De primeiro, em uma atmosfera particular, Arthur Renonciere, pegou um pedaço de papel e começou a escrever. Lá, ele declarou suas mais finas intenções em relação ao mundo, a vida e as pessoas que cercavam ele. Deixou claro também, tudo o que se havia cumprido ou deixado de lado e tudo aquilo que se havia ganhado ao longo de uma grande andança. Arthur sofria de um dos mais sabidos males da humanidade e, absorto pela dúvida e pelo medo do fim, não pode ser diferente ao relatar apaixonadamente a vida que construiu. Seu desejo de longevidade só não era maior do que seu desejo de ter feito a diferença. Sem saber que fazia isso mesmo em seus minutos finais, Arthur foi arrebatado pela angústia, seguida de uma tristeza, seguida da paz, propriamente dita, que sombra todos nós.
Logo, desta maneira que foi feito o primeiro testamento do mundo. Todavia, ao longo dos tempos essa carta emocionada foi sendo modificada, já que nenhum testamentário dava conta de chegar ao seu fim sem ter grandes reações chorosas de entes queridos. Os testamentários entraram em acordo, frio, porém eficaz, sobre como a tal carta devia de ser lida e, afinal, ela acabou resumindo apenas a parte de “vida que construiu”, ou seja, bens, pulando, definitivamente, a parte de “significado da vida” que só deixava as pessoas mais deprimidas. O fato de nós mesmos não sermos as pessoas mais imparciais para falar de nós mesmo também influiu sobre a firmeza da decisão, dando um ar de redundância a tudo aquilo que gostaria de se auto-explicar.
Portanto, a invenção de Arthur, que nem tantas outras, foi corrompida na sua essência e intenção, porem, enquanto a família Renonciere vivesse, ou, morresse, tal significado não seria esquecido sendo, então, o formato de testamento de Arthur e sua preocupação em ser lembrado mortos em uma cajadada só. Confesso que sabia não de tal história antes do fatídico dia 29, quando Carlos Augusto Figueira Renonciere, amigo meu de longa data, morreu de medo da morte. Falo isso, porque ele teve um ataque cardíaco após a cazumba de ser picado por um mosquito que transmite uma doença infecto contagiosa rara e incurável, que alastra em cerca de uma semana. E aí, para que esperar, não é mesmo?
Assim, ali estava eu, em um velório de um Renonciere. Conforme cheguei, notei uma música estranha que mal se havia de ser reconhecida, pois o barulho das vozes das pessoas era demais. Era um velório animado, colorido, havia um bolo, que nem o de casamento. Fiquei cabreiro de que, a qualquer momento, cantassem parabéns. Entretanto, a família estava isolada e chegar até ela exigia um ritual de apresentação todo diferente que ditaria se você continuaria na festa ou não. Primeiro, você passava por umas correntes de prata, e depois de pegar uma fila agarrada falava seu nome e de onde conhecia o defunto, o que era bestagem demais, já que estamos falando de uma cidade pequena, onde todos já mais que se conhecem. Talvez por isso quisessem a presença apenas dos mais próximos… Quem sou eu para questionar tradições?
Então, apresentei minha pessoa a família, dando minhas condolências. Eles já me conheciam desde a infância, então o teste foi relativamente fácil e daí, podendo circular livremente pela festa, pude finalmente, aproximar do caixão. Quando fui ao caixão despedir, notei o quanto as pessoas ficam diferentes quando estão mortas, quase irreconhecíveis, e isso assustou por um tempo, mas não mais do que o momento em que um parente chegou para mim e falou, “O que achou?”, e eu surpreso falei, “Do que? Do meu amigo morto?”. O sujeito riu e lançou “Foi $75 mil, de primeira qualidade”. Achei estranho o homem, espiando o parente falecido comentar o preço absurdo do caixão, mas, novamente, já tinha percebido que estava em um velório comum não. A comida era farta, a bebida também e toda aquela recepção tinha cara de casório, onde todos esperavam pelo evento maior, sendo que nesse caso, não era a noiva vistosa entrar na Igreja. Era um senhor de aparência duvidosa direcionar ao púlpito para uma leitura.
