chegando até o coreto, anunciei para a multidão triste e silenciosa: “Preocupa, não! Eu posso representar o Brasil”. Todos pararam para ouvir minha explicação, e ela era demais de simples. Não era exatamente com petecas que eu mexia, mas fui campeão estadual, e depois brasileiro, de ping-pong, que, por sorte, compartilha da mesma técnica angular e artes habilitarias da peteca. Considerado por muitos um esporte mais complexo, principalmente pelos chineses, este título nacional me alavancava, e apenas a mim, como possível e honrosa opção de substituição ao cargo. Mede o tanto de bom que foi? A cidade aplaudiu, o prefeito parou de chorar, só que ainda não estávamos salvos. O comitê do campeonato deveria aprovar minha entrada e este comitê, em especial, era conhecido como “meticuloso” e “sistemático”, o que lhe valia mais crédito e respeito do que o jogo em si. Após o anúncio da substituição, as pessoas começaram a chegar na cidade para a alegria geral. Nos reunimos em uma salinha: eu, o comitê e o prefeito. Passei mel na boca e lá foram apresentados todos os motivos pelos quais eu deveria ser aceitou, provas incontestáveis sobre minhas capacidades e minha posição sobre o movimento que insiste em tornar a peteca um esporte olímpico.

Quando finalmente convenceram da minha admiração e respeito, fizeram a seguinte solicitação: Todos ali tiveram de participar de 15 eliminatórias e eu deveria, portanto, jogar ainda aquela tarde com todos os 15 competidores de várias nacionalidades para que meu título valesse. Rabo de foguete! Aceitei, pois não sentia obrigação em ganhar nenhum jogo, sabendo que o grande propósito, o de tornar Canto dos Amaral sede do Campeonato, estava concluído. Porém, durante os jogos, uma pressão começou a aparecer. Não bastava ter conquistado a sede, todos queriam que eu ganhasse, todos gritavam o meu nome, e eu me sentia realmente encurralado. Fiquei envergonhado porque, até então, todos estavam sendo tratados com a maior das cordialidades. E agora esse bololo!

Apesar de exausto, insisti em todas as partidas, em resposta aquele povo que me recebeu, torcia por mim e do qual eu fazia parte. Decidi ser meu dever dar pra eles uma vitória. Dei conta de fechar o set, apertado, com o alemão Mikael Churraks, e confesso que balancei no 8º. e 11º. adversário. Vencer foi um momento de glória, e passamos o dia comemorando com todos e ensinando eles a sambar. Eu apenas observei, já que tinha encarado 15 partidas. Entretanto, foi apenas durante esse tempo de observação que pude perceber algo que antes minha falta de perspectiva e meus sentimentos por aquela gente não deixavam. Aquilo tudo era um grande teatro. Não existia nenhuma pessoa naquela cidade que se comportava que nem ela mesma, todas eram iguais e todas estavam desconfortáveis com as visitas. A recepção, a música, o samba não eram para mostrar quem são, era uma rede de segurança, um esteriótipo milimetricamente trabalhado para atender a todos sem se expor. No dia-a-dia, eles não seriam assim. Ninguém havia de ser, uai! Quem eram essas pessoas? Eu estava ali há dois dias, e não podia identificar nenhum individualmente, mesmo porque nunca estavam sozinhos. Eu era o herói da cidade, todavia o que eu defendi e que bandeira levantei? Logo eu, o campeão mundial de peteca!

No outro dia, pela manhã, a cidade já estava vazia novamente e eu que já estava acostumado com o horário da cidade, acordei mais cedo que o normal. Tive a oportunidade de ver algo estranho por demais. Seu Euclides e o resto da família arredaram do porão e o esconderam minuciosamente com um tapete felpudo. Descobri que a minha primeira impressão estava certa! Ninguém morava naquelas casas perfeitas e impecáveis, já que todos moravam em seus porões, onde podiam esconder suas imperfeições e humanidades do resto do mundo. Os porões eram sem noção, equipados e tinham mais cara de casa do que o “stand” montado para visitantes. Quando fui à rua, ainda abismado com o que presenciei, vi que, na realidade, aquele era o padrão da cidade. Estava tudo limpo e organizado, não parecia que havia passado aquele tanto de pessoas ou que ali houve uma história. Eles não tinham nada porque nada conservavam e eram esquecidos porque faziam questão de esquecer, apagando qualquer rastro do que eles são.

À medida que fui espiando algumas placas que ainda estavam suspensas harmonicamente, parecendo despropositais, mas não sendo, eu e eles pudemos ver a grande tentativa em ser aceito, em mudar tudo o que aquela cidade era e adequar a quem conhecesse ela, mesmo que fosse de passagem. As fachadas eram apenas fachadas, por assim dizer, e foi isso que fizemos todos aqueles dias. Que contradição! Se o ponto disso tudo era a simplicidade, o orgulho do que nós somos! Nada é ordinário, tudo tem sua importância! Como um povo que vê a importância e o prazer nas coisas simples poderia ter tanta preocupação com a imagem? A única justificativa que pude pensar no momento foi o medo que tinham em ser julgados, sendo tão difícil ser notado, pela aparência. As pessoas realmente têm a tendência a focar nas coisas ruins primeiro, sem perceber as boas, sem perceber todo o potencial e o que eles haviam de oferecer.

Infelizmente, eu não fiquei para descobrir se essa era a resposta. O ônibus estava chegando e apesar de ter um enorme carinho por aquelas pessoas fui embora triste, não por saudade, sim por pena. Só fiquei ali três dias, contudo já senti que vivi de lorota, um conto. Se eu fosse um visitante havia de ter adorado o faz-de-conta, mas, para mim, eu era um deles e eles tinham me deixado entrar. Estava enganado. Acho que não foi nada pessoal, apenas um instinto de defesa. Uma pena porque eu sou uma pessoa um tanto pessoal.

De qualquer forma, é um lindo lugar. Desde então esta cidade é parada obrigatória, pelo menos sempre que meu ônibus quebra.

Ed. 19 - Quando nada é tudo e é tudo …….. ou nada (por Noel)

By admin On agosto 21st, 2009 in Conto, Noel /

Acho que nunca cheguei a contar a vocês sobre a história de Almir e Darlene. O Almir era primo de segundo grau de minha mãe, então eu só o conheci lá pelos 16 anos, quando fui entregar algumas encomendas em São Paulo, onde ele mora, e pedi brigada no apartamento dele. Almir é um sujeito bacana, muito atencioso e hospitaleiro, e essa receptividade aumentou ainda mais quando ele, inadvertidamente, perguntou sobre minha mãe e eu, hesitantemente, falei que ela estava morta. Situação chata. Então, ele ofereceu biscoitos e disse que eu poderia ficar o tempo que quisesse, o que foi bom, já que eu tive alguma dificuldade de achar a mim mesmo em São Paulo, e depois, de achar outras pessoas. Mas, Almir não podia acompanhar meus compromissos não, pois trabalhava por demais. Em um momento, fiquei intrigado sobre sua profissão. Como ele é um ótimo ouvinte, passávamos um bocado de tempo falando de mim e de minhas histórias, mas quase que nada sobre ele, e minha curiosidade começou a apertar já que ele estava sempre atento ao telefone e sempre atendendo emergências. Seria ele um médico, um bombeiro ou um super-herói?

Entretanto, ele não era nenhum dos citados. Na realidade, Almir explicou para mim que ele exercia uma profissão meio peculiar: ele era amigo de aluguel. O que ele disse foi que, em cidades grandes as pessoas ficam mais solitárias, o que eu achei estranho, porque havia visto um tanto de gente, mais gente do que havia visto minha vida inteira, daí ele disse: “É exatamente isso. Quem tem todos, não tem ninguém. São tantos que é difícil se lembrar de alguém. E as pessoas não têm mais tempo para conhecer realmente pessoas, ficar e esperar para ver se pode confiar. Em mim elas confiam, pois o que quero em troca já foi combinado”. Achei extremo de sua parte, mas como é de minha família e eu estava de favor em sua casa, não quis contestar. Ele continuou contando sobre seus procedimentos e clientes, tudo extra-oficialmente, só para mostrar que era bom de serviço: “Funciona assim”, ele explicava de meio cabreiro, confidenciando algo que não costuma falar em voz alta, e de maneira sistemática para não dar margem a interpretações erradas sobre seu profissionalismo, “…as pessoas me encontram normalmente por pesquisas e sites de busca. Nunca por indicação. Eles não gostam de dividir amigos”. Enquanto ia falando, eu ia percebendo nele um senso de dever e, talvez, de prazer nesse trabalho e fiquei curioso de saber a fonte disso: “Você tem clientes fixos?”, aí ele ficou calado por alguns segundos, e depois respondeu: “Sim, não posso revelá-los para você”, eu continuei: “E você cobra deles?”, e nessa ele justificou:“Mas, claro. Se não cobrasse seria injusto, não seria um acordo.”.

Percebendo que o que tinha falado não fazia sentido quando contado a alguém “fora do clubinho”, ele completou: “Eu não posso me envolver. É um trabalho… É muito difícil, mas não posso me envolver”. Para mim, estava claro que Almir já estava envolvido. É incrível como esses trem são um tanto mais fáceis de ver para quem observa de longe. Todavia, faltava saber quem tirava seu descanso e sua ética? Seria o AmigoRua23 ou GularPaulista147? Enquanto eu encasquetava nesse assunto, Almir se arrumava rapidamente para o próximo encontro, e concluía, agora em uma voz mais alta: “Não é nada demais. Como agora, estou indo a um show com um amigo. Ele acabou de se divorciar e com certeza vamos tomar uma cerveja e ele vai desabafar sobre a ex-mulher. Por que comigo? Porque eu sou como um terapeuta e é antiético se eu contar seus segredos ou se eu rir de suas fraquezas”.Deixando essa explicação no ar, ele deixou também uma parte de insatisfação em mim, que naquele momento estava profundamente desconfiado sobre o que ele NÃO queria contar.

Por sorte ou por acaso, talvez por ser uma pessoa extremamente curiosa, ou por não ter muito mais o que fazer já que tinha receio de andar na cidade sozinho, comecei a perceber padrões, que nem, sempre que ia sair com o amigo divorciado ele colocava umas roupas aprumadas e levava os óculos; e tinha um amigo que era punk e Almir sai de casa…nervoso. No meio tempo houve eventos grupais, que nem o aniversário de um cliente, donde ele teve de chamar outros amigos de aluguel para completar o serviço. Lia diariamente um tanto de coisa sobre tudo que dizia respeito a seus amigos e suas profissões, assim tinham sempre assunto, e, antes de sair de casa, lia também a ficha de cada um e decorava nomes e datas. Um estudioso do perfil humano.

Todavia, desses amigos, um era exceção. Quando esse cliente ligava, Almir ficava visivelmente atordoado, e depois, confortável, daí ia trocar a roupa imediatamente, ficava nervoso de novo, e assim por diante. Para esse cliente, Almir sabia tudo de cabeça, mas não tinha a capacidade de perceber que estava usando perfume por demais ou que tinha espiado no espelho 37 vezes em 2 minutos. Foi quando eu perguntei se havia de ser um encontro e ele disse, sem graça, que não… apenas um amigo,  e sem jeito de sutileza, perguntou se sua roupa estava bacana, a que eu respondi que sim, pois esse seria o pior momento para ser sincero, e perguntei também (êita curiosidade!), se a amiga havia de ser bonita. Almir ficou vermelho que nem pimentão, e eu até temi pela sua saúde, mas logo ele retomou a compostura e disse que não podia mais comentar sobre esses assuntos comigo e ainda, que é contra sua ética aceitar clientes mulheres. Aí, eu fiquei meio encasquetado. Almir foi embora, mas eu fiquei ali, matutando. Não sabia que ele era gay, mas, se fosse, que diferença faria ele ter clientes mulheres ou não, afinal, ele estava cheio de intenções com o cliente ético e homem, de qualquer forma. Não entendi. Esperei até ele voltar.

Almir voltou, mais perturbado do que nunca. Achei que era minha chance de aproveitar a perturbação, e conseqüentemente o desequilíbrio psicológico presente no momento, para um interrogatório. Comecei com a menos ardida: “O que aconteceu?”, e ele veio com a clássica “Nada”, e como “nada” significa “algo importante que não posso contar”, pelejei o “pode confiar em mim”, e depois “Você quer me contar”, e “Eu só posso ajudar se você contar o que aconteceu”. Nessa hora, Almir ficou nervoso demais da conta e quando o telefone tocou, ele jogou o aparelho longe. Finalmente, apoiou na mesa e sentou no banquinho, então deu um suspiro aflito, e daí eu aproximei dele, porque aquela era a hora da verdade. “Ela é tudo para mim”, ele soltou, e eu vangloriei em pensamento: “Sabia que não era “nada”, era tudo mesmo”, e ele continuou: “Isso é tudo muito errado. Não sei mais o que fazer, estou de mãos atadas”. Ah, daí começou a ficar mais interessante, porque a história era a seguinte: O “tudo”, que ele insistia em fazer referência, era apenas Darlene. Sim, finalmente chegamos a história de Almir E Darlene.

Na hora, deduzi que poderiam ser duas situações: na primeira, a irmã de Darlene teria contratado os serviços de meu primo, pois achava Darlene tímida e solitária demais, mas, esta desconhecia a profissão de Almir e achava que seu novo amigo era, apenas, um novo amigo. Almir não esperava apaixonar com ela, o que nesse caso seria terrível por dois motivos: ela era uma cliente; e ela não sabia que sua irmã, por caridade, pagava por sua amizade. Desta forma, infelizmente, não só Almir poderia perder sua licença pela atitude antiética de “apaixonar”, como perderia a confiança de Darlene; ou, na segunda hipótese, seu cliente era, sim, um homem, irmão de Darlene, e os irmãos morariam juntos e foi assim que Almir conheceu a moça. Freqüentador da casa e melhor amigo de seu irmão, os dois haviam de ter tempo de sobra para apaixonar com o outro, porém o irmão de Darlene descobriria a paixão deles e movido pela ganância e ciúme (já que os clientes não gostam de dividir), começaria a chantagear Almir. Assim, ele não só é obrigado a ser amigo de seu maior inimigo de graça, como é constantemente ameaçado a ter sua verdadeira profissão exposta a mulher que ama, e que nunca entenderia seu ganha-pão.

Por isso, ninguém mede o tanto de surpresa em que eu fiquei quando Almir contou para mim a história mais simples possível. Darlene contratou o rapaz e ele se apaixonou com ela. Só isso só. Os motivos de Darlene para solicitar companhia eram diferentes dos de todos os outros, visto que ela não queria alguém para compartilhar tristezas ou para acompanhar no que ela quisesse, apesar de que, na realidade, tinha acabado de perder o noivo em um acidente de carro e estava sozinha na cidade. Mas, acima de tudo, Darlene não dava conta de suportar o silêncio, fruto de um noivado de 9 anos com um musicista e, por isso, ela queria falar, mas queria mesmo era ouvir.

Almir não esperava por isso, e mesmo sabendo que era errado aceitar ela como cliente e que poderia ter sua licença caçada, quis bastante ajudar a moça. Mas, muito mesmo. Quando menos esperou, estava falando sobre sua vida inteira para ela e, mais do que ele ajudava a amiga, era ela quem socorria o rapaz quando ele carecia de desabafo. Só que, coitado, como ele havia de saber que descuidando de sua segurança, ele encontraria sua felicidade? Que deixando passar essa pequena regra, ele estaria pondo tudo em risco?

Logo, ele não quis mais cobrar dela, porque sentia que eram realmente amigos, e que ela fazia tanto bem para ele que não era justo, e, então, o grande dilema começou: “O que ela vai pensar se eu sugerir que não pague mais? Ela vai se sentir traída? Incomodada? Vai pensar que estou fazendo isso com segundas intenções e não se sentirá mais segura comigo? Não! Não quero perder a Darlene, nem quero ser trocado por outro amigo…”.