A certo ponto, percebi que o testamentário, tratado que nem um artista,
estava sem noção de tenso. O testamento ou carta seria lida ali, para todos, após as palavras dos mais próximos. As palavras dos mais próximos foram emocionadas, naturalmente. Talvez longas até demais. Histórias sem sentido sobre passeios em comum e conversas noturnas compartilhadas, afim de mostrar a intimidade destas pessoas, mas que, na realidade, para a maioria presente era apenas mais uma forma exagerada de falar de alguém que já foi pro beleleu mesmo. Aliás, maximizar impressões sobre uma pessoa quando ela morre é algo muito costumeiro. Se alguém era bacana, vira maravilhoso; se era bom de serviço, vira “o melhor empregado que já tive”; se era um besta, vira “alguém com um humor único” ; e se era inconseqüente “um espírito livre”. Com Carlos, foi diferente não. Todas suas qualidades e defeitos foram devidamente descritos da melhor forma que se havia, seja por carinho ou para não estragar o momento. Existem coisas que realmente ficam melhores olhadas de longe, e enquanto eu imaginava se Monet teria tido tal impressão também em um velório, era a hora do testamentário falar.
De acordo com a regra, o testamento completo deve ser lido no velório para todos os que participaram da vida do presunto e que estivessem presentes. Por isso, normalmente o povo tem muita cautela mesmo sobre o que escreve em seu testamento. Afinal, quantas vidas se há de serem afetadas com simples revelações? Mas, Carlos tinha outra opinião. Quando alguém tivesse o direito de ler seu testamento, ele estaria morto. Então, que se lasquem. Não valia um tostão furado! Contudo, poucos ali tinham conhecimento suficiente para ter certeza da impetuosidade desse caçador de confusão. O testamentário, conhecendo a declaração pós-morte do cliente, foi vagaroso até o microfone. Como quando alguém lê uma sentença, falou pausadamente e da forma mais firme que dava conta, deixando escapar um tremor de voz, vez ou outra:
“Ao testamentário: Sei os costumes e rituais de minha família e conheço as regras de conduta quanto tal procedimento. Assim, entendo que seja papel do testamentário presidir minhas palavras da forma mais gentil e, por vezes, utilizando de uma entonação afável por demais. Essa não seria a maneira correta de interpretar meus sentimentos e palavras finais. Acredito que, quem deve me representar nessa altura é uma pessoa que me conheça, tanto de maneiras quanto de pensamentos, e que, tenho certeza, irá usar palavra por palavra, sem tentar erroneamente suavizar a questão. Peço, então, para que outra pessoa leia meu testamento: meu amigo, Noel Aragão.”
Ah! Quando falaram meu nome, fiquei em choque mesmo e de orelha em pe, juntamente com todos os presentes que, imediatamente, encararam. O testamentário, nervoso e sem graça, me chamou de canto e sussurrou: “Aqui, sei que foi o pedido dele… então, se não pode passar mel na boca, meu conselho é: leia rápido. Bem ligero, para que não dê tempo de assimilar nada e arreda. Todos odeiam mensageiros”. Nessa hora, questionei meio confuso, meio com dever de justiça, “Mas, não era isso que ele queria…” e então ele acrescentou sabiamente“Ele está morto. Quem vai encarar o povo é você…”. Compreendendo, agora, o grande mantra dos testamentários, fui até o microfone, ainda em choque, só que, eu sou testamentário não, e por mais difícil que tivesse sido a situação que esse amigo gozador me colocou, talvez fosse sua última risada. Não queria ser responsável por uma infelicidade eterna, não mesmo.