No final das contas, era só isso, nenhuma catástrofe, chantagem, nem mentira, separava aqueles dois, na realidade, era algo por demais simples e bem mais comum, que acontece com a maioria de nós. De primeiro, ele estava em um lugar seguro, e agora, estava com medo. Somos todos um bando de mané-besta quando amamos, porque não sabemos, na maioria das vezes, se o que desejamos é verdadeiro. O medo de que tudo fosse real, ou pior, que fosse obra de sua imaginação e mais profundos desejos, o medo de encarar a realidade dos fatos, deixavam o moço angustiado e começava, então, o festival de inseguranças que todos os apaixonados têm, e que podem se resumir em uma pergunta: “Será que ela me ama também?”. Essa era a questão, e por causa disso, naquela noite, Almir perdeu a tramontana, jogou o telefone longe, e em seguida teve uma depressão profunda. Pobre do rapaz.

Ele estava com Darlene, sua amiga secreta, há algumas horas atrás, indo a um concerto, onde chegaram atrasados, pois ele errou o caminho duas vezes. Darlene perguntou se ele estava bom, Almir disse que sim, mas não quis pensar sobre o assunto. Sabe que, toda vez que saia com ela o rapaz tinha que se concentrar, porque qualquer coisa poderia tirar sua atenção ou revelar sua intenção: os cabelos caídos no ombro, a risada graciosa dela, o olhar atento e penetrante, e talvez principalmente, aquela bendita pinta no pescoço, “é sem noção!”, descreveria Almir, em pensamento. Mas, naquele dia, ele estava desconcentrado, e ele não sabia se era porque estava cansado de viver angustiado, ou visto que as perguntas que eu fiz antes dele sair pediam uma resposta, ou até, porque pela primeira vez ele percebeu que não tinha mais como negar que estava apaixonado, por mais que ele tentasse. O que passava pela cabeça dele, no segundo retorno de carro, era algo bastante perigoso de se pensar quando se está prestes a tomar uma decisão extrema: “É agora ou nunca”.

Mas, entrando no salão não viu muitas oportunidades de falar qualquer coisa. Estava nervoso, suando frio, por isso, vez ou outra, Darlene perguntou se ele estava passando mal, mas o primo já não estava dando conta de discernir palavras ou senso de humor, ou momentos propícios para declarações. Então, Darlene chamou Almir para ir embora e ele ficou desesperado em ver sua chance indo pelo ralo. Foi quando ela resolveu parar primeiro no banheiro, e ele aproveitou para acompanhar a moça, sim, na fila do banheiro, daí quando ela disse algo do estilo: “Faz tanto tempo que eu queria te dizer… eu me divirto muito com você”, ele entendeu como um encorajamento, um sinal óbvio de que aquela fila de banheiro, cercada de outras mulheres desconhecidas, era o melhor lugar para falar a única frase decente que vinha a sua cabeça (fruto de uma pergunta que eu havia feito algumas horas atrás, e que chegava com atraso): “Você é linda”, e entrou na frente dela completando: “Digo, você está bonita. Quer dizer, você é e está linda”. Darlene que olhava diretamente nos olhos dele, em uma força sobre-humana para não se deixar abalar, ou demonstrar qualquer tipo de nervosismo e insegurança, começou a gargalhar e saiu da fila.

Voltaram para casa sem trocar palavras e agora Almir chegava se achando um derrotado. Para ele era claro, ela não só não estava gostando dele, como também achava ele ridículo, e não havia mais o que fazer.

Nessa hora, tive que intervir: “Peraí, você disse que amava ela?”, ele falou confuso: “Não com essas palavras”,  perguntei: “Com quais palavras, então?”, e ele retrucou: “Uma pessoa sabe quando é amada, ela tem que saber. Ela riu, porque é absurdo o que sinto. E ela tem razão”. Lógico, concordei para não ser “do contra”, afinal não tem como argumentar em uma prosa esbaforida. 

Era mais fácil fingir que o sentimento não existia do que arriscar ser magoado. Assim como era mais fácil acreditar logo no fim, do que nutrir esperanças incertas e que quando destruídas causam tanta dor. Almir não queria mais criar esperanças em relação a Darlene, porque cada vez que ele percebia algo especial e era imediatamente provado que “não era nada especial”, ele sofria. Resolveu se afastar, arredar pé do posto de melhor amigo, ignorar e sair com outros clientes. Sua produtividade caiu por demais, afinal ninguém havia de quer contratar um amigo deprimido.

Aí, um dia, Darlene bateu à porta. Eu atendi e, finalmente, conheci a célebre formosura. Só que, ela não tinha nada de moça arrebatadora, não, pelo contrário, ela é bastante tímida e simpática, usava um vestido de flores que casava com a personalidade delicada dela, porém, suas expressões eram um tanto vivas e parecia nervosa. Isso porque ela estava lá para pegar suas coisas de volta. “Suas coisas” era uma caixa com seus papéis, documentos pessoais, contatos, etc, e estava lá também uma agenda, e quando Darlene viu a tal agenda começou a debulhar em lágrimas. Eu não sabia o que eu havia de fazer. Ela pediu desculpas, mas o choro não parou: “Desculpe, mas estou tão confusa. Não entendo o que aconteceu”, e eu, que também não estava entendendo neca, fiquei quieto. Ela falou nervosa: “Tem certeza que ele colocou essa agenda aqui? Era um presente”, a que eu respondi: “É…não sei. Então, ele deve de ter se enganado”, e ela ressentida murmurou: “Acho que não. Deixa pra lá, não é nada especial”.

Ah, tá! Naquela hora, entendi. A situação era essa:

Darlene riu, gargalhou, é mesmo. Mas, porque ela é acanhada e ela estava envergonhada. O lugar público onde Almir sugeriu, de maneira bem inarticulada, falar que ela é bonita, não era exatamente romântico, portanto, ela, apesar de ter gostado do que ouviu, não sabia como reagir e tentou levar na brincadeira o que poderia ser uma brincadeira, de repente.

Ela não sabia, pois também estava apaixonada, ou seja, estava cega, e, por isso, não dava conta de saber se ela estava sendo cantada ou se queria tanto ser cantada que achava estar sendo. De qualquer forma, teve medo de arriscar perguntar e ter seus sentimentos abastados e resolveu esperar algo mais da parte de Almir, mas isso não aconteceu. Ao contrário, ele enviou um e-mail falando que não poderia mais ser seu amigo e que havia de se afastar, a que Darlene concluiu que tinha entendido tudo errado, que ele odiava sair com ela a ponto de passar mal e que não existia paixão, amizade e nem consideração. Sem esperanças e com seus sentimentos estilhaçados, foi conformada naquela 19:32 de quarta-feira pegar tudo o que tinha restado entre eles, tentando entender o que havia acontecido. Porém, quando ela viu a agenda, que com tanto carinho e uma dedicatória personalizada ela deu a Almir para marcar seus momentos, jogada com aquelas coisas que eram agora passado, ela não pode resistir a dor de sua insignificância na vida daquele que ela acreditava ser tudo. Assim, ela contestava a si mesma no olhar de Almir: “Não é nada especial”.

Eu, que sabia de tudo, e que sabia que o “nada” era “tudo” e que agora era “tudo ou nada”, insisti que ela esperasse meu primo chegar em casa para conversarem, mas ela não queria não, de jeito nenhum, pois estava magoada. Vendo que não tinha jeito de convencer a mulher, sugeri que antes de sair, pelo menos lavasse o rosto para se acalmar, e aí, tranquei Darlene no banheiro.

Logo Almir havia de chegar e eu não aceitava o rumo dessa história. Ele chegou meio atrasado, é mesmo, mas ela ficou perfeitamente boa nos 31 minutos que esteve presa, e achei bom quando ela gritava, pois mostrava que ela possuía todas as faculdades mentais. Certamente. Expliquei a Almir o que estava acontecendo. Não posso dizer que ele ficou satisfeito, ficou relutante e bastante nervoso, então começou a gritar para saber se ela estava boa. Ela, assim que ouviu sua voz, percebeu que não tinha mais motivos para gritar, e respondeu timidamente: “Sim, estou bem”, e completamente deficiente de qualquer sanidade diante de Almir, perguntou: “E você?”, e ele, que estava eufórico, também parou. O coração ficou por demais acelerado, já que ele não esperava pela pergunta, daí chegou perto da porta e disse emocionado: “Bem. Estou bem.”.

Agora, existiam barreiras físicas que apartavam os dois, mas que, ao mesmo tempo, enxotavam qualquer barreira psicológica que os pudesse exigir pudores, e foi aí que eu percebi que o amor faz coisas loucas demais, porque para eles era mais fácil falar a uma porta na sua frente do que olhando nos olhos um do outro. Enquanto espiavam aquela porta, inconscientemente, falavam para eles mesmos e tinham a coragem para revelar coisas que “pessoalmente” não diziam, e assim, finalmente estavam confortáveis e seguros para confessar e ser ouvidos. Foi desse jeito que aconteceu quando Almir, encostado na porta sussurrou para Darlene, apoiada no outro lado da mesma: “Não sei se estou bem. Sinto sua falta”, e enquanto Almir enumerava as delicadezas das quais sentia falta, e Darlene explicava sua risada nervosa, rindo, ela finalmente questionou sobre o motivo de ter sido deixada, e ele compulsivamente despejou que também era cego e idiota. Os dois perceberam, naquele momento, que não havia nenhum sentimento, nem o mais tolo, que eles não compartilhassem e nada havia de separar aquela paixão recém-assumida, a não ser, é claro, uma porta e alguns móveis estrategicamente colocados a frente desta.

Então, no calor dos acontecimentos, Almir quis ver o rosto de Darlene. Darlene, comovida, quis abraçar Almir. Apesar do esforço para conter as ações, imaginando o que realmente havia de acontecer quando aquela porta abrisse, no segundo em que ele tirava desesperadamente os móveis que atravancavam a porta e derrubava esta heroicamente, nenhum deles pode deixar de sentir finalmente que estavam no seu devido lugar. Em seu próprio conto de fadas, ela era apenas uma menina triste e encarcerada e ele era alguém que salvava a desventurada da agonia intensa, e ambos sentiram vergonha da felicidade absurda em se olharem novamente. Acredito que nada mais carece de ser falado sobre isso a não ser que eles foram bastante felizes, talvez para sempre, e que eu fui o padrinho de seu casamento. Apesar de que, mesmo assim, tive de pagar os estragos com a porta.

Todavia, isso não foi nada, em comparação a tudo o que aconteceu.

Ed. 10 - Medie e o castelo (por Noel)

By admin On junho 13th, 2009 in Conto, Noel /

Lembrei hoje duma pessoa que há um tanto de tempo não vinha na minha memória: uma amiga das antigas que conheci inesperadamente anos atrás. Antes que pense bobagem, calculando nessa lembrança algo de pretensioso, deixa tirar de você qualquer inclinação a acreditar em um interesse afetivo, ou na construção de um conto romântico porque, na realidade, afeição é algo que Medie poderia explicar bem demais a qualquer um de nós, mas inspirar só um tiquinho mesmo. Ela é uma pessoa que sabe sim despertar carinho, mas sempre de um jeito tão terno, correspondente a seu jeitinho meigo e desconcertado, que raramente alguém ousa desviar um olhar mais malicioso, que nem se fosse sacrilégio. Entretanto, minha doce amiga havia de ser a moça de 20 anos mais solitária do mundo, e decerto, é a pessoa que melhor conheço para descrever solidão. Coitada dela, não é não? Sabe, isso não é natural, quer dizer, alguém assim afastado de tudo, só pode ser próximo demais de si mesmo, e quando foi que isso fez algum bem para alguém?

Bom, Medie tem uma história interessante que eu vou rapidamente dedurar, apenas porque tomando conhecimento da infância é sempre melhor explicado o caráter de um sujeito. Portanto, era uma vez, essa moça que cresceu em um castelo só seu, na realidade mesmo, era um prédio, mas ela gostava de imaginar um castelo e daí, que nem nas histórias, podia haver também um reino, um príncipe, uma fada e formas de resgate. Porém, vivia no centro da cidade, em um.edifício velho e abandonado que pertenceu a todos os seus antepassados, e ela, herdeira de um reino falido, não tinha condições de manter reparos, nem havia ninguém em volta que pudesse resgatar heroicamente seu palácio, ou dinheiro que pagasse seu valor sentimental. Então, Medie morou por toda sua vida em três andares de um prédio escuro e esquecido, donde não podia arredar, porque o centro era perigoso por demais, e como não tinha crianças, vizinhos ou irmão por perto, Medie cresceu aprendendo que seu mundo era grande, porém silencioso e vazio, e o mundo lá fora, era perigoso e cruel. Sabe que agora falando desse causo, notei que Medie sempre pareceu uma moça deprimida mesmo. O quintal dela, diferentemente dos da outra gente, envolvia salas enormes e sem mobílias, janelas que iam do chão ao teto, apesar de darem vista apenas para um muro, e grandes paredes revestidas de tecidos de veludo, e foi fuçando esses territórios que Medie descobriu que antes de ser sua casa, aquele lugar tinha sido um baita palco de espetáculos aonde os maiores artistas desse país iam apresentar regularmente, e na empolgação de uma adivinhação aquele tanto de especial e na tristeza de uma criança, bom, triste, ela fazia seus shows mais memoráveis, onde uma platéia imaginária, humana ou não, aplaudia ela de pé. Como era sempre sozinha, achava que todos também haviam de ser, por isso, não sentia pena dela mesma. Esse sintoma só foi aparecendo na medida que foi crescendo, especialmente na adolescência. Como ela havia de saber? Não existiam outras pessoas junto dela, o que conferia a jovem um caráter espantado que acompanhava seu acanhamento, por isso, não aproximava de ninguém e tinha medo das brincadeiras das outras crianças, não conhecia nenhuma daquelas traquinagens e zombavam dela. E aí, tinha mais sobressalto, pois criança quando quer judiar não há jeito de segurar.

Essa exclusão, porém, fez da moça uma observadora de primeira. E mesmo verdade que todas as pessoas muito observadoras são também muito solitárias, seja porque já é espinhoso o suficiente enxergar o ridículo do mundo, quanto mais ter de conviver com ele, ou, pela simples razão de que, para observar o todo, há necessidade de dar um passo para trás, fora do todo. Quando você posiciona para fora do radar, você fica realmente surpreso com o quanto é fácil passar despercebido, ainda mais em uma época onde a grande preocupação está mesmo é em torno de si. Se bem que isso daí é questão de costume. Entretanto, Medie, que sempre olhou por demais o outro na busca de entender quem ela é, chegou à conclusão de que não era igual não, e raciocinou que, no final das contas, ninguém era, mas os outros fingiam melhor. Eventualmente, as pessoas acabavam acertando os desentendidos, mas não entendiam ela. Medie era cheia de confusão desse jeito: ela sempre chorava porque a vida emocionava demais, mas, também sempre ria, pelo mesmo motivo, e é uma daquelas pessoas com hábitos esquisitos e bastante particulares, por exemplo, ela gosta de tomar banho de madrugada, na surdina, enquanto todos dormem, e no silêncio ficar ouvindo as gotas caindo, e no escuro, sentir os pingos rolarem no seu corpo, que nem uma surpresa, mas, ela não gosta do escuro propriamente dito. Todavia, ela anima mesmo é de dançar sozinha, só que fingindo que existe uma platéia e, quando as coisas estão meio agarradas, ela começa andar rapidamente em círculo. Que nem cavalo preso no redondel. Enquanto lê, gosta de explicar as considerações astutas que tem sobre o tema fingindo que está num daqueles programas de entrevistas, ou ganhando algum prêmio, isso tudo sem ninguém espreitando, mas, em ambos, ela primeiramente pede desculpas (ao vento) por ser assim inarticulada em público, e, para completar esse baita bololô de bistontado, ela sempre ama todos no geral, e nunca ninguém em particular. Apenas observando com muita presteza, você dava conta de descobrir quem era ela verdadeiramente, pois Medie não importava de ser rotulada que nem um mistério, e essa era sua desculpa para seu acanhamento. É uma pena as pessoas não terem mais tempo para resolver mistérios hoje em dia.