“Queridos amigos e familiares, e convidados que eu nunca conheci, acompanhantes, pagos ou não, e aqueles não tão queridos assim…”. Nessa primeira frase, o pessoal imediatamente já ajeitou na cadeira. Todos nós sabíamos, naquele momento, que viria bomba e como todos temos segredos e uns trem para esconder, a inquietude pairava no ar. Silenciosa, mas cortante. Limpei a garganta e continuei “Quero deixar claro que faço esse testamento obrigado e que, apesar de não achar necessário, todos ainda insistem nesta tradição. Pois bem, se o que todos querem lembrar é a intenção de meu tataravô, então falemos de integridade, verdade e valores, coisas que já não vivem aqui há bastante tempo” alguns murmurinhos me lembraram de que eu deveria falar mais rápido“Na realidade, tem muito pouco a ver com ostentação ou tradição. Aliás, qual é a idéia dessas tranqueira dessas corrente de prata, afinal?”, algumas pessoas riram e depois sentiram sem graça mesmo. Logo prossegui: “A parte da integridade, tenho orgulho de dizer que tive uma vida correta por demais, sempre ajudei quem careceu e tudo que tive de mais importante esteve perto de mim, que nem a família e amigos. A parte da verdade, nua e crua, não tenho tanto orgulho de dizer que muitas coisas necessitavam de correção, ajudei quem pedia e não necessariamente quem carecia e tudo de mais importante, que nem família e amigos, estiveram por perto enquanto queriam algo em troca”.
Foi aí que o irmão perdeu a tramontana: “mas, o que é isso?”. Por sorte, o testamentário interveio a meu favor e a irmã mais velha de Carlos fazendo vista grossa mandou prosseguir “Chegando, finalmente aos valores. Ces não mede o quanto valorizei a vida que tive e fui feliz justamente porque nunca troquei meus valores e aquilo que acreditava por dinheiro nenhum. Por isso, tio Bernardo pode pegar o dinheiro que quis fazer comodo para vender meu voto na companhia e enfiar naquele lugar, seu velho bilontra”. A outra irmã, nervosa demais, falou “Tio Bernardo morreu ano passado. Então, deixe que essa ele fala pessoalmente”. Balancei a cabeça e continuei “Para a currutela de fofoqueiras e santas do pau oco, deixo um teto de madeira bastante maciça para aguentar tanto de rabo preso. Para minha irmã mais velha deixo meu lustra móveis, assim pode polir a cara de pau enquanto passa a perna na família com seu jeito sonso, mas perspicaz, eu confesso. Para meu irmão, deixo meus votos sinceros de mais competência já que todos sabem que será impossível formar em vagabundagem com maior louvor. E para a caçula, deixo um pedido insistente para que entre logo na reabilitação, e aproveite e leve a tia Elaine. Para o primo Julio, que todo ano troca a esposa por uma biscate, sugiro que dê mais atenção à filha enquanto ela ainda quer espiar sua cara. E não menos importante, deixo para o goiabeiro tio Miguel minha coleção de discos que o filho duma porca pelejou comprar por $9 quando eu tinha 12 anos.”.
Bom, nem careço de dizer que foi aquele bololo. Nessa hora, tomaram conta discursos indignados, pessoas choravam e outros ofendiam Carlos. Este, pelo que eu conheço, devia estar em seu plano astral lascando de rir mesmo. Na verdade, sabia que ele era da pa virada, a ovelha negra, mas em um evento tão importante para aquela família quanto o velório, foi golpe baixo mexer com isso. Entretanto, infelizmente, ainda faltava um parágrafo. Por sorte, enquanto todos discutiam, passei o olho naquelas palavras, e aí, fiquei surpreso, pois havia um parágrafo inteiro dedicado a algo que não existia, dava para ver que havia sido escrito depois, talvez com outra idade. Portanto, resolvi erguer minha voz e falar o que finalmente parecia ter vindo do coração de Carlos. Palavras de amor. Todos deram comporta para ouvir, uns por curiosidade, outros porque talvez houvesse ali informações valiosas. “Para minha esposa, peço que tenha calma e fé. Definitivamente, você foi a pessoa mais importante que surgiu em minha vida, e só posso ter essa certeza, pois você foi a única que escolhi como minha. A única que me fez cometer a loucura de ser só seu.”