Enfim, o contexto de Medie estava fora de todos os outros. Por isso que dar conta de comunicar com as pessoas e firmar amizades era algo muito complicado. Você vê, para Medie, que nunca teve ninguém, ter um amigo era algo especial por demais, um voto de confiança, e ela era tanto feliz e tanto solícita para essa nova amizade que por várias vezes esforçava ao máximo na tentativa de fazer agrado, mas parece que esses esforços normalmente são mal compreendidos. As pessoas que são lá de fora, do tal do mundo perigoso e cruel, não estão lá muito acostumadas com bondade gratuita, e a interpretação que tinham dela era, obviamente, de que Medie queria alguma coisa, pois, algum interesse especial deve de ter alguém que doa tamanha atenção pelo próximo. Na certa que era tramóia da braba! Medie conseguia entender isso, mas ficava abatida cada vez que notava que sua atenção e amizade eram, para os outros, coisas assim meio estranhas, bastante fora dos limites. Para piorar, com o passar do tempo, ela foi conhecendo alguns sujeitos que, pelo contrário, aproveitavam, de patifaria, dos sentimentos dela para sair bem, e foi então que Medie decidiu afastar de tudo, já que até então, apenas haviam deixado ela de lado, e agora, ela maquinava uma resolução daquelas ardilosas, porque quando você se fecha, está aí a maior solidão de todas. Começou a amargurar em relação a tudo que rodeava ela e a ter medo de ser julgada ou usada, estava cansada de sentir vergonha de suas idéias e temia que nenhuma de suas fantasias e sonhos, construídos com tanto de apreço durante horas de ilusões em salões de veludo, tornassem realidade. Todas as noites, Medie pedia incessantemente para que alguma mudança sucedesse, mas, sinceramente, ela não fazia idéia se teria firmeza de encarar essa mudança na hora que ela chegasse. Enfim, a moça era covarde por demais, apavorava sobre a imprevisibilidade, sobre tudo aquilo que não mostrava garantia, parecia mesmo filha de pai assombrado. Assim, mesmo que algo incrivelmente novo tenham passado por ela, ela não viu, continuava atravancada em seu castelo, observando apenas um grande muro e imaginando o que haveria por de trás dele.

Então um dia, Alessandro Bordeau, interessado em comprar o prédio, ligou para Medie. Ele era francês e ela não entendeu nem uma palavra do que ele queria, e na hora que descobriu, abateu um desespero, pois, apesar de a venda ser boa para ela, ela havia de arredar de lá. Como podia de ser possível para ela, levando em conta que não sabia viver em outro lugar? Neste momento, por percalços da vida ou por plena conveniência, os dois acabaram apaixonando e vivendo juntos no castelo e Medie continuou a não conhecer neca do outro lado, mas estava satisfeita em ter seu universo compartilhado com alguém. Por um tempo. Afinal, é mais fácil do que parece estar completamente só, mesmo quando não se está, realmente. Não acho possível que a gente toda seja sonhadora o suficiente para escolher a solidão como forma de se esquivar da realidade, às vezes ela acontece sem querer, de acidente mesmo, em escolhas sutis, que nem da vez que o Almir, meu primo, disse de surpresa a Darlene, uma colega, que ela estava linda, e ela imediatamente gargalhou. Quer dizer, sua risada foi humilhante para ele, mas também foi uma resposta com resultado duvidoso, pois estava embaraçada. Porém, essa é outra história. O que é importante falar agora é de pronto o seguinte, a escolha nunca é sobre ficar só, é sobre o que e quem queremos por perto, e a partir do momento que temos tantos medos nós não confiamos e não deixamos ninguém aproximar, e foi isso que aconteceu com Medie. Apesar dos esforços de Alessandro, certamente era um tanto de dificuldade para ela deixar ele habitar sua vida, morando ali dentro, presente todos os dias… isso deixava ela confusa, invadida e ainda desconfiada. Então, aquilo que ela realmente receava criou forma, ele foi embora.

Medei passou a olhar em volta, caçando explicação do que tinha sucedido. Por que não foi capaz de deixar Alessandro entrar na sua vida? Depois de matutar um bocado, conclui que ele incomodava porque ele desarrumava tudo que estava arrumado, abria janelas e derrubava paredes, desrespeitava toda a tradição desse lugar e trazia uma inquietude e insegurança diárias que irritantemente não deixavam sossegar. Na realidade, todo mundo tem muito assombro do que não conhecem, receio de que tudo aquilo que seguiu desde miúdo seja firmemente contestado e que seus alicerces sejam de uma vez estraçalhados. Medie estava infeliz, mas havia uma baita segurança na sua infelicidade. Finalmente, tomando consciência disso, ela decidiu que não seria mais prisioneira dela mesma não, e`as 11:35 de uma quarta-feira, Medie pôs fogo em seu castelo e nunca mais voltou. Alguns dizem que ela ficou biruta e está internada, outros comentam que ela bateu as botas no incêndio, mas eu conheci Medie e prefiro de acreditar que ela foi atrás de sua felicidade e, como achou, ficou por lá mesmo, e toda aquela resistência em viver, transformou em vida. Essa resistência tímida que espiei sutilmente, um tanto de anos atrás, na pobre Medie em uma lanchonete enquanto ela cheirava sua comida, mais uma de suas particularidades. Foi por causa disso que lembrei dela, quando esses dias apareceu um tal de Leonardo cheirando seu sanduíche de queijo antes de dar a primeira mordida. Daí pensei duas coisas: “Como existem pessoas com tanta cautela sobre a vida” e, também, que “afinal Medie talvez não estivesse tão sozinha assim, pois no mundo existem muitas pessoas, de todos os tipos, inclusive o dela. Incrivelmente.”, acho isso porque todos já fomos solitários, pelo menos nos nossos piores dias.

Não sei como ela há de estar agora, mas continuo na firme idéia de que ela está boa e queria por demais notícias dela. Medie, se ler esta coluna, por favor, manda um recado, pois eu gostaria bastante de saber a quantas andam os salões de veludo e as platéias imaginárias.

Ed.07 - A união dos sentidos: Sinestesia …….. (por Noel)

By admin On maio 20th, 2009 in Conto, Noel /

É uma delícia conversar com a Maiara. Literalmente. Maiara foi a primeira mulher que fez esse pobre mancebo aqui suar de nervoso, tremer de desespero e sorrir sem motivo, e isso tudo bem antes de conhecer a moça de verdade.

Por sorte ou favor do acaso, ela era uma das espectadoras assíduas das apresentações que eu fazia com meu pai, na adolescência. Ah! Deixa eu contar que nas noites calorentas de fim-de-semana eu ajudava meu pai fazendo apresentações como ventríloquo enquanto ele tocava o acordeão, e isso se deve, primordialmente, porque meu pai já foi chamado o maior acordeonista que esse país já pôde ver, tendo sua música reconhecida e reproduzida até mesmo por Luis Gonzaga!

Bom, por causa disso, aqueles shows sempre muvucavam gente de toda parte e qualquer um podia ver de ponta a ponta do salão pessoas atentas e cordiais a nossa arte, enquanto eu mantinha minha atenção e cordialidade a uma jovem que, sorrateiramente, adentrava o salão e com seu jeitinho meigo e doce conseguia pegar o melhor dos lugares, bem ao alcance dos meus olhos. Nossos encontros viraram de rotina e eu ansiava de ver aquela formosura em seus vestidos de burgaliana, imaginando quem ela seria e donde vinha, e assim profundamente acreditava que ela não havia de ser alguém ordinário, ela era diferente. Certamente. Mas, eu tinha 16 anos e o que eu havia de saber do mundo? Neca! Nada mesmo… a não ser que Maiara era a mulher da minha vida, e que meu maior desejo era que ela compartilhasse do mesmo juízo. Afinal, por que ela iria tanto ao meu encontro? Por que fazia evidência, se só apresentavam mesmo eu e meu pai? Achei de pronto que o mundo não podia ser assim cruel de fazer Maiara apaixonar com seu futuro sogro, porém esse pensamento assombrou um bocado e fui ficando mais e mais impressionado à medida que espiava que ela, realmente, olhava bem mais para o meu pai do que para mim. Que dureza! Então, sem saber direito como fisgar sua atenção, sendo apenas um garoto apaixonado e iniciante na arte dos palcos, comecei a notar que quando eu falava coisa engraçada ou divertida ela tomava uma expressão de prazer e olhava para mim com um sorriso largo, o que estimulou rapidamente esse rapaz aqui a inventar cada hora um texto diferente e a ter coragem de improvisar, com a boa intenção de agradar a moça. Daí, eu apenas dizia uns trem que, na butuca, descobria que ela gostava e passava noites a fio escolhendo as palavras certas, num texto cada vez melhor, cada vez mais tocante.

Após alguns meses, senti que estávamos mais chegados, e, em um lapso besta, decidi fazer uma apresentação mais despojada, pois calculei que tínhamos conquistado uma intimidade onde podia haver um certo atrevimento, não carecia ficar matusquelando aquele tanto de tempo sobre o que eu dizia. Pois, afinal de contas, todos sempre gostaram do “boneco mal-criado” falando asneira para o ventríloquo. Esse foi um erro enorme. Logo que comecei a fazer a tal da brincadeira vi a careta de nojo no rosto de Maiara, estranhamente, e não entendendo nada, acabei por seguir com a apresentação, até que falei o primeiro palavrão, daí ela saiu troada e trancou no banheiro. Parei imediatamente. Não sei se parei por respeito ou choque. Só sei que fiquei sem um pingo de reação e tentei adivinhar se tinha feito alguma ofensa, já que não tinha idéia de que a dona era esse tanto puritana, ainda mais desse ponto de causar mal estar.

Naquele momento, eu estava bastante chocado, e por causa disso, conclui o show ali e meu pai, sendo bom de serviço como é, com sua sabedoria e anos de experiência, deu conta de conduzir a atenção do público para ele, não deixando ninguém notar o vazio do palco. Na hora, ele comandava a atração, enquanto eu, na porta do banheiro, esperava ansiosamente para saber o que havia sucedido com Maiara. Enquanto ela saía, viu que eu estava lá, ficou imediatamente vermelha que nem pimentão e desviou o olhar, porém, o meu olhar estava totalmente nela e não tinha jeito de arredar dali, daí eu matutei sobre a ironia dos acontecimentos, já que, para quem passou aquele tanto de dias flertando sob luzes e músicas, esse primeiro contato foi nada romântico. Só que eu queria saber se ela estava boa, e no nervosismo do momento despejei: “O que eu fiz? Eu fiz algo de errado, isso é certeza…”, e a menina, ainda com uma feição de enjoada, não sei de certo porque mas fez questão de ser simpática, o que me deixou ainda mais doido com ela:“Não foi nada não! Você não tem culpa”. Finalmente, ouvia suas palavras e conhecia sua voz, e durante esses segundos de devaneios um tanto inocentes, ela afastou de mim, bom, mas não havia jeito de remediar, pois estava firme na idéia de que tinha chegado até ali e recusava regredir dessa conquista. Ela, porém, apertava o passo, correndo rapidamente, obviamente fugindo de mim. Depois disso, entristeci: “Acabou”, pensei: “não existe mais o encanto. Ainda por cima, levei taboba”, e fui para casa, não podendo deixar de assumir toda a culpa por aquela noite, por fim conclui:“Eu assustei ela! Não deveria de ter cruzado a linha. Ela há de detestar minha pessoa!”. Nos próximos dias em que ela não apareceu, tive a certeza de que sua ausência era uma repreenda de algum erro que eu nem sabia de certo se havia cometido mesmo. Ô sensação larga e chata que nem iapa! Contudo, aproveitei esse período da punição para mor de refletir sobre o poder das palavras e tudo aquilo que elas são capazes de causar, e o quanto tantas vezes elas são distribuídas sem critério e outras vezes a gente arrepende de não usar elas, que nem quando você diz tudo o que não devia, menos o que gostaria. De qualquer forma, minha grande culpa era… calar, e, talvez, se tivesse a chance de mudar isso, tudo havia de mudar. Mas, Maiara tinha corrido de mim, e eu não sabia para qual direção.

Foi quando dois meses depois, avistei a menina numa quermesse perto do centro, e de pronto tentei seguir, só que perdi ela na multidão, porém, predestinado ao reencontro, fui fuçando cada centímetro daquela feira colorida, passando por barracas e pessoas barulhentas, e balões gigantes e fogos, e mais acima no final da rua, estava ela. Lá repousava a bela jovem que roubou meu coração e saiu avoada, com suas sapatilhas azuis e um vestido branco de flores, e aqueles cabelos meio presos por um frisete que dançavam no ar enquanto ela parada, mas ofegante, observava minha aproximação.Cautelosamente perguntei: “Você está boa?”, a que ela respondeu cansada: “Muito barulho. Não encontro minha tia”, portanto quis ajudar: “Posso ajudar a senhorita…”, e logo recebia a recusa: “Não”, mas, pelo menos, completou delicadamente, “não posso voltar para lá agora não”, e daí eu fiquei curioso por demais com tudo aquilo ali: “Mas o que há com você?”. Naquela hora, Maiara não estava mais cansada, na realidade, estava triste e nervosa, com os olhos cheios de lágrimas, que foram contidas tanto quanto sua explicação: “Tenho algo… sou diferente”, e se essa era sua tentativa de afastar minhas intenções, poucas coisas poderiam ser ditas e me deixar mais arrebatado. Ela era especial e isso eu já sabia e no instante que respondi “Eu sei que é, uai!”, ela ficou tanto surpresa de ser compreendida que resolveu explicar melhor. Por segurança.

Maiara é um caso raro de pessoas que conseguem associar vários sentidos a uma mesma ação, então, ela junta a visão, a audição e o paladar. Por exemplo, ao ouvir uma música, ela não apenas ouve, mas também vê cores e, se bobear até imagens, e quando ouve palavras, sente o gosto delas. Por causa disso, na apresentação ela olhava tanto meu pai, e aí estava explicado porque nas apresentações que eu ofereci palavras bacanas, ela sentiu prazer, e no dia que distribui palavrões, ela sentiu a boca suja, e lá na quermesse não foi diferente, ali a pobre teve de enfrentar sozinha um turbilhão de sensações ao mesmo tempo. É pura intensidade, e se chama sinestesia.

Fiquei interessado por demais, maravilhado por aquilo tudo, e comecei, compulsivamente, a perguntar que gostos as palavras haviam de ter e descobri que meu nome tinha gosto de bolo de frutas, e o dela de peixe fresco, o que, por um minuto, preocupou já que esses dois não combinam nada, em seguida ela contou que a letra A é muito saborosa e a palavra “madeira” é sua preferida, pois tem gosto de chocolate com canela, e também, que a nota SOL é azul, MI é amarelo, DÓREMI é laranja e que a sexta menor é cremosa. Entretanto, nunca bastava minha curiosidade e eu continuava perguntando tudo que vinha na minha cabeça para ela, a que ela respondia meio acanhada, e aos poucos, vi que minha empolgação deixa ela desconfortável. Falta de delicadeza minha, é mesmo. Maiara, afinal, era uma menina muito solitária, pois não era com todos que podia falar, não era tudo que podia ouvir, é, portanto, uma pessoa com a qual você precisa mesmo medir suas palavras. Seus campos de audição um tanto de vezes necessitavam de ser limitados, já que um grito era insuportável, e ela foi crescendo calada demais, distante e diferente. Você há de entender que, ela via e sentia coisas, que todos os outros não podiam, não é não? Isso é o mesmo que descrever precipitadamente alguém louco, e era assim que na maioria das vezes ela era tratada. Então, Maiara não queria ser especial, não queria exibir suas habilidades, porque o que ela queria era assim: contar o que sentia sem medo, e depois, ser apenas uma garota proseando com um rapaz.

Acontece que, eu podia bem oferecer isso para ela, pois amava a moça, de verdade. Ela disse para mim que gostava de ir aos shows, por causa que apesar de ter sensações diferentes, todos ali estavam envolvidos naquelas músicas e palavras e ela sentia que era normal, e que nos momentos que eu espiava ela, apenas a garota da fila da frente, ela sentia que podia ter uma vida comum. Entretanto, existia algo em Maiara que não era comum e que não podia ser esquecido, era algo extraordinário, um show particular, e eu disse para ela: “Todos nós temos algo único e todos temos segredos que os outros nunca entenderão. Nisso você não é nem um pouco diferente”. Eu não podia ser fingido, levando em conta que tinha apaixonado com ela justamente porque ela não era igual às outras, afinal, para mim, ninguém sorria que nem ela sorria, ninguém tinha tamanha sensibilidade. Não senhor!

Foi naquela noite, do primeiro de tantos outros beijos, que eu também, pela primeira vez, senti que era normal. Nunca tive a coragem de perguntar o que ela sentiu ou viu, mas sei que algumas lágrimas escaparam e seu olhar brilhou novamente, e ela cochichou: “Eu queria poder compartilhar com você tudo isso”, mal sabendo que eu também passava por uma experiência sem medida de beleza. Essa foi a mulher que ensinou para mim o poder das palavras, que até hoje carrego comigo com respeito, cuidado e admiração, sabendo que cada uma delas causa uma reação.