Nesse momento, todos entreolharam, abismados. Muitos procuravam a tal esposa, mas outros, os mais próximos, entenderam. Carlos nunca achou que iria tão cedo. Quando fez o testamento obrigado, pensou que estaria mais velho em sua morte, teriam uma família, teria construído uma vida. Talvez ate tivesse encontrado alguém, a responsável pelas palavras, mas nada teve tempo de ser feito. Aquilo não era um testamento sobre o que foi sua vida, mas sobre o que ele esperava que fosse. Seus desejos, seus sonhos. Então, de repente, os olhares de raiva e repreensão foram transformando em de tristeza e pena. Por essa Carlos esperava não, isso ele não queria jeito nenhum, mas, segundo as regras e a seus próprios pedidos, tive que prosseguir, eu dei palavra de rei “A minha esposa deixo tudo, pois tudo já é dela. A meus filhos…”, nesse instante, a irmã mais nova teve que sair troada da sala. Estava chorando compulsivamente. “A meus filhos, mais do que meus bens, quero deixar algumas lições. Contudo, mais do que lições quero deixar um abraço apertado de quem amou vocês por demais, mais do que tudo. Por favor, nunca duvidem disso! Se duvidarem do meu amor, saberei que não fui um bom pai. Então, tenham piedade d’eu! Sejam o melhor que puderem, mas não melhores em tudo, pois ganância e egoísmo não é algo que quero em vocês. Sejam felizes e verdadeiros, nunca subestimem as pessoas, elas podem e, se tiverem sorte, irão surpreender. Enfim nunca deixem os outros dizerem o que vocês devem ser, como eu acho que acabei de fazer. Já tenho saudades! Nos encontraremos em um momento feliz. A todos só queria dizer que, apesar de tudo, sempre amei vocês. Só que em alguns momentos mais e outros menos. Mas, sempre amei vocês.Este foi meu testamento, gostem ou não. Carlos Renonciere, 25 de agosto de 2004.”
Todos estavam, finalmente, em um silêncio verdadeiramente fúnebre.
Os irmãos, que eram os mais bravos, entenderam que naquele momento eles podiam amar menos Carlos, mas, era mentira dizer que, apesar de tudo, não amavam ele, a sua maneira. Esse clima de amor delicadamente tomava conta. Até, pelo menos, alguém mais rancoroso lembrar de que havia sido insultado e daí começaram a levantar. Nenhuma lição levada, Carlos choveu no molhado, coitado. Alguns foram embora imediatamente, outros ficaram para raspar as sobras da festa, porem eu, ainda observava tudo, pelejando entender o que se havia acontecido. O que eu estava sentindo? O que eles estavam sentindo? Porque parecia que meus sentimentos e os de todo o resto eram tão diferentes? Ah! Tudo bom, eu fui o único que não foi ofendido. Deve ser isso.
No final, notei uma fila para pegar uma espécie de lembrança, eram saquinhos, com terra. Não, era terra não, eram cinzas. Cinzas do falecido! Aí, descobri que os 75 mil não eram do caixão, e sim da réplica do corpo de Carlos no caixão. A idéia é que todos os mais próximos tenham essas cinzas e deixem elas ou despejem em um lugar particular onde lembrem do morto, que nem uma homenagem. Depois do testamento, eu digo que muitos utilizaram a privada como “lugar especial” para depósito de cinzas.
Naquele dia, entretanto, eu estendi a viagem mais um tiquinho e, no caminho, eu e Carlos tivemos uma longa prosa sobre a brincadeira bistontada que ele havia pregado em mim e em todos os outros que nem um adolescente da bola virada, e sobre o quanto era triste ele ter deixado para depois até mesmo falar o que ele queria para sua família, quando seria muito mais corajoso ser dito por ele mesmo. Mas, principalmente, disse que sentia demais por tanto de coisas não terem realizado na vida dele. Pois o tempo havia sido suficiente não, nem mesmo para ele crescer e espiar a vida com mais harmonia ou a morte com mais importância. Infelizmente, ali havia muita gente para quem ele podia entregar suas mágoas e nenhuma para qual ele dava seu carinho, tão bem descrito e terno, vivendo nele e esperando donos. Aí, despejei suas cinzas na lagoa, onde na juventude nós íamos pular, nadar e desfrutar duma vida tão despreocupada porque, quando você é jovem, tudo parece tão possível. Eu deixei ele naquelas águas, naquela época, em que nossos sonhos e felicidades viviam juntos para que, talvez, eles renasçam em outras margens, e em águas mais pacíficas.