Ed. 04 - Cachecol e outros (por Noel)

By admin On maio 1st, 2009 in Conto, Noel /

Adivinha só! Dia desses, eu estava andando pela Rua dos Sinos, e na Rua dos Sinos eu avistei um senhor que parecia bastante com alguém que eu conheço. Ele usava um chapéu felpudo e vermelho demais, principalmente para um dia quente daqueles, e não parecia importa com a minha pessoa, mas eu também não importava com ele não, apesar de seu chapéu chamar minha atenção, pois já tive, uma vez, um cachecol da mesmíssima cor. Entretanto, o que é importante mesmo não é o cachecol, e sim as lembranças que este proporciona para mim. Você vê, são as pequenas coisas, contudo não são as pequenas coisas, porque as pequenas coisas são sobre as grandes coisas, considerando que tudo isso depende, na realidade, do ponto de vista. Gostaria de ser um tanto mais objetivo, mas não posso. Porém, posso sim, contar a história daquele tal cachecol.

Era inverno, e a cidade não costuma de ser fria, mas naquele ano foi, pegando todo mundo no pulo, daí eu tive de sair num dia daqueles, com um vento cortante, porque havia de fazer uma entrega de meu pai, que era carpinteiro: dois bancos de madeira e um violão. Ah, e isso tudo a pé mesmo. Até que cheguei a um ponto da rua onde a água das chuvas tinha inundado completamente a passagem, deixando paralelepípedos cobertos por um espelho d´água alto e terra enlameada. Parei ali para refletir sobre o que havia de fazer e sentei em um dos bancos. Eu, os dois bancos e um violão. Foi aí que um homem que passava espiou o mesmo estado lastimável que eu, parou, coçou a cabeça e virou meio carrancudo, foi em minha direção e sentou no outro banco, dizendo: “Rapaz, e agora, hein?”, então eu respondi: “Não sei, senhor. Estou pensando”, daí ele olhou novamente a rua, ponderando, e bronqueou decidido: “Bom, acho que não vai dar jeito, não. Não conheço essas banda e não vou ficar preso aqui. Tô com pressa”, depois preparou para seguir de encontro às águas. Bravamente, arregaçou bastante as calças e atravessou firmemente aquela rua. Naquela hora, eu raciocinei: “É…Eu poderia fazer isso”, mas, eu levava comigo dois bancos e um violão, e talvez não fosse a melhor maneira de atravessar, por isso decidi que havia de refletir mais um tiquinho antes de sair troado. Ô sujeito que medita, sou eu mesmo, uai. Logo, uma dona aproximou da rua, ofegante por demais, pois vinha correndo do vento desde a rua de baixo e acabou encontrando descanso no meu banquinho. “Nossa Senhora, que sufoco!”, ela resmungou com a bochecha rosada, e depois de alguns instantes levantou, articulando: “Conheço um atalho, a outra rua é mais alta!”, e seguiu um outro rumo. Matutei, “eu podia fazer isso também”, mas, após um pensamento de causa maior, analisei: “Aquela rua é mais alta, porque tem mais subidas e mais voltas. E eu, com essa tranqueira toda, não vou dar conta…”, portanto achei por bem esperar mais um bocado e pensar melhor sobre isso. Ainda mais que não queria fazer bobagem. Não, senhor. Então, uma senhora apareceu e pareceu mais intrigada comigo do que com a rua: “Ora, menino! Tá esperando um milagre? Essa rua só há de secar amanhã, bobo!”, a que repliquei: “Mas, o que posso fazer?”, e ela fez a tréplica, astuta: “Bom…eu vou cortar caminho pela casa dos vizinhos conhecidos até chegar na minha”, isso porque lá, as casas são divididas apenas por uma mureta. Falei gentilmente, “É uma boa idéia”, e ela foi embora. Mas, para mim não servia de neca. Além de não ter a tal amizade com os vizinhos da região, a minha bagagem era outra e meu destino também.

Bom, quando já estava vazio de idéia, vi um senhor de uma certa idade vindo bem devagar. No mesmo instante, ele identificou a situação e, calmamente, sentou no banco, depois disse: “Realmente, um dilema!”, o que eu achei engraçado, porque, de todos, era dele que eu esperava maior sabedoria. Mas, ele não deu uma resposta rápida ou totalmente irrelevante para mim. Ele foi a pessoa que mais tempo passou ali, do meu lado, simplesmente fazendo companhia até que eu chegasse a uma conclusão, e em um momento, comentei: “O que dificulta mesmo são os bancos…”, e ele observou: “Sim, mas eles são o propósito de você estar aqui, certo?”, e ainda confuso sobre que decisão eu havia de tomar, perguntei a ele, barganhando resposta: “O que acha que devo fazer?”, e ele ironicamente respondeu: “O que lhe é mais importante: os bancos ou os sapatos?”. Como aqueles eram meus únicos sapatos, a resposta não foi difícil. Estrategicamente, o que fizemos foi, por todo o trajeto da rua, colocar um banco na frente do outro, pulando um por um, até o final desta rua, e foi bastante divertido, todavia exigia uma coreografia perfeita que rapidamente dominamos, e nós dois conseguimos encontrar um ritmo tanto sincronizado que o fim da viela chegou e nem ficamos sabendo. Daí, quis retribuir toda a consideração que aquele senhor havia prestado a mim acompanhando ele em seu caminho antes de cumprir o meu. Durante o percurso, não resisti de curiosidade em perguntar porque ele havia dado tanta comporta para mim e ele contou: “De verdade, mesmo, por causa do violão”. Afinal, ele começou a prosear sobre sua juventude, e sobre como naqueles tempos adorava tocar violão, porém seu pai não gostava nada dessa vocação, e por isso não foi um grande músico, mas o primeiro violão que deu conta de arranjar era incrivelmente parecido em cor e tamanho com o violão que eu tinha às costas. Foi isso daí que de primeiro chamou sua atenção, nossa identificação, e apesar do instrumento não ser meu, fiquei lisonjeado demais com a comparação e agradeci pela ajuda com os bancos, a que ele despachou: “Oras, ajudou-me no meu rumo também, não?”. Ao chegarmos na sua casa, eu decidi dar o violão para ele, de presente, e ele, sem palavras ou condições de recusar algo especial daquele jeito e que remetia a suas lembranças afetivas, pensou que o mínimo que havia de fazer era dar seu cachecol para mim, o tal do cachecol vermelho, já que ainda estava frio por demais. Assim, eu usei o meu presente quando depois de lustrar os bancos, na casa do senhor, levei os benditos para os seus donos de direito, e estava com esse mesmo cachecol quando disse para eles que o violão ainda não estava pronto não, e omiti que este, na realidade, tinha ficado com o seu dono de merecimento. Usei o cachecol por todo o inverno e até hoje é o único que eu tenho, apesar de que, nunca mais ter feito tanto frio.

Por fim, o bacana dessa prosa é que, enquanto eu estava lá na rua, largado no assento, e matutando muito do concentrado sobre lama, decisões e bancos de madeira, percebi que cada um faz as escolhas que mais tem a ver consigo e dependendo da bagagem que carrega. Porém, ninguém faz esses percursos tão facilmente e com tanto prazer quanto aquele que encontra alguém no caminho para ter do lado, que nem foi com aquele senhor, o único que sequer deu trela para mim e preocupou em ajudar. Acho que na vida é assim mesmo, vez ou outra essas pessoas aparecem de espanto, e simplesmente, ajudam, porque elas não sabem fazer diferente. Por isso, esse cachecol tem esse tanto de importância para mim e por isso, instantaneamente lembrei dele.

Só queria prosear sobre mais um detalhe que deixou minhas idéias encafifadas, o detalhe do violão. Sempre detalhes. Esses detalhes. Ô mundo cheio deles! Às vezes é difícil ler, identificar ou traduzir esses danados, mas, eles vivem rondando a gente, cobrando que, um dia, sejam entendidos e admirados. Isso daí é porque as respostas não precisam ser criadas, elas vivem aqui, em uma vida mais longa e próspera que a nossa, e sempre insistimos em ignorar. Hesitamos em enxergar além. Tudo o que há para entender está diante e dentro de nós, o tempo todo. Refletindo desse jeito, até que as escolhas deixam de ser assim assustadoras. Não é, não?

Ed.01 - A Árvore da Verdade (por Noel)

By admin On abril 7th, 2009 in Conto, Noel /

Quem não adora uma cidade de interior? Não é só um ótimo lugar para relaxar, mas suas peculiaridades sempre quebram a rotina e revigoram o ar, e uma das coisas mais interessantes em cidadezinhas é que, normalmente, o que acontece lá, fica por lá mesmo. É por isso que muitas histórias ficam esquecidas e nunca passam ao conhecimento geral, mas, vou compartilhar uma que acho particularmente bacana e que tive a oportunidade de ouvir quando visitei um lugarzinho fora do mapa chamado Coronas. Alguém aí já animou de conhecer?

Bem, essa cidadezinha era conhecida pelos seus cachimbos, fábrica de tecidos e pela sua variedade de flores. Contudo, um senhor chinês Archimo Kori, acupulturista e bonâtico que lá vivia, um dia apareceu na feira de sábado da cidade com sua nova criação. Havia criado uma arvorezinha nova que muitos confundiram com bonzai e isso deixava Seu Archimo fulo, já que ele não era japonês. Seu Archimo tinha um temperamento difícil, como todo gênio, então, todas as suas plantas vinham com um “manual de cuidados” e se ele desconfiasse que você não seria capaz de cuidar delas, ele o expulsava de sua tenda batendo um gongo ensurdecedor. E relativamente humilhante.

Então, como ele vivia caçando confusão, poucos se arriscaram a perguntar a ele sobre a nova arvorezinha e muito menos tiveram a ousadia de perguntar se poderiam de ir lá comprar. Mas, Dona Jacira, uma cliente regular e igualmente excêntrica de quem Seu Archimo comprava produtos de limpeza naturais, ficou intrigada sobre a vistosa folhagem. Antes que ela sequer perguntasse, o chinês revelou: “Pala complar mina avole tem que tê muta colagem”, a que Jacira respondeu: “Aqui, o senhor acha que tenho medo do senhor? Essa é boa demais!”, e reagindo àquilo que considerou uma provocação, impetuosamente soltou: “Pois eu quero comprar, sim. Achei muito graciosa e tenho um lugarzim pra ela. Tá `a venda, não?”, e em resposta o chinês sorriu. Ele sorriu porque gostava da amiga, mas, principalmente, sorriu porque sabia de algo que ela não sabia. Ela pegou a planta e enquanto saía perguntou: “Ela deve de ficar em jardim, certo?”, e Archimo disse: “Sim, bem a flente de sua casa”, e lembrou: “Sem devolução”.

Em menos de um mês, a árvore cresceu vistosa, com folhas brilhantes e de formatos diferentes que chamavam a atenção de quem passava, com suas flores formosas de várias cores em seu tronco largo. Logo, todos passaram a comprar a árvore para embelezar seus jardins e ela começou a aparecer em todo o lado no campo.

Mas, então, algo estranho começou a acontecer. Depois dos primeiros dois meses, as árvores começavam a mudar de aspecto e, dependendo da casa onde estava, ia assumindo características particulares. As pessoas não entendiam porque, uma mesma árvore, havia de apresentar tantas variações. Até que, Seu Inácio, dono da farmácia, ganhou na Quina da loteria um tanto de dinheiro e, no dia seguinte, sua árvore amanheceu com as folhas amarelas que nem ouro. A cidade inteira parou diante de sua casa para entender aquele espetáculo, onde todos olhavam, surpresos, a grande descoberta.

Foi assim que perceberam que aquela era uma árvore que mostrava verdades sobre as pessoas que as possuíam, e com essa revelação na mente, não puderam deixar de notar, por exemplo, que a árvore do casal recém-casado ficava cheia e verde, e que as árvores do prefeito e do outro tanto de rico, tinham tons amarelos, e que a da Dona Cássia, que acabava de ficar viúva, estava murcha… E assim sucessivamente. Era uma árvore do humor, mas que concedia informações mais específicas.

Assim como o anel, a árvore da verdade virou sucesso entre as pessoas do lugar. Todos tinham uma e todos queriam saber qual seria a sua verdade e o que mais elas poderiam descobrir sobre si mesmas. Em determinado momento o prefeito chegou a decretar a árvore como símbolo da cidade. Com direito a feriado e tudo.

Entretanto, depois da euforia, a verdade começou a incomodar e, logo, a mexer com o povo.

Um dos problemas era que a árvore, se plantada nos fundos da casa, não crescia, pois ela necessariamente devia ser plantada nos jardins da frente onde, inevitavelmente, poderia ser avistada por todos. O segundo problema era a interpretação muitas vezes ardilosa que alguns faziam da verdade, como quando as folhas da árvore da viúva começaram a ficar avermelhadas e todos sugeriram que ela tivesse um enrosco com seu cunhado, quando, na realidade, o amor que se podia ver ali era o amor de irmãos e amigos que apoiavam um ao outro após uma perda. E o terceiro problema era, certamente, o mais óbvio. A árvore estava revelando por demais.

Ninguém estava preparado para tantas verdades e ninguém sabia lidar muito bem com elas. É costume, para uma boa relação, que haja um bocado de diplomacia em expressar sentimentos e idéias, para o bem e harmonia de todos, principalmente em cidades pequenas onde você necessariamente encontrará essa pessoa amanhã. Como manter a tal da diplomacia, se a verdade está nítida e reluzente sob a luz do sol, em frente a nosso quintal, provando que é nossa? As coisas começaram a ficar difíceis na cidade já que ao mesmo tempo em que ninguém queria ser o primeiro a arrancar a árvore, pois não queriam ser julgados como alguém que tem algo a esconder, não podiam mais aguentar a exposição. Alguns tentaram distorcer a verdade, pintando ou colando folhas, fortalecendo troncos e remendando galhos, mas a verdade não podia ser encoberta e logo aparecia. Como o disse que me disse sobre a árvore dos outros nunca paravam, na ingênua tentativa de desviar as atenções de suas próprias árvores, o clima já era devidamente tenso quando Inês percebeu que toda vez que passava pela casa de Olívia, as folhas da árvore desta ficavam roxas. Estava claro, então, que Olívia tinha sentimento ruim por Inês e esta nunca deixaria passar tamanha humilhação pública. Imagine só!

Foi após esse grande bololô, com direito a tapa e pontapé, que os líderes da cidade concluíram que, se não dessem um jeito na situação, ela sairia de controle. Houve uma revolta generalizada e foi instituído que todas as árvores seriam cortadas e queimadas, e estava proibida a comercialização e plantio das tais nos limites da cidade. Foi feita uma fogueira imensa e armaram uma festa em torno dela, e com isso, a paz voltou ao vilarejo e as pessoas voltaram a ser como eram antes, além de, logicamente, Inês e Olívia fazerem as pazes. Afinal, era tudo culpa da árvore…

Era muito difícil conviver com a verdade, sem segredos, sem mentiras. Como poderíamos ser nos mesmos, se o que somos fosse descoberto de forma inegável? E quando a verdade não dá para nós o luxo de parecer, apenas ser, o que se há de fazer? Ninguém quer sentir esse tanto de vulnerabilidade. Estamos tão acostumados a viver o que não somos que quando a verdade aparece, ela se apresenta mentirosa, grosseira e cruel, quando obviamente, nós que primeiro fomos mentirosos, grosseiros e cruéis com ela. É mais do que podemos suportar.

Era isso que eu discutia com Seu Archimo em Coronas. Ah! Pois não contei isso de primeiro? Nos encontramos por acaso após ele ser expulso dessa cidade que mencionei e ir troado para Coronas. No momento que ele contou essa história não pude deixar de perguntar: “Foi isso que o senhor quis dizer quando falou de coragem?”, foi quando ele riu, e disse: “Plecisa muita colagem pla deixar vedade vivê no quintal”, e começou a gargalhar, descontrolado.

Então, quando perguntei se aquilo tinha sido uma brincadeira com a cidade toda, o bilontra ficou sério e deu uma gongada a 10 cm do meu rosto. Daí eu fui embora.